Revista Rua

2018-11-15T12:40:48+00:00 Cultura, Personalidades

Adelina Pinto

“A cultura para todos é o meu projeto central para 2018”
©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira8 Fevereiro, 2018
Adelina Pinto
“A cultura para todos é o meu projeto central para 2018”

Abraçando os pelouros da Educação, Cultura, Juventude, Biblioteca e Arquivos, Relações Públicas e Relações Internacionais na Câmara Municipal de Guimarães, Adelina Pinto é uma mulher com um objetivo: levar a Cultura a todos os vimaranenses, utilizando a Educação como veículo. Numa conversa marcada pelo sorriso terno da vereadora, a RUA apresenta a visão de quem tem o importante desafio de estimular públicos, naquela que é já vista como a eterna cidade da cultura.

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer o seu percurso. Quer apresentar-nos a Adelina Pinto?

Esta Adelina surge no pelouro da Educação da Câmara Municipal de Guimarães via Educação. Eu sou professora, toda a minha vida estive ligada às escolas, apesar de não estar sempre no ensino diretamente, porque fui muitos anos presidente da escola em São João de Ponte, estive na rede de bibliotecas escolares… Ou seja, estive sempre na Educação, embora nem sempre no contexto direto de sala de aula. Fui convidada no anterior mandato para exercer o cargo de vereadora da Educação e, neste mandato, acrescentei a este grande desígnio a Cultura em Guimarães. Penso então o território nessas duas dinâmicas: a cultural e a educativa.

A Educação e a Cultura são dois pelouros que se interligam muito facilmente, correto?

Sim. Concetualmente, nós só podemos pensar na Cultura se a ligarmos à Educação e a Educação funciona com recurso à Cultura. Apesar de nunca ter pensado, em momento algum, apropriar-me da Cultura, até porque não é a minha área, fui nos últimos quatro anos enquanto vereadora da Educação fazendo muitas entradas pela Cultura, no domínio de muitos projetos em que nós desafiámos as escolas. Porque considero que a Educação tem estado nos últimos anos debaixo de um fogo cruzado num domínio absoluto do cognitivo, das disciplinas estantes, num século XXI que acho que é o criativo. Num século em que é preciso despertar outras competências. Hoje, quando falamos no novo perfil do aluno do século XXI, pensamos num aluno que é sensível às artes, que incorpora outro conhecimento, é o aluno que vê o mundo de outra forma. E uma escola que se centra no Português, na Matemática, nos exames, nos rankings, não é uma escola que sensibilize. Por isso, nos últimos anos, enquanto vereadora da Educação, fui fazendo esta aposta pela Cultura, com programas de artes performativas no primeiro ciclo, com atividades de animação e apoio à família no pré-escolar, por exemplo, entrando sempre com a arte pela escola adentro, no sentido de dar outras competências aos alunos, de revelar talentos. Daí ter-se montado esta articulação entre a Educação e a Cultura, que já não é novidade nenhuma, porque já tinha sido feita em anteriores executivos cá e em vários outros executivos da região. Se bem que, em Guimarães, este cunho cultural proveniente da Capital Europeia da Cultura torna este objetivo mais pesado, mais responsável.

Essa interligação foi o seu ponto de partida no pelouro da Cultura?

Sim. Esta ideia da Cultura para todos, neste pensar que a cultura nos faz diferentes, nos faz mais tolerantes, mais flexíveis, nos faz ver o mundo de várias cores.  Eu acredito nisso, acredito que a cultura não pode ser segmentada. Daí nós estarmos também a fazer uma aposta com as associações, valorizando o espaço público, para que a cultura não seja para um nicho. Há uma aposta na cultura para todos, na cultura do espaço público, na surpresa: nós andamos na rua, nos jardins e nos largos da cidade e do concelho, e encontramos nichos de eventos culturais, das várias áreas, numa visão eclética – quem sou eu para definir o que são áreas de elite. Então, temos as várias áreas, seja de uma cultura mais popular, seja de uma cultura mais elitista, mais de vanguarda. As pessoas precisam de ser surpreendidas. Por exemplo, organizamos um festival de música religiosa, em que temos um encontro de coros no espaço público, porque as pessoas não sabem que gostam de canto gregoriano até que o ouvem. E a pessoa só vai ouvi-lo se estiver na rua, se passar numa igreja com a porta aberta e encontrar esse tipo de canto. Se estiver num espaço como o Centro Cultural Vila Flor (CCVF) ou idêntico, em que é preciso comprar um bilhete ou passar uma porta, grande número de pessoas não vai lá. Não vai testar sequer se vai gostar. Cria-se uma barreira, uma barreira que é fácil de desmontar nas crianças e, portanto, esse também é o nosso trabalho. Todos os nossos alunos vão ao CCVF, veem uma peça de teatro, contactam com uma bailarina, porque eles precisam de desmontar essas barreiras para a vida, ajudando também os pais, os avós, os tios a fazer o mesmo.

