Revista Rua

2021-07-08T16:53:28+01:00 Em Destaque, Sabores, Vinhos

A vida entre vinhas de Madalena Vidigal

Madalena Vidigal está em entrevista na RUA.
©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto6 Julho, 2021
A vida entre vinhas de Madalena Vidigal
Madalena Vidigal está em entrevista na RUA.

Dona de uma curiosidade inesgotável, Madalena Vidigal aliou o melhor dos dois mundos: o vinho e as viagens. A partir de uma fantástica descoberta sensorial, o interesse por conhecer as especificidades deste universo tão vasto e atraente levaram-na a viajar pelas regiões vínicas mais conceituadas no mundo. Passou pelo Chile, Austrália e até Napa Valley, mas não esconde a profunda admiração pelo terroir nacional.

Atualmente, desdobra-se entre um blog, o Entre Vinhas, um podcast 5 Minutos de Vinho – e várias formações de enoturismo, com um intuito comum: descomplicar de uma forma muito natural e atrativa este mundo fascinante do vinho. A riqueza da vitivinicultura, contada na primeira pessoa.

Em primeiro lugar, gostava de conhecer o início desta tua viagem pelo mundo do vinho. Quando é que começaste a explorar o mundo da vinicultura e o que é que despertou o teu interesse?

Como qualquer família portuguesa, o vinho fez sempre parte das nossas refeições, mas confesso que nunca me despertou muito interesse (para grande desgosto do meu pai e avô). Foi preciso fazer um estágio profissional em Moçambique e apaixonar-me por um vinho da África do Sul. A partir daí, achei que valia a pena dar uma oportunidade aos vinhos portugueses. Comecei a interessar-me pelas coisas mais básicas: ir espreitar a secção de vinhos dos supermercados, ler os rótulos e ver as marcas que existiam. Depois passei aos cursos, workshops…e desde então não parei. Importante também dizer que a minha formação é Gestão Hoteleira e sempre trabalhei em hotelaria, na área de comidas e bebidas, o que também facilitou a minha aproximação a este mundo.

Foi desde logo uma “paixão” para a vida? O que é que mais te surpreendeu (e continua a surpreender)?

Foi sim uma paixão para a vida! Acho que desde esse momento em que provei um vinho que me agradou (tinha eu 24 anos) que o interesse apenas aumentou de dia para dia. O que me fascina é ser uma bebida tão complexa e intrigante que tem tanto para aprender. Nunca sabemos tudo. Desde a vinha, à vinificação, à cortiça e barricas, tudo sobre o vinho é fascinante. Depois há, claro, o lado humano e sem dúvida o mais importante neste mundo. As pessoas que fazem e “vivem” o vinho são a melhor parte de trabalhar nesta área.

É “entre vinhas” o sítio que mais te caracteriza? Consideras-te uma curiosa no que toca a explorar o mundo do vinho, desde a uva ao copo?

Existe uma razão para o meu blog se chamar EntreVinhas. Foi o nome mais óbvio, dado que eu própria tenho uma vinha no Alentejo – e em breve lançarei o meu primeiro vinho – portanto, é verdade que passo a vida entre vinhas. Estou muito presente na manutenção e crescimento da minha vinha e acredito que visitar outros produtores, ver como cuidam as suas vinhas (tanto em Portugal como no resto do mundo), é uma excelente forma de aprender mais sobre vitivinicultura. E claro, depois da visita à vinha vem a prova do vinho, assim como muita conversa e todos estes momentos são uma enorme aprendizagem para quem, como eu, está apenas no início. A minha plataforma é o resultado destas minhas viagens pelo mundo do vinho, é essencialmente um blog dedicado ao enoturismo e a todas as experiências que vou tento, contadas na primeira pessoa.

©MVPV Photography

Já viajaste pelas melhores e mais reconhecidas regiões vínicas do mundo. O que é que mais aprendeste com a riqueza destas regiões? Há alguma favorita ou uma que não esqueces?

