Revista Rua

2019-04-23T18:03:14+00:00 Cultura, Música, Personalidades

Aline Frazão, uma chuva de silêncios cómodos

"Dentro da Chuva" é o mais recente trabalho da artista angolana Aline Frazão.
Aline Frazão ©Fradique
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto23 Abril, 2019
Aline Frazão, uma chuva de silêncios cómodos
"Dentro da Chuva" é o mais recente trabalho da artista angolana Aline Frazão.

Inspirada na literatura que marca as suas raízes angolanas, Aline Frazão é a voz da ruptura e da mudança. Depois de três álbuns de sucesso, chega Dentro da Chuva, um disco mais intimista, tranquilo e consciente, que promete uma proposta contra a corrente dos tempos. A cantora e compositora angolana sobe ao palco da Sala Principal do Theatro Circo, em Braga, no próximo dia 24 de abril.

Aline Frazão ©Fradique

Como é que começa esta viagem pela música?

A música sempre esteve na minha vida, desde que eu me lembro. Comecei a cantar ainda muito nova e a fazer os meus primeiros espetáculos quando tinha uns nove/dez anos. Nessa fase da minha vida ainda não tinha muito claro que poderia realmente ser uma profissão, um projeto de vida. Quando estava a morar em Barcelona, em 2010, estava numa fase de transição para a vida adulta, no final da faculdade. Foi aí que comecei a fazer algumas perguntas – acho que toda a gente passa por isso – sobre o que queria fazer na vida. Na altura já fazia alguns concertos em Madrid e Barcelona e foi isso, assim como o feedback que recebia do público, que fez com que começasse a pensar em gravar o meu primeiro disco, lançado em 2011. Foi aquando o lançamento desse primeiro álbum (Clave Bantu) que eu percebi que realmente poderia fazer uma carreira e dedicar-me à música de uma forma mais profissional. Foi um processo de descoberta, de perceber como é que queria viver a minha vida.

O primeiro disco foi lançado em 2011, gravado em Santiago de Compostela. O que a inspirou a criar este primeiro trabalho discográfico?

Quando morava em Madrid recebi um convite de uma cantora galega chamada Uxía, diretora artística de um festival dedicado à música lusófona, Cantos na Maré, que acontece todos os anos em Pontevedra, na Galiza. Convidou-me para participar nessa edição do festival, em 2010, na qual estariam presentes artistas como Lenine, a representar o Brasil, e António Zambujo, a representar Portugal, e ela queria saber se eu estava disposta a participar para representar Angola e as minhas canções. Eu aceitei e foi a minha primeira experiência num festival, com um público grande e ao lado de artistas que eu admirava muito. Foi em contacto com o Lenine, que é um artista brasileiro fantástico, que me senti incentivada a gravar as minhas canções. Eu não era muito partidária e não me via na indústria discográfica, mas ele incentivou-me bastante e eu decidi gravar este disco. Foi a melhor coisa que fiz. Diverti-me imenso e senti realmente que tinha muitas coisas para dizer. Quem ouve Clave Bantu hoje nota que é um disco muito afirmativo e muito arriscado, mas com muito caráter. Foram as minhas primeiras canções a serem gravadas e tem toda essa força dos meus 20 anos (risos). É um disco que representa muito para mim, é um pouco essa coragem de chegar e produzir um disco, que foi todo autoproduzido e autofinanciado, com canções minhas e com algumas parcerias muito interessantes. Foi a partir daí que tudo começou a configurar-se na minha carreira.

Para um país como Angola, que é um país com questões identitárias muito em aberto, um país muito jovem, a literatura acaba por ser um espelho, um ponto de referência.

Diz que a literatura angolana é a sua fonte de inspiração. O que tem de tão especial? O que é que a influencia?

Eu gosto muito de escrever. A escrita é um lugar fundamental para mim, acima de tudo com as canções. Na hora de colocarmos o nosso trabalho para o mundo, rapidamente percebemos que temos de encontrar a nossa voz, porque há muita gente a cantar e a escrever.  Se tu fizeres um trabalho sério vais-te perguntar muitas vezes: qual é a minha voz? Vais procurar as tuas referências, tanto musicais como ao nível da escrita. No caso da escrita, eu realmente inspiro-me muito na poesia em geral e, em particular, na literatura angolana, não só na poesia, mas também nos romances e na prosa, por me identificar com essa linguagem, com a forma como os escritores(as) angolanos(as) usam a língua portuguesa para contar as nossas histórias e nos refletir nessas páginas. Sempre achei isso um exercício muito poderoso, de ler um Pepetela e ver naquelas histórias parte de mim, da minha família, da minha cidade. Para um país como Angola, que é um país com questões identitárias muito em aberto, um país muito jovem, a literatura acaba por ser um espelho, um ponto de referência. Eu, como pessoa que escreve, fui lá buscar muita da minha inspiração. São os grandes nomes – e os pequenos também – da literatura angolana que me inspiram e onde eu sinto que se enquadra a minha linguagem, como pessoa que escreve canções.

Segue-se Movimento, em 2013. O que é que este segundo álbum trouxe à sua carreira e à sua vida, também?

Muita coisa! Foi um disco mais pensado do que o primeiro, ao qual dediquei muito do meu tempo e muito esforço. As minhas expectativas eram mais altas, honestamente, e eu esgotei-me… trabalhei imenso, o que foi um processo um bocado difícil. Mas é um disco que foi, realmente, um ponto de viragem. Muita gente começou a conhecer o meu trabalho depois do Movimento e estava a trabalhar pela primeira vez com um discográfico, com agências. Comecei a estruturar a minha carreira depois deste álbum. Ainda hoje, principalmente em Angola, é um disco que as pessoas gostam muito de ouvir. A nível pessoal, foi um processo de aperfeiçoamento da linguagem, de me divertir muito a trabalhar com a banda, de cimentar algumas parcerias. É um disco muito quente, muito envolvente e com canções que eu gosto muito e que me ensinou bastante. Acho que foi a primeira vez que eu senti o verdadeiro peso da responsabilidade de estar neste mundo, mas ao mesmo tempo deu-me muito gozo. Foi uma altura em que comecei a viajar mais por Luanda e podia-me inspirar diretamente da realidade de lá… e isso significou muito.

©Fradique

Quando gravou Insular, procurou isolar-se. O facto de gravar os seus discos sempre em lugares completamente distintos significa que é importante para si sair da sua zona de conforto?

É muito importante, eu diria até, sair da minha zona de desconforto, que tem a ver com a correria do dia a dia, as exigências de estar nas redes sociais a promover o meu trabalho, de estar na cidade, na corrida para pagar as contas e estar à altura de tudo aquilo a que me propus. Com o Insular, tive a oportunidade de gravar numa ilha na Escócia e experimentar um pouco esse ato de gravar o álbum com uma certa dose de isolamento, num contexto completamente rural e isolado, no Norte e no frio, com uma língua nova à minha volta e produzir e trabalhar com músicos que falavam em inglês. Foi um processo que me ensinou muito, conceptualmente e musicalmente. O álbum é uma ruptura com aquilo que eu já vinha fazendo a nível de sonoridade. É um álbum muito elétrico, com a participação do Pedro Geraldes, dos Linda Martini, que foi uma participação importante e especial no disco, com uma proposta muito nova e arriscada. Foi um afastar-me das expectativas que tinha em Movimentos, da confusão e das histórias que alguém escreve para tu viveres, e tentar escrever algo eu própria e procurar as mensagens dentro de um lugar de mais intimidade e isolamento. Foi uma experiência muito incrível e que criou uma página em branco e importante na minha vida. Propiciou, ainda, as mudanças que vieram a seguir, tanto voltar para Angola como o quarto disco.

Depois de um disco como o Insular, com um ambiente mais rock e elétrico, passamos para a serenidade que é o Dentro da Chuva, um álbum mais intimista. Esta rutura de paradigma de um álbum para outro é importante para a Aline?

Ter essa liberdade, para mim, é fundamental. Não estar presa a um guião, enquanto artista e pessoa criativa que escreve canções e que sobe a um palco, é muito importante. Permite-me escutar e fazer aquilo que realmente tem um cunho de verdade para mim, não estar a “seguir a bala”, como se diz em Angola, que significa seguir a moda e as tendências, mas fazer algo que vem realmente de dentro. É uma condição importante para eu continuar a fazer música e eu gosto de criar esses espaços para poder fazer a música que é mais honesta para mim naquele momento. O Dentro da Chuva e o Insular, assim como todos os discos à sua maneira, são muito conscientes e intencionais.

O Dentro da Chuva é um álbum muito tranquilo, mas muitas vezes é de alguma intranquilidade também, de demónios e fantasmas que levamos dentro de nós.

Depois de Insular, volta a Luanda. Como foi este reencontro, novamente, com as suas raízes? Que influência teve na construção do novo disco?

O regresso foi uma mudança muito grande na minha vida, depois de dez anos a viver na Europa. Tive de deixar algumas coisas e pessoas queridas e lidar com um certo grau de incerteza acerca do que ia acontecer ao meu trabalho e como gerir a minha carreira, que foi criada a partir daqui. Mas foi muito bom. A nível pessoal foi muito fluído, articulado e de uma grande aprendizagem, com muitas lições. Uma tranquilidade surpreendente para mim, um sossego, dentro de um quadro de que há sempre um desassossego dentro de nós. Encontrei uma certa paz em Luanda. O Dentro da Chuva é um álbum muito tranquilo, mas muitas vezes é de alguma intranquilidade também, de demónios e fantasmas que levamos dentro de nós, e tem um tom mais dramático e pessoal. Mas acho que é um disco mais sólido, muito intimista, centra-se na minha voz e na minha guitarra. É de muitos silêncios e uma proposta contra a corrente dos tempos. Estou muito feliz com este disco, porque queria gravar um álbum a solo há muito tempo e no Rio de Janeiro, nas condições em que pude gravar. Foi um privilégio muito grande.

É um disco mais despido de estética e com uma maior abertura para a música se exprimir. Ao fim de três álbuns, era importante para si que assim fosse?

Sim, era importante voltar ao começo, de certa maneira. Quando fiz o Insular, no final eu faço uma referência ao livro O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, do qual eu fiz uma canção (“O Homem que Criou um Barco”) baseada nesse conto. Saramago falava dessa ânsia de um homem que queria um barco para ir à procura dessa ilha desconhecida, “para descobrir quem sou quando chegar”. O Insular é um bocado isso, de procurar a minha ilha desconhecia para descobrir quem eu sou ou, como eu digo no final, só para fazer o caminho de volta. E Dentro da Chuva, sem eu saber quando o estava a produzir, é um caminho de volta ao começo da minha carreira, aos concertos mais iniciais. E esses passos foram muito importantes. O facto de não ter uma banda em palco e ter de lidar com esses espaços vazios incómodos – um pouco como nós vivemos a nossa vida, todos os vazios incómodos são preenchidos com scroll no telemóvel, ver as redes sociais ou o e-mail, e não deixamos que esse silêncio incómodo se transforme num silêncio cómodo. Este disco é um pouco esse exercício de lidar com a ausência, o silêncio, o vazio e as mudanças.

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Dentro da Chuva foi gravado no Brasil, no Rio de Janeiro. Que ligação tem com o Brasil?

Em primeiro lugar, tenho uma relação familiar, porque parte da família do meu pai é de lá. E, por outro lado, tenho uma relação musical muito grande com o Brasil, em especial com o Rio. Sou uma grande fã da Bossa Nova e desde o começo aprendi a tocar músicas brasileiras. O Rio sempre foi uma das várias cidades musas que eu tenho e quando decidi gravar este disco, e visto que tinha várias referências de lá, decidi gravar no Brasil. E escolhi a minha cidade musa inspiradora: o Rio.

É um álbum onde a encontramos mais madura e segura de si. Como é que foi, até agora, a aceitação do público que a ouve?

A aceitação e a resposta do público têm sido ótimas. Acho que algum público que gostou do Movimentos, não gostou tanto do Insular, mas voltou a apreciar o Dentro da Chuva. Volta a ser um disco com tom cálido e acolhedor, apesar de ter algumas canções um pouco mais ríspidas. Em geral, o disco tem sido muito bem recebido e teve ótimas críticas, mas o conceito é realmente especial. Eu sinto que os concertos a solo, deste último álbum, têm sido muito especiais, porque as pessoas ficam impactadas com essas questões do vazio e de terem uma pessoa só em palco. É um desafio muito grande para mim, porque é muito exigente, mas acho que é aí que as canções conquistam o público. No final dos concertos eu tenho oportunidade de estar com o público e receber essa resposta mais direta e as pessoas ficam muito emocionadas – e surpreendidas por se emocionarem. Acho muito bonito essa proximidade que pode ser gerada através da música. É uma experiência reconfortante e também radical e revolucionária nos tempos de hoje, em que tudo caminha no sentido oposto, pelo menos no mundo em que eu vivo (risos).

Eu adoro o Theatro Circo e tenho boas memórias, porque já não é a primeira vez que lá toco. Vai ser um concerto especial, muito exigente (…)

E essa experiência vai acontecer no próximo dia 24 de abril, na Sala Principal do Theatro Circo. O que podemos esperar deste concerto?

É uma sala que eu adoro, acho linda, e é um privilégio tocar lá. Eu adoro o Theatro Circo e tenho boas memórias, porque já não é a primeira vez que lá toco. Vai ser um concerto especial, muito exigente, e que mexe com uma matéria muito delicada, com sentimentos, com sensações, com a palavra. É exigente também para o público, de certa maneira, porque tem de ser um público que quer ouvir algo a sério, precisa de querer dar-se e de estar comigo. Estou muito animada por fazer este concerto em Braga. Tem vários elementos que fazem do espetáculo algo muito fluído e completo.

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Os movimentos feministas têm uma forte presença e importância na sua vida. A música existe, também, com esse propósito de intervenção, de caminhar no sentido da justiça social e da liberdade?

Tudo deve caminhar no sentido da justiça social e da liberdade, inclusivamente a música. Acho que todos devemos fazer esforços para que o mundo ande para a frente e não para trás, porque se não o fizermos andar para a frente ele anda para trás sem hesitar. É isso que temos visto à nossa volta e nas notícias. Quanto mais relaxamos, mais ele anda para trás. Não há nenhum direito que seja garantido e isso vale para as mulheres, para as comunidades LGBT, populações emigrantes, pessoas negras, vale para todas as pessoas que estão em desvantagem social e de injustiça. A música é uma dessas forças transformadoras, embora não seja a única, é um espaço de expressão artística. Eu tenho tendência a ver política em quase tudo, porque acho que é um conceito que muitas vezes é esvaziado de significado, as pessoas falam sem saber. A política, para mim, é também uma expressão pessoal, do mais íntimo, e falta muita alfabetização nesse sentido de olharmos para a nossa vida pessoal como um lugar onde a política pode ter espaço e expressão. Em qualquer profissão, qualquer pessoa pode meter um pouco de política em todos os gestos, naquilo que lemos, a forma como passamos o nosso tempo livre, tudo isso acaba por ser política.

O que podemos esperar para este ano? O que lhe reserva o futuro?

Este ano vai ser de várias viagens e concertos pela Europa, Angola e vou voltar ao Brasil. O essencial é continuar a levar este disco aos palcos, e há muitos países para ir. Espero dividir bem o tempo, descansar, estar por casa e começar a escrever coisas novas.

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