Depois do título de Capital Europeia da Cultura, Guimarães assumiu uma dinâmica muitas vezes difícil de descrever. Existe muita oferta a acontecer ao mesmo tempo. Como nos descreve hoje estas dinâmicas atuais após a explosão de energia proveniente da Capital Europeia da Cultura? Hoje Guimarães é o quê?

É uma explosão ainda! É um conforto enorme perceber que ainda é uma explosão. Primeiro porque a Capital Europeia da Cultura 2012 é o ponto alto de um caminho que foi sendo consolidado nos últimos anos. Depois há aquele receio da queda… e a queda não se registou. Porquê? Porque a Capital Europeia da Cultura trabalhou muito com o associativismo local, com a capacitação local, e deixou uma base: um’A Oficina, por exemplo, que já existia e que foi o suporte da Capital Europeia da Cultura e que continua a ter um papel importantíssimo na programação cultural da cidade, com o GUIdance ou com os Festivais Gil Vicente. O GUIdance, por exemplo, vai muito além dos muros da cidade e isso nota-se nas pessoas que nos vão procurando. A Oficina conseguiu manter esta qualidade e este aspeto próprio da sua programação, do seu objetivo enquanto cultura. O associativismo conseguiu hoje ser pujante. Por exemplo, temos uma associação que emergiu por meio de um rapaz de Lisboa que veio para Guimarães em 2012, fundou uma associação que ainda resiste e vai representar Guimarães em Malta, na Capital Europeia da Cultura deste ano. Eu achei isto muito engraçado porque esta é a forma como a Capital Europeia da Cultura deixou efetivamente rastos. Hoje emerge uma série de associações, de gente jovem em várias áreas, que mostram realmente que esta dinâmica da cidade está para ficar. E isso dá-nos segurança. É óbvio que, enquanto município ou enquanto vereadora da Cultura, tenho um bom orçamento, pois a cultura é aqui algo em que nós apostamos. Mas acredito que, se nós nos afastássemos, a própria cidade já produziria por ela própria. Isso é o mais importante que temos.

©Nuno Sampaio

As associações continuam então a ser apoiadas?

Sim. Em dezembro atribuímos subsídios no valor de 120 mil euros às várias associações que produzem criação cultural. Qual é o desafio? É conseguirmos articular tudo. O que neste momento estamos a fazer é tentar perceber o que o município faz, o que A Oficina faz e o que pelo menos as grandes associações com um plano de programação com alguma pujança faz, para redefinirmos o calendário cultural da cidade. Porque muitas vezes o que acontece é que, se não houver contacto, temos coisas sobrepostas, que roubam públicos. Temos de arrumar a casa, digamos assim. Nós sabemos aquilo que nós município fazemos, aquilo que A Oficina tem e que está fechado no programa para 2018, mas estamos neste momento a pedir às associações que também nos façam chegar esses calendários para marcarmos no nosso mapa. Esta vinculação é necessária. Não pode haver sobreposição, tem de haver complementaridade.

A Oficina é o grande pilar da atividade cultural vimaranense. É um dos grandes impulsionadores da criação de públicos em Guimarães e também uma porta para a ligação artística internacional, correto?

Sim, é muito agradável. Em primeiro lugar, eu acho que a cidade recebe muito bem. Somos uma cidade pequena, acolhedora, pedonal, o que é confortável. As pessoas gostam de vir cá, inclusive os estrangeiros que, depois de Lisboa e Porto, querem vir a Guimarães. Isso significa que o nome de Guimarães enquanto espaço cultural, enquanto cidade de cultura, chega lá fora. A Oficina tem sido muito importante nesta internacionalização, neste elevar do nome da cidade além-fronteiras. Na altura do Guimarães Jazz temos os hotéis cheios, por exemplo. Isso significa que há pessoas que já marcam aquela semana para vir para Guimarães para acompanhar o evento. Há um turismo cultural porque, realmente, há sempre alguma coisa a acontecer.

Isso é sinónimo de responsabilidade maior para uma pessoa que abraça o pelouro da Cultura?

