Revista Rua

2021-01-05T14:33:06+00:00 Opinião

A ronda da noite

O poder está na RUA! #4
Rui Madeira
5 Janeiro, 2021
A ronda da noite

Antes de me aventurar a cronicar sobre Braga, capital europeia da Cultura, inicio a colaboração em 2021, ainda sob auspícios natalícios, em jeito de “peregrinação de deserdado” que vindo do fundo dos tempos percorre hoje a urbe sentindo-lhe o passado.

Pelas vielas despidas de luas vagueia branco o silêncio em silêncio. A vida gela as taramelas de fogo dum tempo sem tempo na calçada em lâminas. O frio a rigor e frio penetra em surdina pelos algerozes e amesenda-se por dentro dos corpos glaucos mutilados ao anúncio da aurora. A luz rareia nos vitrais e projecta halos, mínimos cristais de almas penadas trespassadas de facas contra as paredes exangues entre rodapés de ébano lustres acetinados e sanefas escarlates de pó ecoam passos passados de antepassados por cima da abóbada de ais.

Os morcegos farfalham e trissam num bater de asas entrincheiradas que estão nas gadelhas do demo por baixo da abóbada dos claustros. O frade da ladainha a meio da noite agita nas mãos a cana de sebo e reza para que venham mamilar do sangue da porca que espreguiçada na soleira os atende. Há asas murchas de pombas esqueletos no chão e penas a rodos redemoinhadas no ar batidas pelo voo das asaspatas dos morcegos. Ratas-gatos lambem o leite que escorre das latrinas e mordem a membrana dos alados sustidos em acrobáticas poses pelo cordão umbilical do frade. No mosteiro ressoam gritos e ritos e mitos.

Coros em surdina na noite medonha de caverna. Latidos esfaimados e piares de coruja a sorver lamparinas antes do sol por ali penetrar e a recolher asa na espera do tempo dos mortos: o da lavra e o da reza. O paramentar dos corpos lívidos de cera nas noites antes das matinas. Há urros por dentro nas paredes de pedra e gemidos sob os lageados bocas espumadas de lobos esfaimados e balidos de cordeiros pascais antes da dádiva para o jorrar do sangue roxo libertador da catequese. Súbito silêncio depois do suplício. A Paz. A Oração. A Cruz. A Luz.

Néscio Dia!

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Diretor artístico da Companhia de Teatro de Braga.

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