Revista Rua

2019-03-21T15:54:26+00:00 Opinião

Adrenaline Junkies: a droga da minha geração.

Sociedade
Marta Moreira
Marta Moreira
21 Março, 2019
Adrenaline Junkies: a droga da minha geração.

É sexta-feira à noite: ela está prostrada no sofá olhando o ecrã da televisão, completamente inerte. Amanhã é fim de semana, não existem obrigações de natureza profissional ou de qualquer outra, e ela pode fazer o que lhe apetecer: pode passear, convidar alguém para sair, ir ver concertos ou ir até ao cinema, ir ver aquela exposição nova que já foi inaugurada, ou ficar por casa no aconchego da família. No entanto, no seu devaneio apagado ela nem sequer contempla nada disto. Ela só vê o vazio, o nada que fazer, a inércia proveniente do cansaço extremo. Ela é profundamente infeliz.

Ela é uma jovem com menos de 30 anos, que tirou uma licenciatura depois de 12 anos a estudar, e um mestrado que lhe disseram ser imprescindível, e não contente está agora a ponderar uma pós-graduação. Afinal, num mundo altamente competitivo, o conhecimento é uma arma de arremesso na luta diária pela mais básica subsistência. Tem casa própria, dir-se-ia até um pequeno núcleo familiar, composto pelo namorado que facilmente lhe cobiçam. Ela tem um emprego mais ou menos estável, decentemente remunerado ainda que não em demasia: não convém acreditar em utopias que façam ambicionar uma outra vida. Ela tem tudo para ser feliz, dizem-lhe.

Mas não é, porque esconde um segredo: ela tem um vício arrasador que lhe consome a existência. As horas de todos os dias são passadas na procura pelo próximo chuto, sem que ela disso sequer se aperceba. As que não são, como as desta sexta-feira à noite, são as horas paradas da ressaca, em que o corpo se desliga num vazio que os outros confundem com ócio, mas que não o é. São horas de um nada que a consome, presa a um vício sem droga e sem nome. Não, ela não é feliz e não tem projetos de vir a ser. Ela é viciada em adrenalina.

Se pensarmos bem, quantos dos nossos problemas são realmente problemas? Quanto do nosso cansaço não é por nós provocado?

Parece desvario meio alucinado e quase que podia ser, se não fosse verdade. Nestas últimas semanas, graças a conversas intensas com alunas mais velhas, que espero terem sido de alguma utilidade, dei-me conta do quão verdadeiramente hipotecada está já a minha geração, e de como estamos já a enterrar a próxima no mesmo buraco. E esse buraco que fomos cavando ao longo do tempo tem um nome: vício em adrenalina. Sem hipocrisias, pertenço a uma geração de adrenaline junkies.

Convém entender primeiro o que é isto dos adrenaline junkies: o termo usa-se primeiramente para descrever pessoas que estão sempre a perseguir aquela sensação de descarga de adrenalina associada a desportos de alto risco. Trocando por miúdos, refere-se àquelas pessoas que tanto estão a fazer bungee jumping, como a saltar de paraquedas, ou a descer a montanha em BTT. Pessoas com um gosto declarado por atividades que envolvam uma grande probabilidade de perigo, normalmente associadas a algum desporto. A descarga de adrenalina produz uma sensação de euforia e de geral bem-estar que pode durar várias horas. Não parece nocivo, principalmente quando comparamos ao sedentarismo da grande maioria das pessoas, certo? Correto, isto por si só não tem nada de mal. Mas e se toda a nossa existência se resumisse a isso? Se tudo o que somos se resumisse a procurarmos incessantemente essa sensação de euforia que tão habilmente confundimos com felicidade, aí já seria nocivo? O problema está no quão aditiva esta substância consegue ser, tal como outra droga qualquer, e a procura por essa euforia ou por alguma sensação que se lhe assemelhe pode ganhar contornos verdadeiramente perigosos, que extravasam largamente o domínio das atividades físicas. Falo concretamente de utilizar o drama como combustível constante de toda uma existência, que é como quem diz, de andar sempre à procura do conflito para o poder resolver. Isto tanto se verifica num mundo profissional altamente competitivo, e de um universo académico que nos prepara para isso mesmo, como em vidas pessoais movidas a stress manufacturado. Somos adrenaline junkies quando vivemos a vida sob uma perspectiva demasiado analítica, sempre há procura do que está errado, para isso escrutinando incansavelmente cada acontecimento da vida quotidiana. Ou quando deixamos que o trabalho ocupe todas as parcelas de nós, alimentando-nos exclusivamente dele. Se pensarmos bem, quantos dos nossos problemas são realmente problemas? Quanto do nosso cansaço não é por nós provocado? Numa época onde o telemóvel nos avisa quando cai um email relativo ao trabalho, quase que obrigando a um estado de alerta permanente, onde nos vão amarfanhado ao instilar um constante sentimento de culpa por tudo aquilo que já devíamos ter feito e ainda não fizemos, onde apenas se aceita a mais imaculada das perfeições em todos os campos das nossas vidas, isso transforma-nos em meros autómatos, cavalos com cenouras penduradas à frente dos olhos que nunca chegamos de facto a alcançar. Metas fictícias, destinadas a manter-nos a caminhar no carreiro.