O que mais aprendi foi sobre variedade. De castas, de vinhos, de solos, de manutenção de vinhas, de métodos de vinificação…. É isso mesmo: uma riqueza enorme! No fundo, o que todas as regiões têm em comum é a cultura do vinho, um profundo respeito a esta vida que é muito mais do que produzir uma bebida. E sem querer ser politicamente correta posso dizer que todas as regiões que visitei – agora especificamente fora de Portugal – me marcaram de alguma forma. Desde o Chile, a Napa Valley, Austrália e Israel, e mais perto Bordéus e Rioja, todas as regiões me ensinaram algo. Mas penso que o Chile surpreendeu-me ainda mais. Talvez porque não tinha grandes expectativas e encontrei um país com uma enorme tradição de vinho, com técnicas antigas, mas que está em constante modernização. E com vinhos de grande qualidade!

Ao falarmos das melhores regiões vínicas do mundo, olhamos para “dentro” e reconhecemos um património riquíssimo, de norte a sul do país. Concordas? Qual é a região portuguesa que mais admiras?

É verdade que sou muito patriota, uma grande embaixadora dos vinhos portugueses e vou sempre dizer que são os melhores do mundo e que Portugal é lindo. (risos) Acho que o mais fascinante que temos em Portugal é, precisamente, a variedade de castas, solos/relevo, clima, técnicas de vinha, tudo num espaço físico tão pequeno. É uma riqueza bastante concentrada. Quanto à região, essa é fácil: é o Douro. E não falo de vinhos, porque nesse aspeto ando a descobrir outras regiões incríveis e acredito que temos excelentes vinhos por todo o país. O Douro é fascinante pela sua história, pelo incomparável trabalho humano que ali está ainda tão presente, pela dificuldade que é manter as vinhas naquela região, pela beleza da combinação das vinhas em socalcos e as curvas do rio. Por mais que viaje, vou sempre afirmar que o Douro é a região de vinhos mais bonita do mundo.

Por outro lado, há um tipo de vinho que aprecies mais?

Há sim e aqui não sou tão politicamente correta. Apesar de beber de tudo e acreditar que há momentos para todo o tipo de vinhos, os vinhos tintos com pouca madeira são os meus favoritos. Aliás, no geral não aprecio vinho com muita madeira, seja branco ou tinto. Acho que a madeira em excesso esconde totalmente os aromas primários da uva e do seu terroir. E gosto de vinho com álcool médio, pelo menos 13%, porque penso que o álcool muito alto se sobrepõe à fruta. Resumindo, adoro um tinto com madeira subtil e álcool equilibrado… e de preferência consumido frio – adoro tintos “refrescados”.

O vinho deixou de ser apenas uma paixão para passar a representar grande parte do teu trabalho. Começando pelo blog, quando é que foi criado e o que é que procuras explorar com esta plataforma?

O blog foi criado em 2015, na sequência de um trabalho que fiz em que estive a acompanhar a produção de filmagens para um guia de enoturismo. Foi um ano inteiro em que viajei, desde o Vinho Verde ao Algarve, visitando várias adegas por semana. Nesse ano, já era apaixonada pelo enoturismo, mas foi quando percebi que tanta beleza e tanta qualidade deveria ser partilhada. Comecei a escrever sobre as minhas visitas a adegas. Inicialmente, o propósito foi apenas esse: dar a conhecer um país pouco conhecido, um tipo de turismo diferente e um pouco mais da cultura portuguesa. Seis anos depois o EntreVinhas é mais que isso. Pretendo dar a conhecer o outro lado do vinho que nos chega à mesa, dar a conhecer novos projetos de vinho que estão a surgir, mas também dar formação e consultoria nesta área que ainda tem muito para crescer e na qual os produtores nem sempre sabem para onde. O EntreVinhas passou de um blog de enoturismo escrito por uma curiosa, para ser um site ou plataforma de notícias de enoturismo, artigos de opinião, partilha de experiência, formação e consultoria.

O Douro é a região de vinhos mais bonita do mundo.

