Revista Rua

2020-10-12T12:17:49+00:00 Opinião

A riqueza de ser leve

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
12 Outubro, 2020
A riqueza de ser leve

Ao fim do dia fica a pergunta sacramental: e agora? Agora fazes algo com o que tens, que é tanto. Escreve até te doerem as mãos, escreve apesar de nem sempre compreenderes o que te é dito, o teu paraíso está sempre aqui, basta fechar os olhos para compreender tudo e ver para além do que vês, estão todos cá enquanto cá estiveres também, não estás sozinho, nada te falta, és rico sem o saberes e basta-te pensar nisso para sorrires por dentro, com os dentes do coração à mostra, um por um, o teu passado é sempre, não se some, ninguém se some, o presente é a fermentação da memória, lembra-te disso, és quem foste e mais uns tantos que ignoras, quando eras miúdo o que é que fazias? Disparavas uma pistola de fulminantes e punhas-te a um canto a escrever. Agora não há pistola, por isso escreve, que sempre o fizeste, foi por isso que te puseram aqui. Só não te conformes: nem com o que pensam de ti nem com o que pensas de ti. Também não tentes: faz e ponto final, não é preciso pensar, é só fazer. À medida que escrevo, um tremor, um fiozinho de medo por desconhecer este caminho, estas palavras que nem sempre são minhas,

(que palavras é que nos pertencem, na verdade?)
quem ordena as letras formando imagens de memórias que não são só as minhas mas as dos outros, que me ficam no fundo da alma e que não alcanço quando pretendo, que emergem como escafandristas, num ápice, e ficam à tona, a boiar, e eu penso:

– Que faço eu com isto?
resposta simples, claro: vais escrevê-las, Francisco. Sem as peneiras que filtram o Verbo, só a verdade, a honestidade absoluta e brutal do desconhecido que só pode ser escrita de uma única forma, virando o coração ao contrário e ver o que é que pinga para o papel até que nada chocalhe, até que a última gota caia, o último reflexo de vida, o último sorriso disfarçado entre dentes, tudo e nada na mesma malha tecida sabe deus como e eu esteja leve. Penso muito num poema do Pessoa, que vai mais ou menos assim:

“Depois, ou morte ou sombra o que aconteça

Que fique, aqui”
e que fique aqui, que fique, o Francisco vai gatinhando para longe sem olhar para trás.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

Partilhar Artigo: