Revista Rua

2021-06-07T14:36:38+01:00 Cultura, Literatura

A vida segundo Lola

Lola é o espelho de toda uma geração que se debate com o futuro.
Cláudia Paiva Silva4 Junho, 2021
A vida segundo Lola
Lola é o espelho de toda uma geração que se debate com o futuro.

Da autoria de Cátia Vieira, chega-nos Lola, um romance moderno, inspirado na atual geração de jovens adultos, cujas vidas se desenrolam entre a rapidez das redes sociais e as inseguranças da vida real.

Todos nós, um pouco mais jovens, temos algo de Lola, a personagem principal que dá título ao primeiro romance de Cátia Vieira. Passando pelas ruas do Porto e as calles de Madrid, vamos conhecendo esta estudante de Doutoramento, cuja vida aos 28 anos é marcada pelo sentimento de abandono por parte dos pais, crises de ansiedade que não se podem controlar, mas que possui uma inteligência tenaz que lhe permite ver os limites do certo e errado, pensar no futuro político de um país pós-pandemia refeito de mais um escândalo de corrupção, refletir introspetivamente sobre os seus problemas – não há dinheiro ou tempo para terapias com médicos especialistas quando se luta por pagar as contas ao final de cada mês, – e tomar rédeas do seu destino, de forma a assumir e acima de tudo, aceitar o que é e o que deseja para si mesma. Ao mesmo tempo debate comportamentos estereotipados, feminismo e opções de carreira com um grupo muito pequeno e restrito de amigos, mas que lhe são os essenciais.

Dentro do género que se designa por coming of age, Lola lê-se pausadamente. Não estamos assim a falar de personagens estéreis ou cuja vida passe ao mesmo ritmo com que saltamos de imagem em imagem numa rede social (embora todas sejam adeptas das potencialidades das aplicações móveis). Falamos de uma geração que atravessa desde os 27 aos 40 anos, transversal e próxima em problemas, angústias, escolhas e, por consequência, em todos os medos que lhes estão associados. Uma geração que nunca foi tão privilegiada, mas que se vê num limbo entre ideias conservadoras e um mundo moderno de ideias novas e radicais. Uma geração que se depara com a incredulidade política, mas que não apresenta (de forma convicta, pelo menos) força anímica para mudar o rumo das coisas. Uma geração permanentemente insatisfeita, mas que quer e merece mais do que tem, que precisa de validação, embora se veja ou sinta quase sempre humilhada.

Lola é o espelho de toda uma geração que se debate com o Futuro, e tal como no tempo da Expansão Marítima, em cada passo em frente, se sente melindrada ao mesmo tempo que fascinada e cheia de expectativas. No caso da personagem, mesmo esse medo é ultrapassado com uma viagem de “tudo ou nada”. Certamente que no fim, o que se aprende é o que faz tudo valer mais ainda.

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