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Álvaro Siza Vieira, o poder de ser eterno

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Fernando Guerra | FG+SG (www.ultimasreportagens.com)
Andreia Filipa Ferreira25 Junho, 2019
Álvaro Siza Vieira, o poder de ser eterno
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É um homem de olhar melancólico, com uma postura firme e dedicada. Aos 86 anos, Álvaro Siza Vieira é um ícone da arquitetura internacional que recolhe vénias e eterniza o talento português.

Fernando Guerra | FG+SG (www.ultimasreportagens.com)

Há nomes que têm poder. Não pela pompa e circunstância, mas pela carga associada. Falar de Siza Vieira é trazer os seus desenhos, os seus edifícios, os seus sucessos e consagrações além-fronteiras para estas páginas. É trazer a Piscina das Marés (único edifício português incluído no livro Cem edifícios do século XX), o Museu de Serralves, a igreja de Marco de Canaveses, a Casa de Chá da Boa Nova, a Fundação Nadir Afonso e tantos outros projetos, da América à Ásia. É ver a cidade do Porto com outros olhos. É percorrer Portugal, Espanha, Bélgica, Brasil, Coreia do Sul, EUA… É ir a Berlim ver Siza – Unseen & Unknown, a exposição que, assinalando o centenário da escola Bauhaus, celebra Siza com esquissos do próprio e desenhos da esposa, do filho e do neto na Tchoban Foundation, até 26 de maio. É voltar a 1992 e ao Prémio Pritzker, o mais consagrado do mundo da arquitetura. O nome Álvaro Siza Vieira é poder, é sentimento e é honra. É possível ser eterno antes de dizer adeus? É.

Siza. Siza Vieira.

É natural de Matosinhos e nasceu no seio de uma família grande onde os momentos à mesa eram celebração. A sala de jantar era a sala de estar e, em família, escutava o som do rádio vindo do quartinho ao lado. O rádio que trazia as notícias da guerra. A casa tinha uma ala contínua, dois pisos, uma espécie de cave onde brincava e um jardim. E a infância de Siza foi passada ali, entre vizinhos. Numa entrevista publicada na Revista Pública, em abril de 2009, Siza Vieira descrevia esta casa, a relação com a família e vizinhança e sobretudo a “infância feliz” que diz ter vivido. Nas memórias, estão os momentos em que fazia desenhos ao colo do tio. E os momentos das férias, organizadas pelo seu pai, engenheiro na refinaria de Matosinhos e professor de desenho de máquinas na escola Infante D. Henrique à noite. Aliás, foi numa dessas viagens, a Espanha, que Siza se cruzou com a obra de Gaudì, mas o deslumbramento estava na semelhança das obras com a escultura e não propriamente na arte da arquitetura. Siza queria ser escultor, mas, na visão do seu pai, era a desgraça da vida boémia que levava à miséria. Por isso, seguiu Belas Artes no Porto, onde existia curso de arquitetura, uma profissão já melhor aceite. Foi aí que se cruzou com o mestre Carlos Ramos, que o aconselhou a “adquirir informação” sobre arquitetura. Siza lá seguiu o conselho e, com a ajuda do pai, comprou a única revista de arquitetura que chegava a Portugal na altura, a Architecture Aujourd’hui. A sorte quis que os números que encontrou fossem dedicados a Gropius, diretor da Bauhaus e nome que Carlos Ramos já tinha referido a Siza… e Alvar Aalto, um motivo de entusiasmo! “Entusiasmou-me muitíssimo. Era uma coisa fresca, nova em relação aos modelos anteriores, ótimos também, cuja figura dominante era o Le Corbusier”, descrevia Siza à Revista Pública.

 

Fernando Guerra | FG+SG (www.ultimasreportagens.com)

Siza dizia-se aluno fraquinho, talvez por ver na arquitetura uma contrariedade ao sonho de seguir escultura. Só no quarto ano de curso é que Siza sente um apelo: graças a Fernando Távora, professor que lhe reconheceu qualidade e o convidou a trabalhar com ele mais tarde. A admiração por Távora fez Siza considerar que, afinal, poderia haver um caminho para si na arquitetura.

Hoje, ao lermos esta história, repensamos Siza e damos-lhe um mérito mais além: um mérito à obra de quem quis ser escultor, mas viu a vida mostrar-lhe um novo rumo. Um rumo que agarrou, com unhas e dentes, mesmo apesar das inseguranças. O medo de Siza fazia-o olhar para os projetos vezes sem conta, perceber as falhas como ninguém, começar de novo. O seu desenho é exemplo da vida e lá cabem cidades, esculturas, pintura, música, literatura, pessoas!

O nome Siza Vieira tem poder. Um poder com consciência. E viver em consciência é saber que se é eterno. Pela magnificência de uma obra que perdurará. Siza. Siza Vieira.

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