Revista Rua

2021-01-11T15:34:45+00:00 Cultura, Pintura, Radar

Academia de Belas Artes de Ílhavo: o fruto de um amor à arte que percorre gerações

Hoje em dia, André ensina regularmente entre duas a três dezenas de alunos, dos nove aos 84 anos.
Fotografias gentilmente cedidas
Redação
Redação11 Janeiro, 2021
Academia de Belas Artes de Ílhavo: o fruto de um amor à arte que percorre gerações
Hoje em dia, André ensina regularmente entre duas a três dezenas de alunos, dos nove aos 84 anos.

Por Sofia Rodrigues

André Capote, o filho, tem alma de artista e vocação para o ensino; José Sacramento, o pai, tem olho para o negócio e jeito para a prospeção de novas promessas nas artes plásticas. Embora tenham percorrido caminhos artísticos diferentes, uma coisa é certa: partilham do mesmo amor à arte. O orgulho paterno completa-se na gratidão de André, que reconhece a influência do pai no seu percurso, bem como a importância do progenitor na concretização do sonho de abrir uma academia de desenho e pintura, em Ílhavo.

Quando se pergunta a André onde nasceu, conta que foi em Ílhavo, há 43 anos e que foi naquela cidade que cresceu e se fez homem, artista e, mais tarde, professor. Fazendo a mesma pergunta ao pai, José, a resposta ganha outros contornos: “O André nasceu na arte”.

José Sacramento é marchant de arte desde 1973, ano em que abriu a galeria de arte contemporânea “A Grade” em Aveiro. Os filhos, Nuno e André, cresceram num ambiente marcado pelas obras que o pai comercializava, as exposições que organizava, os museus que visitavam juntos, as conversas que partilhavam e, muito especialmente, os artistas que iam recebendo, em estadias mais ou menos prolongadas.

“Havia artistas que nos vinham visitar e passavam cá grandes temporadas a pintar, a criar. E eu acompanhava-os, conversava com eles e experimentava as aguarelas, os pastéis, os acrílicos, os óleos. Foi assim que a minha paixão pela pintura se foi desenvolvendo”, recorda André Capote.

Quando termina o 12.º ano, na escola secundária Dr. João Carlos Celestino Gomes, em Ílhavo, André estava certo: “Queria ser artista!”.

Em 2002, André decide então licenciar-se em Artes Plásticas, na vertente de pintura, e, por incentivo de alguns professores, decide candidatar-se ao ensino. É, precisamente, com um trabalho dedicado ao ensino das artes que André completa o mestrado em Artes Visuais, em 2012. Nesta altura, já a vocação era inegável para todos os que com ele conviviam. “Um professor disse ao meu pai que eu tinha jeito e que não era toda a gente que tinha esta vocação para o ensino”, revela André.

Mais tarde, André opta por abandonar o ensino público e, com o apoio de José, começa a montar, numa antiga casa da família, a sua própria escola – a Academia de Belas Artes de Ílhavo.

Foi nesta típica casa de lavrador junto à Unidade de Saúde e ao Museu Marítimo de Ílhavo, que nasceram o bisavô e o avô de André, bem como o pai que, além disso, a utilizou durante vários anos como armazém da sua galeria.

Depois de uma intervenção de recuperação e transformação do edifício, estavam prontos para acolher não só a academia de artes liderada por André, mas também a biblioteca pessoal e o escritório de José Sacramento e um apartamento luxuosamente equipado, que serve de residência para os artistas que a visitam.

Na academia, as paredes estão revestidas com obras de pintura, desenho e fotografia e as estantes a abarrotar de tintas e pincéis; nos corredores, há telas e cavaletes e, no pátio, um antigo curral foi transformado em oficina de trabalho. Há esculturas a decorar o jardim e apontamentos em cerâmica que adornam as paredes. Sempre que o tempo o permite, organizam-se convívios com alunos, artistas e amigos, bem como sessões de pintura ao ar livre.

Hoje em dia, André ensina regularmente entre duas a três dezenas de alunos, dos nove aos 84 anos, tentando conciliar as aulas com o seu trabalho enquanto artista plástico. Uma tarefa “muito difícil”, afirma, já que no seu entender o ensino das artes implica “mergulhar profundamente na personalidade, na compreensão e na criatividade” dos alunos. Ensinar requer “que nos ponhamos na pele deles, nos concentremos nas suas criações, partilhando os seus anseios e tentando compreender o que os estimula” e “isso é extenuante”.

O espaço da academia começa a ser curto para tantos alunos, ainda para mais tendo em conta as recomendações de distanciamento físico que se impõem na atual conjuntura. José prevê que, mais dia, menos dia, André possa ter mesmo de recusar novos alunos na academia, pelo que o seu sonho “era poder ajudar o André a construir um espaço novo em que tivesse oportunidade para crescer”.

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