Revista Rua

2021-04-08T09:34:56+01:00 Descobrir, Em Destaque, Viagens

A sustentável arte de ser Sublime

Visitámos o Sublime Comporta Country House Retreat e encontramos o local perfeito para desconfinar.
Fotografia © Fábio Espírito Santo
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva6 Abril, 2021
A sustentável arte de ser Sublime
Visitámos o Sublime Comporta Country House Retreat e encontramos o local perfeito para desconfinar.

Em pleno Alentejo, mas apenas a hora e meia de distância da capital, encontramos um lugar encantado, rodeado de pinhal e eucalipto, sobreiros e tantas outras espécies endémicas, onde javalis, coelhos, lebres e toupeiras vivem em liberdade e sem medo de intrusos. No Sublime Comporta Country House Retreat a verdade é que nós somos apenas os convidados, uma vez que a Natureza impera, rainha e senhora do que nos rodeia e onde é tratada com o respeito único que merece.

A primeira sensação que nos atinge ao chegar são os sons da Natureza ou o silêncio do que resta para além dela. Em região alentejana, mas ainda na transição com a península de Setúbal, na estrada que liga Grândola à Comporta e daí para vários outros destinos emblemáticos dos quais se marcam as paisagens dos arrozais do Sado, os sabores que nos trazem o rio e o mar e uma costa brava onde o areal de estende por várias dezenas de quilómetros a perder de vista, desde Tróia a Sines, o Sublime Comporta destaca-se exatamente por não se destacar. A entrada, a partir de um portão cor ocre, passa quase despercebida a quem circula pela estrada nacional e, uma vez dentro da propriedade, é preciso estar atento para perceber onde se localizam as várias habitações, designadas por quartos, suites, cabanas e villas, totalmente em sintonia com o espaço físico envolvente. Aqui a pauta é, sem dúvida, o conceito de privacidade e a conexão com a Natureza.

Cada habitação é diferente das demais. A decoração associa elementos provenientes da inspiração dos proprietários, Gonçalo Pessoa e a sua esposa, Patrícia Trigo, ele comandante da TAP, ela ex-assistente de bordo, apaixonados pela região que conheceram através da família Mirpuri, amiga de longa data, e que também costuma passar longas temporadas no Sublime. Podem assim encontrar-se elementos que tanto lembram o oriente sul asiático como o próprio Alentejo, claramente resultantes das viagens feitas pelo casal.

Fotografia © Fábio Espírito Santo

Atualmente, como resultado da situação pandémica, vários espaços comuns estão encerrados, pelo menos até 5 de Abril, como o restaurante Sem Porta, o que implica uma maior contenção dos hóspedes às suas casas, totalmente equipadas com o essencial. Contudo, a questão mais colocada é se valerá a pena sair do “nosso” espaço. Quartos com acesso a terraços e jardins privados, alguns com piscina, completamente equiparáveis a pequenos apartamentos, mas sem deixar de transparecer o ambiente rural, tornando praticamente impossível o contacto com os restantes “vizinhos”. Depois, a disponibilidade, simpatia e atenção de um staff que atende sempre o cliente e os pedidos que vão sendo feitos. Poderá parecer estranho, mas uma vez que a área é tão imensa, a presença de buggies elétricos é uma constante. Não se ouvem, às vezes não se veem, mas estão lá, conduzidos pelos funcionários, fazendo o caminho entre o edifício central, onde tudo é preparado com o maior cuidado, e todos os outros destinos, onde os hóspedes são tratados de igual forma, sem distinção, numa cumplicidade única, bem longe do formalismo e distância característicos de outros espaços e hotéis urbanos.

Sublime sustentabilidade

Se a simbiose com o meio ambiente é a prioridade, no Sublime o objetivo sempre foi a conjugação entre Homem e Natureza onde quase nada é desperdiçado. Numa visita guiada pela propriedade, onde Simona Soulé e Ricardo Nunes foram os perfeitos anfitriões, observou-se a horta biológica, onde são plantados e produzidos alguns dos ingredientes usados na cozinha (alfaces, rúcula, orégãos, chás vários para infusões, cebolinho, morangos, entre outros produtos, de acordo com a sazonalidade) e ainda o centro de compostagem, no qual os desperdícios e resíduos provenientes da restauração, do bar e do SPA são transformados em fertilizante natural, sem adição de qualquer outro produto, para, novamente regressarem à terra. São visíveis ainda os painéis solares em todas as habitações, garantindo não apenas acesso a energia elétrica renovável bem como aquecimento térmico de águas e casa de banho, tornando o espaço totalmente autossustentável (seria impraticável e impensável a construção de condutas para gás natural devido ao impacte ambiental negativo que provocaria na área).

Contudo, o impacte social também é um fator prioritário e tendo em conta a expansão do projeto, bem como as necessidades crescentes, salvaguarda-se o acesso direto aos agricultores, pescadores e fornecedores locais (ou regionais), dando primazia ao “que é a terra”, reduzindo também assim a pegada em carbono. A introdução de várias espécies autóctones, tendo um objetivo alimentar, medicinal ou cosmético, respeita igualmente uma política de economia circular que se tornou intrínseca ao Sublime garantindo a sustentabilidade e manutenção dos solos, que sendo arenosos e salinizados devido à proximidade com a costa, tornam-se pouco produtivos e necessitariam noutras circunstâncias da adição de nutrientes específicos, mas altamente prejudiciais.

