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Alba Baptista: “O que sempre me fascinou no cinema português foi a esquizofrenia”

A atriz portuguesa Alba Baptista vai ser a protagonista da nova série da Netflix, Warrior Nun.
Courtesy of Netflix/NETFLIX © 2020
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira29 Junho, 2020
Alba Baptista: “O que sempre me fascinou no cinema português foi a esquizofrenia”
A atriz portuguesa Alba Baptista vai ser a protagonista da nova série da Netflix, Warrior Nun.

“Sou altamente perfecionista!” É com esta frase de Alba Baptista que apresentamos a jovem atriz portuguesa que, para além de ser um rosto conhecido no cinema e televisão portuguesa, é a protagonista da nova série da Netflix, Warrior Nun, que estreia a 2 de julho. Aproveitando este novo projeto da atriz portuguesa de 22 anos, falamos sobre passado, presente e futuro, numa odisseia entre novelas, filmes, séries e ambições europeias. “Acho que agora é altura de arregaçar as mangas”, diz-nos Alba Baptista.

©Justin Amorim

Gostaríamos de começar pelo início. O que te fez seguir um percurso na área da representação? Podes contar-nos como tudo começou?

Desde pequena que sempre fui muito fascinada pelo cinema. Sempre fui grande admiradora e via muitos filmes em casa. Mas não me lembro especificamente de ter como desejo ser atriz. Lembro-me que sempre quis ser artista. Cheguei a querer ser pianista, pintora, mas atriz não me recordo de pensar nisso. Até que um dia fui chamada para um casting e foi aí que se abriram as portas para este novo mundo, esta indústria. Foi aí que me apercebi de uma paixão que não sabia que tinha. Desde esse filme que não parei de trabalhar. Recordo-me do momento de descoberta: o facto de eu ter provocado emoção a um espectador pelas das minhas próprias emoções, pela minha própria verdade, que eu transmiti para uma câmara. Lembro-me de pensar que isso era tão poderoso, era uma responsabilidade tão grande. E é belo. Quis evoluir isso e partilhar momentos.

És um rosto já bem conhecido do público português, uma vez que já passaste por vários projetos televisivos, entre novelas e séries (A Impostora, Jogo Duplo, Madre Paula ou Filha da Lei). Sentes-te feliz com este teu percurso? Consideras que a televisão portuguesa é uma boa escola?

Sem dúvida. Eu estou imensamente grata por ter passado por todos os projetos que já fiz até hoje. Acho que, por mais que não me apercebesse na altura, cada projeto que fiz deu-me uma bagagem tanto emocional como de maturidade para poder aguentar coisas que eu nem sabia que vinham no futuro – como por exemplo, neste projeto da Netflix. Eu não teria aguentado o calibre da pressão senão tivesse feito tantas novelas. Portanto, estou grata, acho que estou no caminho certo e estou feliz e orgulhosa da trajetória que já tive até hoje. Trabalhei muito e não parei até hoje. Mas não me arrependo de nada.

“O cinema é o alcance à perfeição. É o perfecionismo da coisa que me fascina e me dá garra para fazer mais.”

Nos últimos tempos, tens estado em destaque em vários filmes portugueses. Destaco Leviano, de Justin Amorim, Equinócio, de Ivo M. Ferreira, Caminhos Magnétykos, de Edgar Pêra e Patrick, de Gonçalo Waddington. O que mais te apaixona no cinema? Consideras que o cinema português está em alta?

O que sempre me fascinou no cinema português foi a esquizofrenia (risos) Por mais que, em televisão, tenhamos diferentes personagens, o método de trabalho é muito semelhante em termos de início, meio e fim, ou seja, o arco do processo de filmagens irá ser sempre bastante semelhante; em cinema é sempre uma incógnita. Na verdade, é sempre bastante íntimo e subjetivo em relação à mentalidade do realizador e como ele pretende abordar personagens e contar a história na sua perspetiva. O cinema é o alcance à perfeição. É o perfecionismo da coisa que me fascina e me dá garra para fazer mais. É a constante incerteza de não saber se estou a ir pelo caminho certo, se é esta a abordagem correta para esta personagem. É sair da minha zona de conforto. Sempre gostei de me aventurar e de ser posta à prova assim no momento e, em cinema, são todos os dias assim. Nós não sabemos com o que vamos ter de lidar em plateau, como é que o nosso realizador, que é o nosso líder, irá provocar emoção em nós, como é que ele vai transparecer o que ele pretende. Às vezes são altamente comunicativos, às vezes são mais introspetivos porque já estão três passos à frente e não conseguem comunicar tão bem… e nós temos de nos adaptar enquanto atores. É a tal ideia de ser camaleão – que é verídico -, mas que eu adoro.

Mencionaste que “o cinema é o alcance à perfeição”. Tendo em conta que tens feito muito cinema recentemente, sentes que exiges a ti própria a perfeição?

Sim, sou altamente perfecionista! (risos) Sempre fui! Quando pintava, nunca tive uma mão livre como, por exemplo, Picasso, que dizia que passou uma vida inteira a tentar pintar como uma criança, sem estar envolvido em dúvidas e mentalidades. Eu sempre tentei aplicar isso na minha vida, mas o facto é que eu passava horas e horas a definir uma sombra. Isto é um exemplo da pintura, mas que eu acho que se aplica também na representação. Eu tenho perfeita consciência quando faço um take bom, menos bom, muito bom ou perfeito, sempre tendo em conta a subjetividade do realizador, do que ele pretende. Sou muito consciente nesse aspeto, o que é bom, mas pode ser mau muitas vezes. Porque às vezes estou demasiado fora de mim, em vez de estar dentro da cena. Mas eu agradeço por este perfecionismo.

©D.R.

Muitas vezes dizem que és demasiado madura para a idade que tens (22 anos). Talvez por essa abordagem tão perfecionista, essa atenção ao detalhe, essa bagagem. Sentes isso? Sentes que és uma “alma velha”?

De certa maneira, sim. Acho que todos nós tivemos uma fase, na pré-adolescência ou adolescência, onde sempre quisemos dar aquele salto maior que a perna, mas a verdade é que eu sempre me ambientei muito bem na seguida dos saltos. Quando entrei no mundo do cinema tinha 15 anos e lembro-me que convivia com pessoas da indústria já com 20 ou 30 anos e eu era, naturalmente, a protegida ali no meio. Mas participava nas conversas e lembro-me que me levavam a sério. Essa sensação é mesmo muito especial para uma pessoa que sente que tem potencial, mas muitas vezes não se sente ouvida. É uma questão de ter ganho confiança durante os anos. Claro que tenho noção de que sou jovem e vivo bem a minha juventude! No entanto, gosto de ser muito exigente.

A verdade é que tens sido várias vezes apelidada como “forte promessa da representação portuguesa”. O que dizes sobre este título? Sentes que o teu percurso te tem encaminhado para a “terra das grandes expectativas”?

É uma responsabilidade no momento em que leio esse título, mas rapidamente isso se dissipa da minha cabeça. Acho que isso se torna uma responsabilidade apenas se quisermos. Fico grata por receber essas conotações e ouvir essas palavras – e claro que quero que essas expectativas sejam provadas certas! No entanto, estou segura do meu caminho, da minha luta.

Sempre ambicionaste uma carreira internacional?

É engraçado que eu lembro-me que, quando comecei, mesmo jovem, eu via isto tudo como um jogo. Eu tinha a minha vida, a minha escola e, no final do dia, ia trabalhar, mas era brincar. Inconscientemente eu acho que já o queria, mas não era algo que eu estava diretamente a trabalhar por. Até aos meus 17/18 anos, em que eu afirmei que isto não era mesmo uma brincadeira, que era a minha vida, a minha escolha, a minha paixão. Sempre quis aproveitar o facto de dominar outras línguas e explorar outros mercados, porque com o mercado internacional também vem uma cultura diferente, um método de trabalho diferente e eu acho isso muito interessante. Isso cativa-me! Lá está, é sair da minha zona de conforto.

“Não tenho como direto o objetivo de fazer filmes de bilheteira de Hollywood. Acho que se um dia acontecer acontecerá, mas para já gostava de explorar mais o cinema de autor europeu, possivelmente alemão, francês, inglês.”

O teu grande salto internacional pode ter como rampa de lançamento o projeto que é a razão para esta entrevista: Warrior Nun, uma série da Netflix da qual és protagonista. Em primeiro lugar, queremos perguntar-te: como se lida com a responsabilidade de ser a protagonista de uma série da Netflix?

(risos) Lida-se com muita cautela! Temos de desmistificar isto porque a pressão já é imensa. Basta encontrarmos o nosso centro e ficarmos serenos em relação ao nosso trabalho e à honra que demos ao nosso projeto. Eu posso dar um exemplo da pressão que falo: na primeira semana de rodagens, apareceram dois homens, de fato, a mandar muito respeito. Eu perguntei às pessoas da equipa quem eram aquelas pessoas e responderam-me “eles são a Netflix, os patrões da Netflix” e eu fiquei do género “o que é que eu faço?”. Fui lá conversar com eles, eles deram-me os parabéns pelo papel e disseram-me com toda a tranquilidade e serenidade que iriam ficar lá a primeira semana a ver-me trabalhar e se não tivessem totalmente contentes ainda me poderiam substituir. Portanto, este é um exemplo da pressão que era constante sofrermos (risos) Mas na verdade eu encarei aquilo como um bom desafio. Tive ali um pequeno ataque, mas isso até me deu algum fogo para lhes provar que fizeram a escolha certa. Tentei mostrar que estava ali porque merecia e que iria mostrar o meu suor. Foi um desafio! E, lá está, talvez eu não tivesse aguentado esta pressão se eu não tivesse já o currículo que tenho. Portanto, tudo acontece por uma razão.

Courtesy of Netflix/NETFLIX © 2020

Podes explicar-nos o enredo desta série?

A série é uma adaptação de uma banda desenhada dos anos 90, Warrior Nun. Recordo-me que, quando estava na segunda ronda do casting, comecei a pesquisar sobre esta banda desenhada e fiquei assustada, visto que era ligeiramente misógina e até sexista. Fiquei a pensar se iriam adaptar aquilo diretamente: freiras quase nuas com armas? O criador da série assegurou-me que iam apenas retirar o universo em que a BD foi criada e que algumas personagens iam ser inventadas (e outras retiradas diretamente da BD), mas que ia ser uma série altamente feminista. Ele vendeu-me essa ideia – e muito bem porque correspondeu à realidade. Foi uma adaptação que teve de ser rápida porque eu filmava todos os dias e era muito intenso. Mas foi altamente gratificante trabalhar numa equipa com uma dimensão tão grande, com departamentos que eu própria desconhecia, que nem existem nas produções portuguesas. Sentir que cada departamento tinha uma voz, que era valorizado e respeitado, foi inspirador.

As alturas de filmagens superaram as minhas expetativas. Foi, sem dúvida, um ritmo alucinante, mas todos os departamentos acreditavam neste projeto. Acho que isto tem influência até para o espectador que não sabe histórias por detrás da câmara, mas eu acho que se sente através da televisão as energias positivas constantes que rodeavam estas filmagens.

Lembro-me de ter dúvidas em relação aos efeitos especiais, porque esta série tem muitos efeitos especiais. Eu enquanto espectadora descredibilizo um projeto quando sinto que os efeitos especiais não estão muito bem feitos. Lembro-me que isso era uma preocupação minha porque, na altura, nós não tínhamos imagens, não sabíamos como é que ia ser, reagíamos a uma bola de ténis. Entretanto já vi os episódios porque já me mandaram e uma das maiores surpresas foi mesmo a parte dos efeitos especiais: fiquei surpresa, fiquei rendida mesmo! Os efeitos especiais estão com uma qualidade imensa! Assim como os atores e a realização também.

Depois de, nos últimos meses, os portugueses terem delirado com a personagem Boxer, de Nuno Lopes, em White Lines, o que podemos esperar da tua personagem Ava, em Warrior Nun? É uma personagem forte, com uma variante cómica, certo?

Pois, agora há a febre do Nuno! (risos) Eu espero que as pessoas vibrem também com esta minha personagem tal como eu vibrei e que sintam o que eu senti porque esta série tem uma componente que eu acho rara: a nossa protagonista (que neste caso sou eu) entra neste universo sem saber qualquer coisa em relação a ele, tal como o espectador que não conhece o universo de Warrior Nun. É interessante porque tanto o espectador como a Ava vão estar lado a lado. Acho que isso vai dar um link mais direto. A Ava é, sem dúvida, muito humana, dentro das suas qualidades e defeitos. Foi um desafio fazer uma personagem cómica porque eu nem sabia que tinha esse fator em mim porque não me considero uma pessoa naturalmente cómica. Mas adorei e espero que as pessoas sintam a criança interior que estava sempre a brilhar em mim, que era a personagem.

Esperas que este trabalho te abra portas para um futuro no cinema na Europa ou até mesmo em Hollywood? Achas que pode ser uma rampa de lançamento para ti?

Sem dúvida! Se o mundo considerar que o trabalho foi bem feito pode ser uma oportunidade. No entanto, não quer dizer que já está definido e que irá ter sucesso internacionalmente. Acho que agora é altura de arregaçar as mangas. Não tenho como direto o objetivo de fazer filmes de bilheteira de Hollywood. Acho que se um dia acontecer acontecerá, mas para já gostava de explorar mais o cinema de autor europeu, possivelmente alemão, francês, inglês. Mas estou aberta a tudo, não vou descartar nada. É altura de trabalhar ainda mais (risos).

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