Revista Rua

Albano Jerónimo, uma vida entre papéis

“Gosto imenso da ignorância! Acho que a ignorância me põe numa zona de aprendizagem e de conhecimento... e eu adoro não saber coisas!”
Fotografia @Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira16 Março, 2019
Albano Jerónimo, uma vida entre papéis
“Gosto imenso da ignorância! Acho que a ignorância me põe numa zona de aprendizagem e de conhecimento... e eu adoro não saber coisas!”

Encontramo-nos com Albano Jerónimo na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, numa altura em que o nervoso miudinho antecipava a estreia da peça Veneno. Numa conversa sobre o passado e o futuro de uma carreira que conta filmes, novelas e variadíssimos palcos, damos a conhecer, na primeira pessoa, um dos atores prediletos do público português.

Esta entrevista faz parte da edição #31 da Revista RUA.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Este imaginário do teatro, da ficção, do cinema sempre esteve nos seus planos de percurso profissional? Que paixão é esta pelo universo da representação?

Foi um interesse que foi crescendo. Eu faço teatro amador desde os meus 15 anos e, profissionalmente, desde os 20. Quando acabei o 12º ano, fui estudar Fisioterapia, mas desisti e concorri ao Conservatório. Ainda hoje se mantém essa curva ascendente, esse crescimento, no sentido em que sou um enorme apaixonado pela palavra e a palavra, sem qualquer romance à mistura, é de facto um encanto e um mistério. Foneticamente, a música que se pode tirar de uma palavra, de um texto, é absolutamente novo e transformador para mim. Essa é a razão central para eu fazer aquilo que faço. Depois, acho que é a forma que eu tenho de me expressar melhor.

Tudo isto foi crescendo e adensou-se quando entrei para o Conservatório. No final do primeiro ano, tive convites profissionais e nunca mais parei de trabalhar. Recentemente, comecei a dirigir – a peça Veneno é a minha segunda direção – e isso é também uma consequência de um crescimento, de uma vontade… Eu enquadro muito esta profissão dentro de uma ideia de aumentar o meu alfabeto de comunicação. Tenho uma sorte tremenda em fazer aquilo que gosto!

Numa fase em que temos o nome Albano Jerónimo em novelas, peças teatrais, filmes e até séries internacionais, a pergunta que se impõe é: o que lhe falta fazer?

Falta fazer muita coisa (risos). A grande diferença é que hoje em dia – e com a idade que tenho – quero fazer uma coisa de cada vez. Não me interessa fazer três coisas ao mesmo tempo, como já fiz durante alguns anos. Gostava de fazer muitas mais coisas: dirigir, obviamente, porque quero continuar a desenvolver este gosto e curiosidade; daqui a uns anos, talvez realizar. E parar! Parar também pode ser uma sugestão. Se calhar, posso fazer outra coisa durante uns tempos porque acho importante para relativizar e para recentrar todas as coisas. O que eu pretendo com isto é ser feliz e construir o meu caminho baseado numa felicidade e numa harmonia comigo e com o meu trabalho. Eu já não tenho idade para estar a querer agradar, no verdadeiro sentido da palavra. Sou profissional e sou sério naquilo que faço. Não estou à espera que me digam que eu sou espetacular porque isto que eu faço não é sobre mim, é sobre outra coisa que está acima de mim: é sobre um autor que escreve problemáticas que me interessam mostrar, partilhar e questionar o público. Essa é a minha zona de trabalho. Portanto, dentro desta ideia de que isto não é sobre mim, vejo também facilmente a possibilidade de vir a fazer outras coisas, com naturalidade.

Fotografia ©Nuno Sampaio

As peças teatrais que tem apresentado um pouco por todo o país parecem trazer sempre temáticas reivindicativas, chamadas de atenção para realidades sociais distintas. O próprio Albano, como ator, criador, encenador, considera-se um crítico social?

Eu acho que é uma responsabilidade que nós temos enquanto agentes culturais ou agentes da comunicação. A nossa função, ou uma delas, é de facto questionar. E temos como plataforma de comunicação um palco, que é inacreditável, que é uma arma! Tenho feito sobretudo autores que me intrigam… e isso é meio caminho andado para eu aceitar fazer esse trabalho. Tenho feito textos de Pier Paolo Pasolini, William Shakespeare ou Heiner Müller, que são corrosivos, são autores que trabalham num comprimento de onda muito interessante. Pasolini é um dos meus autores preferidos, porque antes de ser realizador, é um poeta exímio, um jornalista fantástico. Tenho feito textos de pessoas que me apaixonam! Aliás, acho que não faria se não fosse assim. O resto, que é entretenimento puro e duro, faço quando faço novela, por exemplo. Isso é uma zona do meu trabalho que eu respeito imenso, mas corresponde a um género. Aqui, no teatro, é onde eu tenho mais tempo para aprender, para me educar.

 

Então, em termos de representação, considera importante a participação em novelas? Não há uma balança que pende mais para o ramo cinematográfico ou teatral?