A forte componente social

Desde a sua conceção até aos dias de hoje, o Sublime Comporta garante a funcionários (e a visitantes) sessões de formação e workshops de sustentabilidade ambiental, gestão e economia circular, que podem passar pela jardinagem, horticultura, a processos mais específicos de transformação biológica e tratamento de espécies, visando um conhecimento pleno das capacidades do espaço e daquilo que pode oferecer ao cliente, independente do seu grau de exigência.

Por seu turno, a componente social visa também impactar ao mínimo a questão de insegurança laboral, que infelizmente ao dia de hoje, atinge o setor do turismo de forma muito considerável. A contratação de desempregados das mais variadas nacionalidades, a criação de postos de trabalho, o apoio à contratação de pessoas com deficiência aliada a uma formação contínua e à possibilidade de residirem dentro ou próximo da propriedade onde todos se conhecem resultam em vários pontos positivos – e conferem também uma sensação de segurança e familiaridade únicas. Aliás, é algo que se vê, principalmente no hall de receção, ou nos jardins: existe uma energia de entreajuda, onde todos os colaboradores se tratam pelo nome próprio, independentemente do grau hierárquico. Ninguém é deixado para trás.

Uma piscina natural de água verde

Talvez o que mais se conheça do Sublime Comporta seja a sua incrível piscina de água verde, biológica. Mas saberão clientes e simples curiosos como a mesma funciona? Construída numa área de base totalmente arenosa, com cerca de 1800m2 por dois metros de profundidade, foi concebida de raiz de forma a permitir o crescimento de espécies específicas e autóctones (criadas em viveiro no Algarve) que possam exercer um papel de biorremediação. Ou seja, através do processo de fotossíntese, essencial para o seu desenvolvimento e libertação de oxigénio, alimentam-se de impurezas, nutrientes e matérias orgânicas ou inorgânicas, bem como de CO2, sem que haja qualquer impacto negativo para o seu crescimento, conseguindo assim promover a “limpeza” da água, podendo esta ser usada naturalmente e sem riscos pelos clientes ou ser reutilizada nos processos de rega do restante recinto. Além das espécies aquáticas, existem também duas unidades de filtro biológico externo (instalados na margem da piscina) que garantem a boa qualidade balnear da água. No filtro vivem micro-organismos numa matriz viva (designada por biofilme) que se encontra acima de substratos calcários especiais e se encarregam da higienização e depuração da água bem como da decomposição da carga de nutrientes. A água verde apenas reflete o tipo de espécies e constituição química, importando mais ainda o seu grau de transparência. O conceito não é novo, uma vez que já existem várias empresas a usar este processo para criação de espécies nomeadamente de microalgas, mas são ainda poucos os locais, muito menos dentro da indústria hoteleira e de restauração, que o façam de uma forma consciente, totalmente vocacionada para biorremediação aquática e contribuindo para a criação de biomassa.

Fotografia © Fábio Espírito Santo

Sensações do paladar

Falámos de silêncio do urbano, ou dos sons resultantes apenas do espaço envolvente natural. O som do movimento das árvores, das centenas de aves que cirandam à nossa volta, do arrastar das caudas de lagartixas. Passemos agora ao sentido do sabor, do paladar. As cozinhas não estão encerradas, mesmo que os restaurantes estejam. Sabemos já que toda uma equipa se encontra disponível para nos entregar os pedidos realizados. E, desde logo, aprendemos que alguns dos ingredientes usados fazem parte de uma horta biodiversificada, cuja terra é adubada pelo material resultante da compostagem do campo. Os peixes provêm do Sado ou do Atlântico, a carne da região alentejana. E a confeção proporciona sensações incríveis! Nada é deixado realmente ao acaso e desde o “polvo com batata doce de Aljezur” aos “croquetes de Pata Negra”, passando pelo simplesmente incrível “Arroz Lavrador”, tudo é confecionado como se estivéssemos a ver o que se passa na cozinha. Destaque para a entrada simples de “batata doce de Aljezur”, feita no forno, simplesmente deliciosa. Já na carta de vinhos a aposta vai para as castas produzidas na Península de Setúbal e Alentejo, destacando-se a produção da própria marca, Sublime Vintage. Na carta acrescentam-se ainda vinhos das várias regiões demarcadas do país, tornando-a 100% portuguesa.

Regressando ao mundo real

É fácil compreender que o momento de ir embora torna-se mais penoso no Sublime. Sim, é um espaço totalmente “perdido” no meio da floresta, com alguns luxos, sendo que os maiores detalhes apenas se tornam visíveis devido às pessoas que nele trabalham. A simpatia contagiante e o tal espírito de companheirismo devem ser as melhores e últimas impressões que deverão deixar a nossa memória ao longo do tempo após o regresso à vida real. E, se tudo isto não chegar, antes de apanhar a autoestrada de regresso à cidade grande, porque não passar ainda pela praia do Carvalhal, onde a calma do Atlântico ao final do dia poderá amenizar ainda mais a ansiedade do momento que se vive.

Sublime é podermos ter a possibilidade de conhecer estes recantos do nosso país, mesmo que seja apenas por uma vez.

Para informações, preços e reservas:

Sublime Comporta Country Retreat & SPA
EN 261-1
7570-337 Muda, CCI 3954 Grandola
Portugal
Reservas: +351 269449397

Agradecimentos especiais:

Margot Rident (Xpose), Daniela Pereira (Reservas), Simona Soulé (Guest Relations), Ricardo Nunes (Front Office Director) e a todos os colaboradores que auxiliaram para a realização da reportagem.

Partilhar Artigo: