Revista Rua

2020-03-16T12:45:25+00:00 Opinião

Ainda sou do tempo…

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
16 Março, 2020
Ainda sou do tempo…

Por vezes dou por mim a pensar em situações ou episódios que observo e vem-me à cabeça aquela velha ideia que sempre ouvimos e acabámos por criticar nos outros, sobretudo, nos mais velhos: “eu ainda sou do tempo…”. A mim, pessoalmente, sempre me causou alguma espécie quando alguma frase ou observação começava desta forma. Isto porquê? Porque vem sempre um sentido ou intenção de validação dum tempo passado, o deles, como melhor ou superior ao presente, o nosso. “No meu tempo é que era”; no nosso já não é mais.

No auge dos meus 33 anos de sapiência profunda, acabo, lá está, por já começar a ter estes comportamentos. Há situações em que observo e depois reflito “isto dantes não era nada disto”. É a maior prova de que os anos passam e já não nos identificamos com algumas coisas do presente. Hoje em dia, a forma como vivemos é completamente diferente de aqui há dez anos, por exemplo. Somos obrigados a sugar, a consumir, a comer desenfreadamente a informação e a novidade. Sai hoje e é novo; amanhã já dizemos que saiu ontem e já é velho. A busca incessante por ter as coisas na hora, de ter mais, mais e mais, de ter tudo com facilidade com um ou dois cliques, mudou tudo. A possibilidade de podermos consumir as coisas quando queremos tirou a imprevisibilidade e a surpresa inerente a tudo.

Durante a minha infância/adolescência (sobretudo aqui, pois foi quando o gosto pela música despertou verdadeiramente em mim), o nosso Spotify – o meu e da minha geração – chamava-se rádio e MTV. Sim, MTV, esse canal de reality shows e de programas de fails de pessoas, já foi, aqui há uns tempos, o canal onde a novidade da música parecia e ficávamos à espera que este ou aquele videoclip passasse. Hoje, abrimos uma plataforma de streaming, selecionamos a música, rompemo-la de tanto ouvir, e daqui a dois dias já estamos fartos dela. Ouvimos, no espaço de uma semana, o mesmo número de vezes que ouvíamos, antes, em meses. Isto muda completamente a forma como consumimos e percecionamos as coisas.

Ficar colado, junto à aparelhagem, a ouvir música na rádio e estar com o dedo em cima do botão “rec” para gravar na cassete quando passasse, por sorte, ‘aquela’ música para depois a ouvirmos, apesar da qualidade fraquíssima, mas felizes; Quem nunca? Ver MTV para decorar todos os planos e frames dum videoclipe de tanto que o vimos, por haver ‘aquela’ vontade enorme de ouvir ‘aquela’ música; Quem nunca? Esta magia é impossível de recuperar e a forma como consumíamos era a grande responsável pelo valor que dávamos à música. Escrevi bem: “dávamos”, porque agora já não damos. É tudo fácil, está tudo ali, é só ir lá, clicar e ouvir umas 80 vezes até aparecer outra música que nos prenda.

É por isso que eu digo, sem pudor ou medo de soar um senhor idoso, “ainda sou do tempo…” em que para ouvir uma música tinha de ouvir rádio e gravar para uma cassete o que queria, tinha de ver MTV até quase decorar o alinhamento de músicas, neste caso vídeos musicais, que por lá passavam, que para ver uma série tinha de esperar uma semana para ver um episódio (hoje em dia ninguém tem paciência para isso!), em que uma nova temporada começava dois anos depois da anterior. Enfim, “ainda sou do tempo…” em que havia o hábito de apreciar, esperar e saborear tudo como devia ser. Hoje é tudo rápido, fugaz, descoordenado, fácil e ao mesmo tempo descartável numa questão de dias. Lá está… “no meu tempo é que era…”.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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