Não… Obviamente, a ficção, nomeadamente o formato novela, dá-nos um retorno financeiro bastante mais simpático, para podermos estar mais tranquilos em casa, com família, os filhos, a escola, enfim… O cinema dá-nos a possibilidade de termos outro tempo para aprender. Tanto o teatro como o cinema, para mim, têm a grande diferença de nos dar este tempo de aprendizagem. Eu tenho a tendência para gostar mais de teatro ou cinema exatamente por esta questão, não é por uma questão de elitismo ou snobismo… ou seja o que for! É mesmo por uma questão de aprendizagem. O tempo é curto, estamos cá pouco tempo, vivos, por isso, deixem-me cá aproveitar aquilo que me dá esse prazer de aprender. Eu acredito que a vida é a construção de um pensamento e isso está acoplado a um conhecimento permanente ou pelo menos a uma avidez ou curiosidade. E eu sinto que isso está mais aguçado seja em cinema ou teatro.

“Eu já não tenho idade para estar a querer agradar, no verdadeiro sentido da palavra. Sou profissional e sou sério naquilo que faço. Não estou à espera que me digam que eu sou espetacular porque isto que eu faço não é sobre mim”

De uma maneira geral, qual é a sua perspetiva do cinema português?

Temos uma matéria-prima absolutamente maravilhosa, altamente dotada. Os prémios valem o que valem, mas é absolutamente inacreditável o reconhecimento que o cinema português tem tido. O rácio entre aquilo que é produzido, ou seja, o número de filmes que são feitos por ano e os prémios que temos é um espanto!  Temos, sei lá, um máximo de 15 longas – e já estou a ser extremamente generoso – por ano. Em Espanha temos 300, França 1000 e Alemanha o dobro! Tendo em conta esta nossa realidade, acho que fazemos milagres, na verdade. Temos cineastas absolutamente fantásticos e novos: Gabriel Abrantes, João Salaviza, Sérgio Graciano, Marco Martins, Tiago Guedes, Sandro Aguilar, Miguel Gomes, enfim, estou só a enumerar alguns e obviamente não quero ser ingrato para outros.

O que nos falta então?

O nosso cinema está bom de saúde, mas o que falta são os apoios, que são inexistentes. O apoio que se dá ao cinema português é completamente ridículo! Isto deveria ser visto e interpretado como uma entidade cultural, algo que nos marca enquanto povo, enquanto nação. E há outro lado: em Portugal ainda não temos esta perspetiva económica da rentabilidade que se faz do produto artístico. Lá fora isso é prato do dia, é norma. Seja um filme de autor ou algo mais comercial, tem que ter a sua continuidade, tem de ser vendável. O Michael Haneke, por exemplo, faz filmes absolutamente incríveis, ora coisas mais herméticas, ora coisas mais abrangentes, e não perde o seu cunho, o cunho de ir a festivais, de ser vendido para vários países. Não há essa cultura cá. Obviamente isto era muito facilitado se, por exemplo, a política de mecenato fosse agilizada, burocraticamente. O Brasil é um bom exemplo: a Petrobras patrocina grande parte do cinema brasileiro e o Brasil tem uma produção extremamente interessante. Cá, burocraticamente, ainda não temos essas leis agilizadas ao ponto de uma Sonae ou uma NOS poder entrar com algum dinheiro para produção de cinema em Portugal. Não é atrativo, quero dizer. Portanto, isto são aspetos que fazem com que isto emperre um pouco nesta política de subsídios e nesta forma de olhar o cinema. O cinema português está de ótima saúde, as salas estão cheias, o público é novo… No teatro é exatamente a mesma coisa. Existe um movimento altamente positivo e otimista sobre a nossa realidade cultural. A grande questão, para mim, é mesmo a forma como se pensa cinema e a forma como se vê a cultura no nosso país, nomeadamente pelos nossos governantes.

Considera então que o público respeita o trabalho de ator, mas há falta de apoio por parte estatal?

Sim. Vou dar um exemplo para terem noção de como é difícil: eu faço um filme e o filme é selecionado para um festival na Argentina. Se eu não tiver dinheiro, o Estado não me ajuda porque não há uma verba para eu ir com o meu staff a esse festival. Isto são investimentos da nossa cultura, do nosso produto, da nossa arte e, portanto, nessa perspetiva, isso não está a ser apoiado devidamente.

Fotografia @Nuno Sampaio

Para terminarmos, onde vamos poder ver Albano Jerónimo durante 2019?

No cinema, acabei de fazer um trabalho absolutamente intenso… foi das experiências mais intensas que eu tive até hoje no cinema! É uma longa-metragem realizada pelo Tiago Guedes, com produção da Leopardo Filmes, por Paulo Branco, e tem o título provisório de Herdade – no sentido de património sentimental. É um filme de família, que foca curiosamente a degeneração da família. Foi um filme que me deu um prazer imenso em trabalhar, estivemos dois meses árduos de rodagem e mais um mês e meio de preparação. Foi muito duro, mas foi um prazer imenso. Estou ansioso por ver o que vem por aí! Depois, no teatro, acabei de estar no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, com As Confissões de um Coração Ardente, um texto a partir de Fiódor Dostoiévski, dirigido pela Carla Maciel.

São ambos projetos que, uma vez mais, me empurram para uma zona do desconhecido. Eu gosto imenso da ignorância! Acho que a ignorância me põe numa zona de aprendizagem e de conhecimento… e eu adoro, adoro não saber coisas! Vejo sempre um caminho gigante à frente! Portanto, estes espetáculos, estes textos, autores e colegas, fazem exatamente isso: colocam-me num sítio sem proteção e isso é ótimo!

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