Revista Rua

2020-04-21T19:16:15+00:00 Opinião

“a única certeza da vida”

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
21 Abril, 2020
“a única certeza da vida”

Há uma dança. A árvore nada, enquanto dança. Sobre uma poça. Um pequeno charco da chuva cercou os limites do tronco. As raízes afogavam-se como memórias isoladas. Requeridas à existência penosa. Mas a árvore dança sem que saiba que elas lá estão. Aliás, sem que saiba nada. “Não sabemos mesmo o que importa” escreve Celan. Escreve-me, num confinamento entre páginas.

Há coisas que não importam, e há coisas que importam. Depois há a dúvida entre quais são quais. As gavetas da memória guardam tudo e uma mão áspera tende a recorrer aos arquivos mais inertes na causa da noite sólida.

As memórias traiçoeiras clamam os pés destapados da criança que outrora fui. Vejo-me agora obrigado à separação da própria sombra, toda a luz em casa é artificial e a única certeza é a da morte. Sei-o agora que morremos.

“é a única certeza da vida” dizia o meu pai. E nunca entendi a melancolia nas palavras. Tudo era uma melancolia artificial sem sombra, uma luz constante que persegue tepidamente a inocência.

Sim, agora sei-o, a única certeza da vida. Pregada na pele a ferro e fogo. Uma marca que me recorda que os pés destapados não são a pior coisa que a noite pode clamar na noite.

“É apenas um pequeno buraco no meu peito / Mas sopra nele um vento terrível, / No buraco há (sempre) inveja, e também assombro e impotência, / Há impotência e o vento cheio dela, / Forte como os turbilhões. / Capaz de quebrar uma agulha de aço. / E é apenas um vento, um vazio. / Maldição sobre toda a terra, sobre toda a civilização, sobre todas as criaturas à superfície de todos os planetas, por causa deste vazio!” Henri Michuax (Antologia, ed. Relógio D’Água) no poema “Nasci Esburacado”.

E há um vazio que jamais se preencherá. E todas as noites a bruma o preenche de um vácuo fátuo. E todos os dias o buraco cresce. Até que sejamos nada, somente um buraco amórfico.

E todas as memórias engavetadas serão destrancadas.

E a árvore seguirá dançando, sobre um lago em certo dia de Abril.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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