Revista Rua

2019-11-11T10:29:52+00:00 Opinião

A triste realidade da rua: como julgar?!

Sociedade
João Rebelo Martins
11 Novembro, 2019
A triste realidade da rua: como julgar?!

Em Novembro, os dias estão cada vez menores, o sol, lá longe, já não aquece tanto e a sensação térmica esvai-se. É aquele tempo onde o crepitar das castanhas, com o cheiro intenso dos fogareiros e o sabor do fruto assado e embrulhado num cartuxo de jornal velho e amarfanhado, aquece.

Junto ao rio, com a humidade e o vento, o frio corta os agasalhos e consegue chegar aos ossos, parecendo que os parte, vergando o cérebro perante tal evidência.

Quando se sai em Santa Apolónia, por estes dias, depois do calor do comboio leva-se este vendaval de realidade; e é um tal apertar de casacos e enrolar o pescoço num qualquer apetrecho de caxemira.

O que vale é que as esplanadas, em frente, têm aquecedores que nos fazem sentir aconchegados, entre pizas e bifes com os amigos. Ou depois de uma noite de copos no Lux – a discoteca onde há 20 anos já se entrava de ténis – não há frio que quebre quem quer que seja.

E à volta? Dali até ao Braço de Prata.

Quantos cartões e cobertores consegue vislumbrar? Uma sombra encostada aos muros da estação ou debaixo do viaduto. Agora também há umas tendas verdes e, por vezes, uns carrinhos de supermercado.

Não é um amontoado de coisas velhas e sujas que estão ali, são pessoas. Gente que vive na rua, que sente o mesmo frio que nós sentimos, mas durante mais horas, dias, anos.

Orwell, sobre os estrangeiros em Marrocos, em turismo ou em trabalho, referia sempre a preocupação que as pessoas tinham com os burros de carga que, depois de morrerem muitas vezes a cumprirem o seu serviço, são abandonados na berma. É desumano deixar assim um burro morto. E neste pensamento de Europeus e Americanos, na sua maioria, não há um segundo sequer para pensar na condição de vida e de sobrevivência dos donos dos burros; gente já tão escura que se confunde com a cor da terra, camuflados. Era assim há 100 anos e continua a sê-lo.

Por vezes, olhamos os cartões ou as tendas, e não vemos pessoas. Mas elas estão lá: nos umbrais, nas ruas; camuflados com as cores dos prédios e nós, na nossa vida, não reparamos, não podemos ou não queremos ver essas pessoas.

O que leva alguém a morar na rua? O que leva alguém a não ser institucionalizado?

A solidão, o desgosto, o não acreditar no dia de amanhã, a coragem – sim, é preciso ter coragem para se fugir a um esquema onde há, pelo menos, tecto, cama e alguma comida na mesa.

O que leva alguém a engravidar, estando nestas condições?

Há necessidades básicas do ser humano que são: comer, beber, urinar, defecar, dormir, foder. É animalesco dizer isto nestes termos, mas é para isso que estamos formatados. Tudo o que se colocar acima deste patamar, como a estética, a ética, os afectos, e tudo o mais que lhe queiramos falar, vem com a civilização. Mas, na base, somos animais; e como se pode julgar alguém com os mesmos instintos primários que nós temos? Como se pode julgar alguém que, em princípio, não teve as mesmas oportunidades?

Como é que se consegue abandonar um recém nascido num contentor do lixo?

Não sei. Certamente ninguém que estiver a ler esta crónica sabe.

Mas sei que uma pessoa que vive na rua é uma pessoa que precisa de ajuda. É uma pessoa que merece todo o carinho e atenção por parte do Estado – o Estado somos todos nós; e se todos nós estamos na disposição de ajudar a salvar bancos, a construir estádios, a receber eventos internacionais, e sabe-se lá mais o quê, deveremos ter compaixão pela vida humana -, e que a cadeia não irá resolver nada.

A mãe que abandonou o seu filho é uma mulher que precisa de ajuda, que deve ser tratada e apoiada para que ocupe o seu lugar de mãe na sociedade.

O Senhor Presidente da República foi dar um abraço ao sem abrigo que encontrou a criança. Na política de proximidade e afectos, esteve bem. Deverá ser um acontecimento difícil de ultrapassar, ver assim um bebé desamparado no meio do lixo.

E o Senhor Presidente deveria, na mesma onda, ir visitar a mãe. Seria um símbolo para a sua vida melhorar. E todos os seres humanos necessitam de símbolos na sua vida para não se tornarem animais.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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