Atualmente, as formações de Enoturismo são um dos teus trabalhos mais comuns. Podes falar-nos um pouco destes cursos? 

Sim, com a pandemia a minha vida – e a de todo o mundo – mudou um pouco. Eu trabalhava em turismo e, obviamente, de um momento para o outro fiquei em casa sem saber para onde me virar. Mas como não sei estar parada comecei a tirar vários cursos e percebi que também eu tenho algo para ensinar. A verdade é que já dou aulas numa Pós-Graduação há quatro anos e adoro. Criei a minha formação “independente”, em formato online, para possibilitar que pessoas de todo o país (e mesmo fora de Portugal) participem. Tem duração de dez horas, nove das quais em grupo e a restante hora individual, para discutir ideias e projetos mais pessoais.

Mais recente é a tua chegada ao mundo dos podcasts! São “5 Minutos de Vinho” e uma panóplia de temas para abordar. Como é que tem sido este desafio e o feedback? É um tema inesgotável e do qual há sempre algo novo para explorar?

Tem sido muito divertido fazer o podcast. Demorei muito tempo a pô-lo cá fora, pois a ideia já estava na minha cabeça há uns anos. Cada episódio que escrevo e gravo é bem preparado, vou pesquisar, perguntar a enólogos, ler vários autores e ainda junto um pouco da minha experiência pessoal. Fiz questão de criar um formato de podcast curto para captar a atenção das pessoas e obrigar-me a utilizar um discurso simples e objetivo. Descomplicar o vinho era a minha intenção inicial e estou muito contente com o resultado. Tenho tido excelentes comentários de pessoas de todo o lado, incluindo do Brasil, onde estou a ganhar uma boa audiência. O tema é inesgotável, sim, porque não só há imensos tópicos para falar desta bebida fascinante como há muitas dúvidas dos meus seguidores, que nunca me tinham passado pela cabeça. Isso é o mais divertido, esclarecer tópicos diferentes sobre o vinho.

A pandemia teve um forte impacto no setor dos vinhos, desde o enoturismo às exportações. No caso do enoturismo, qual é a tua opinião em relação ao momento atual? Consideras que poderemos estar (novamente) numa fase de crescimento?

Claro que teve um enorme impacto, pois o enoturismo é uma experiência que implica o contacto físico com outras pessoas e por isso as adegas tiveram de fechar portas duas vezes no último ano. Foi muito desanimador e o arranque não está a ser fácil para todos. Mas acredito que há muitas oportunidades que a pandemia trouxe para o enoturismo. Primeiro, por ser um turismo de nicho e não de massas, logo evita multidões. É um turismo rural longe dos grandes centros urbanos – isto é, turismo de natureza – em que passamos muito tempo ao ar livre. As adegas que têm alojamento estão já a beneficiar deste isolamento que as famílias procuram e que encontram no meio de uma vinha. E há também outro ponto, o facto de as pessoas terem começado a consumir mais vinho em casa durante a pandemia, tornou-as também mais curiosas em saber mais sobre esse vinho ou o produtor, portanto é altura de conhecer as diferentes adegas que produzem os nossos excelentes vinhos. Se exige uma mudança de mentalidades? Sim, mas não tem que ser obrigatoriamente mau.

Para terminar, gostaríamos que nos dissesses: se fosses um vinho, de que forma o descreverias?

Que excelente pergunta! Tive que pensar um pouco mas diria que sou um tinto jovem de cor granada intensa. Um vinho suave, mas complexo e com muitas arestas para limar. Este perfil meio rebelde indica um bom potencial de envelhecimento.

Podes sugerir aos nossos leitores cinco vinhos para experimentarem este verão?

Tenho dificuldade em sugerir marcas porque há muitas e para todos os gostos. Mas posso desafiar os leitores a experimentar regiões e castas diferentes como a Siria ou Fonte Cal da Beira Interior, a NegraMole do Algarve, os novos Rosés da região de Lisboa e Tejo ou o Loureiro do Vinho Verde.

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