Revista Rua

2019-07-15T10:58:47+01:00 Opinião

Aguentar os Santos é para santos

Humor
João Lobo Monteiro
30 Junho, 2019
Aguentar os Santos é para santos
São João de Braga ©D.R.

Já lá vai um tempo desde que festejámos os santos populares. Quer dizer, festejaram vocês, porque eu fiquei em casa, a ver a Copa América. Ainda assim, acho que nunca é tarde para escalpelizar os problemas da nossa sociedade. E ó, como os Santos são um problema da nossa sociedade! (Agora aconteceu que vocês leram “e ó”, várias vezes, para perceberem o que estava escrito, tendo assim produzido o zurrar de um burro. Mas vocês não são burros. Se bem que, se me estão a ler, é porque talvez precisem de uma consulta).

Ser adulto, como já terão percebido, traz bastantes desvantagens. No entanto, uma das vantagens que descobri nos últimos anos é que eu não sou obrigado a festejar o santo popular, no caso, o São João – que ainda calha de ser o meu nome, olhem a irónica crueldade -, porque já sou crescido e faço o que quiser.

Os santos populares começam logo mal, pela música mais cantada nesta época. Ora, “Santo António já se acabou”, tudo bem, se for depois do dia 13 de junho. Agora, “o São Pedro está-se a acabar”, antes de o São João sequer começar, para dar um balão à pessoa para ela brincar, é de quem escreveu isto bêbedo, a ver o Estranho Caso de Benjamin Button. Tudo bem, faz parte da tradição estar bêbedo, mas não era preciso usar esse estado para disseminar fake songs, quando nem se falava em fake news.

Temos de falar também em fenómenos com epicentro em Lisboa, durante o Santo António. Primeiro, os casamentos, que são só uma desculpa para os homens não se esquecerem da data do matrimónio. Mesmo assim, deve haver quem se esqueça. E alguns que se divorciam e querem esquecer-se da data e também olvidar que apareceram na RTP, a casar com aquela matrafona que não os merece. Depois, a expressão “vou aos Santos”. Não são vários santos, é só um, é o António. Há que moderar essa mania das megalomanias, pessoal da capital. E moderar essa maneira de falar, também, mas isso é questão de gosto.

Já o São João – que também é só um, apesar do plural “são” – tem a particularidade de tornar livre e aceitável a tremenda parvoíce e falta de respeito que é dar marteladas nos outros, sem permissão, enquanto descem a rua, à noite. Noutros contextos, isso chama-se violação, mas destas marteladas com fole colorido e cabeça que apita, a sociedade já não quer saber. Está mal!

Está mal também a gente levar com alho-porro nas fuças, ainda mais usando óculos, como eu. Gostava de ser o Keanu Reeves, só mesmo para me chamar Keanu e fazer trocadilhos com o nome, não para fazer movimentos tipo Matrix, a desviar-me de alho-porro. Só não me indigno mais, por ter compaixão por quem planta e vende o alho-porro. É um nicho de mercado de uma noite só, porque aquilo não serve para mais nada que não seja arreliar transeuntes.

Sobre o São Pedro, não tenho muito a dizer, nunca frequentei. Só não gosto que mande mau tempo quando já era suposto estar calor e vice-versa. Mas como o São Pedro é a última festa e, neste caso dos santos populares, eu quero é que a festa acabe, é capaz de ser aquele de que mais gosto. Pronto, está decidido.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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