Criaram meros robôs, cada vez mais eficazes a concretizar os objetivos que outros lhes atribuem. Agora eu pergunto: não nos deviam ter ensinado a estabelecer os nossos próprios objetivos, as nossas próprias metas?

Como é que chegamos a isto? Eu digo-vos como: formaram-nos ainda enquanto jovens adolescentes incutindo a ideia de que tínhamos de ser os melhores a tudo (todas as disciplinas na escola, todas as demais atividades), não importava a que preço e com que sacrifícios pessoais. Encafuaram aulas em cima de mais aulas, apoios que nunca o foram, mais trabalhos de casa para todas as coisas que devíamos ter visto nas aulas mas que não tivemos tempo para ver; cortaram-nos taxativamente todas as matérias artísticas/criativas ao longo do percurso escolar, até já não sermos sequer capazes de imaginar seja o que for; repreenderam-nos por cada resposta mais assertiva, chamando-nos de insolentes e de indisciplinados. Em casa, não nos deixaram brincar porque desarrumávamos a casa, nem muito menos tiraram o tempo para brincar connosco, relegando-nos para um espaço e um tempo onde a solidão era rainha; fizeram-nos cumprir todas as regras, como se elas tivessem que vir já parte do nosso ADN, e o medo das represálias foi-nos tolhendo o discernimento a ponto de passarmos a habitar numa ilusão por nós fabricada. Na realidade, a única coisa que nos fizeram foi retirar tempo, espaço e energia para viver. Sim, porque viver é muito mais que desenvolver uma atividade profissional (!), muito mais que ser educados, certamente muito mais que seguir a manada, como teimaram em querer transmitir-nos. É mesmo isso que leram, não nos deixaram viver. Sem tempo e sem energia, o nosso crescimento deu-se sempre alienados do nosso íntimo, apenas ensinados a ir de encontro ao estímulo, gerando jovens adultos que não se conhecem. Criaram meros robôs, cada vez mais eficazes a concretizar os objetivos que outros lhes atribuem. Agora eu pergunto: não nos deviam ter ensinado a estabelecer os nossos próprios objetivos, as nossas próprias metas? Roubados de espaço e energia para estar connosco próprios, nunca nos chegamos a conhecer. E se nunca nos chegamos a conhecer, nunca poderíamos ser capazes de definir o que gostamos de fazer e onde queremos chegar. Queixam-se agora do que somos, esta geração “à rasca” sem ambições e sem dinamismo? Foram vocês que nos fizeram!

Somos uma geração que não consegue lidar com a ausência de estímulo e que para a evitar entra numa dinâmica de conflito constante (sejam eles discussões amorosas fabricadas, ainda que num plano inconsciente, atritos no emprego ou sobrecargas desmesuradas de trabalho), à procura da próxima dose de euforia que a venha mitigar.

Parece delírio, mas é real. Estamos a (sobre)viver continuamente no modo “Fight or Flight” (lutar ou fugir), que em termos biológicos é o modo de sobrevivência do organismo quando sente o perigo. Se achar que o consegue anular, fica e luta; se achar que não, foge. E assim andamos, à procura da next big thing, daquilo que nos vai conseguir fazer sentir verdadeiramente felizes (desta é que é de vez!), sem saber que em vez da felicidade apenas procuramos a euforia. A ressaca é o pior e o que verdadeiramente me assusta ver, tanto na minha geração de jovens adultos como nos nossos jovens adolescentes (sim, porque pior do que ser viciados, é contribuir para a perpetuação desse vício, e o que vejo é que instilamos este processo cada vez mais precocemente nos dias de hoje): a completa ausência de ambições e de paixões, a inércia a que nos abandonamos sobre os mais diversos meios, a nulidade duma vida que nem sequer se pensa em sociedade, o desgaste psicológico que nos vai lavrando os corpos extenuados. Somos assim uma geração de gente que apenas reage, consoante as ferramentas de cada um, em vez de ser pessoas de carne e o osso, com capacidade de reação sim, mas também de reflexão. Somos uma geração que não consegue lidar com a ausência de estímulo e que para a evitar entra numa dinâmica de conflito constante (sejam eles discussões amorosas fabricadas, ainda que num plano inconsciente, atritos no emprego ou sobrecargas desmesuradas de trabalho), à procura da próxima dose de euforia que a venha mitigar.  Somos uma geração solitária, de gente que não se consegue relacionar de forma natural, sem ajuda de um sem número de devices. Somos uma geração doente, a padecer de esgotamentos e depressões uns em cima dos outros, invadidos duma ansiedade que não conseguimos circunscrever e muito menos extrair de nós. Somos uma geração de gente insegura, que sem tempo para se continuamente descobrir, perde a noção de quem é, e consequentemente do seu próprio valor.

É isto que somos: não somos geração nenhuma, somos o vazio. Somos junkies.

Sobre a autora:
Professora do Ensino Artístico Especializado e sindicalista de feitio. É digamos que uma espécie de artista, que toca, canta e escreve (mas que ainda não dança). Autora do blog Pimenta na Língua, é uma esganiçada de pavio curto, activista de causas perdidas. Pessimista por defeito e inconformada por vocação.

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