Sim, já é um peso! (risos) Quando eu agarro a Educação, agarro como sendo a minha área, aquilo que eu sei, para onde vou, o que eu quero. Tudo isso é a minha praia, onde eu fiz vida. A Cultura não é. Mas aquilo que eu digo hoje, até n’A Oficina onde eu sou presidente, é que eles são os programadores e eu sou o lado de lá, que vem equilibrar. Eu sou a voz do senso comum, a voz do público, da cidade e que precisa também de ser ouvida. É importante esse equilíbrio partindo de alguém que não é propriamente o especialista na matéria, mas que tem uma ideia do que é esta cidade – e do que esta cidade precisa de oferecer. Daí também esta minha aposta na escola. Se pensarmos no GUIdance ou no Guimarães Jazz, temos uma faixa de idade que não sabe o que isto é, que nunca entrou, que não frequenta. Como é que nós fazemos com que, para além das pessoas de fora, os nossos vimaranenses usufruam também daquilo que localmente temos? Achamos que esse trabalho tem de ser feito, nomeadamente na escola, na sensibilização dos alunos para a dança, o teatro, a música. Estimular esta sensibilidade para as artes performativas, colocando-os num patamar diferente daquilo que foram os pais e os avós, numa cultura mais clássica e diferenciada. É um desafio grande, mas é um desafio consciente. É consciente da responsabilidade, é consciente do patamar, que já é elevado. Um desafio de não deixar cair o bem que está a ser feito e de ir acrescentando camadas de qualidade, nomeadamente nesta ligação, nesta capacitação das nossas associações, das nossas pessoas, deste levar cultura do urbano ao rural – daí mantermos o programa Excentricidade, que leva um programa cultural a nove vilas do concelho, de momento.

Em termos de projetos centrais para 2018, esses são os principais destaques?

Sim, a cultura para todos é o meu projeto central para 2018, capacitando as pessoas para que se tornem público mais seletivo, mais crítico, mais construtivo, sendo elas próprias dinamizadoras do programa cultural.

Que tipo de obras, relativamente a equipamentos, se avizinham?

Estamos a iniciar a obra do Teatro Jordão, onde ficará o curso de Teatro da Universidade do Minho e o Conservatório de Guimarães. Temos esta aposta de disponibilizar espaços de excelência a duas entidades que nós consideramos importantes. Este espaço terá um auditório, com cerca de 400 lugares, além das salas de ensaio. Comparativamente com outras cidades, temos obviamente um leque grande de equipamentos e de qualidade, que se revelam muito pequenos para a cidade: temos o CCVF com um grande auditório de 900 lugares, temos também o pequeno auditório com 200 lugares, um auditório na Plataforma das Artes também com 200 lugares, a Blackbox da ASA, ou seja, temos imensos espaços, mas estão constantemente cheios. Estamos então muito desejosos por ter o Teatro Jordão, com o novo auditório. Mesmo em termos de público, esta é uma obra muito esperada devido à relação efetiva que todos os vimaranenses têm ao Teatro Jordão, onde foram ao cinema em tempos idos. Mas, o facto destes auditórios estarem sempre cheios torna evidente a azáfama, a inquietação, o movimento que a cidade tem.

Num lado mais pessoal, que anseios pretende deixar cumpridos neste mandato como vereadora da Cultura de Guimarães? Como quer que as pessoas destaquem o seu trabalho?

Espero que as pessoas sintam o que eu senti nos últimos quatro anos: que cumpri! Que aquilo que eu dizia não era conversa. Que eu acreditava e que fiz as coisas – o que pude fazer, como é óbvio. Quero que daqui a quatro anos estejamos numa articulação mais feliz entre a Educação e a Cultura, isto é, que não se perceba muito bem onde acaba uma e começa outra. Quero que a Cultura em Guimarães não diminua em rigorosamente nada e que consigamos acrescentar, potenciar com associações. Hoje temos novos públicos que precisamos de pensar, a questão da juventude é uma área que eu preciso de pensar nos dois níveis, na Educação e na Cultura. Precisamos então de pensar o que é que estes jovens querem em termos de programação cultural. Até porque a cidade existe para os jovens, porque são eles que estarão cá.

Eu espero que daqui a quatro anos possa andar na rua de cabeça levantada, com o respeito e consideração das pessoas. Que reconheçam o trabalho que eu fiz, com honestidade, com integridade, com o sentido de missão de fazer com que a cidade seja um espaço melhor, que as pessoas sejam melhores, no sentido em que tiveram capacidades, conhecimentos, que foram colocadas perante desafios que as tornaram melhores, mais engrandecidas. É isso que penso. O resto que vem a seguir não é importante. Espero que me sinta bem, com o sentido de dever cumprido e de ter feito o meu trabalho. Preciso disso para me alimentar! (risos)

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