Revista Rua

2019-12-05T17:55:08+00:00 Histórias, Personalidades

Ana Aragão, a desenhadora com o Porto no traço

“O desenho está muito ligado à imaginação. Imaginar é fechar os olhos para o que está para fora e olhar mais para dentro”
Fotografia ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto29 Novembro, 2019
Ana Aragão, a desenhadora com o Porto no traço
“O desenho está muito ligado à imaginação. Imaginar é fechar os olhos para o que está para fora e olhar mais para dentro”

Poderíamos chamar-lhe de arquiteta ou ilustradora, mas Ana Aragão prefere definir-se como desenhadora. Uma descoberta ao acaso, mas bonita, mudou o rumo da sua história. Com a cidade do Porto a servir-lhe de pano de fundo, Ana Aragão dá vida às suas anagrafias, como carinhosamente nomeia as suas obras. As casinhas empilhadas que desenha no chão são feitas a caneta, na mais pura expressão real da arte, que não permite desfazer ou anular, mas que obriga a saber lidar com o erro e a contorná-lo.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Estamos no seu atelier, o lugar onde a sua arte ganha vida. É aqui o seu refúgio?

Diria que sim, sem dúvida. É aqui que eu chego de manhã, passo a maior parte do dia escondida a fazer os meus desenhos e saio só ao final da tarde. É aqui que eu tenho a maior parte dos meus livros e onde eu acabo por encontrar alguma paz para desenvolver o meu trabalho.

Aqui, redefine todos os dias o seu processo de criação. Em que é que se inspira?

Eu não acredito na inspiração no sentido em que se costuma aplicar o termo. Eu recorro a muitas referências, sobretudo das minhas leituras, de pesquisas, mas são normalmente mais relacionadas com palavras, com a literatura e os livros, do que propriamente com imagens. Naturalmente, todas as experiências emocionais são convocadas no momento da criação em que estou a desenvolver o meu trabalho. É engraçado porque, de facto, eu trago muitas referências e um plano mais ou menos definido e, no momento de desenhar, mudo sempre tudo. Há caminhos pelos quais o desenho me leva e que eu não consigo prever.

É no papel que “arruma” a complexidade da sua vida. Quando é que descobriu a paixão pela arte e pelo desenho?

Eu estudei Arquitetura aqui no Porto e foram seis anos muito intensos. No final do curso, tirei um doutoramento, porque achava que a parte académica me interessava bastante. Gosto muito de estudar e aprofundar temas, sejam eles quais forem. Foi precisamente nas aulas do doutoramento que comecei a desenhar e que encontrei estes meus mundos, de uma forma muito naïve e nada premeditada. Estava nas aulas, distraída, e comecei a desenhar. A partir daí começou tudo como uma brincadeira, não foi nada demasiado pensado, nem muito sério. Só a partir do momento em que eu comecei a perceber que, de facto, era aí que eu me encontrava, nos desenhos, na minha solidão diária e numa certa disciplina, que decidi que o meu trabalho seria mais solitário e de criação de desenhos. Às vezes, perguntam-me se sou ilustradora ou arquiteta. Eu gosto de dizer que sou desenhadora ou então só que faço desenhos. Quando me perguntam a profissão escrevo muitas vezes “faço desenhos” (risos). Prefiro simplificar, porque é o que realmente faço.

Vertical Reclamation of Individual Spaces, 2017 ©Rui Manuel Vieira

Estudou aqui na cidade do Porto, onde trabalha e vive atualmente. O que é que mais a inspira no Porto?

As histórias que podemos entender a partir da arquitetura, das casas, do património que ainda não está completamente restaurado e, digamos, posto novo para o turista ver. Há um lado que o Porto tem – e que todas as cidades, de alguma forma, o têm -, que é um lado um bocado decadente na parte mais tradicional, que é muito bonito. Mesmo que eu não ouça as histórias das casas, de alguma forma elas são personificadas e parecem contar-nos determinadas histórias, enquanto nos piscam os olhos com uma persiana um pouco fechada. Parecem falar connosco e contar que têm muitas cicatrizes, muitas mazelas, mas também muitos romances e aventuras que só elas guardam. E isso acaba por ser trazido para este meu refúgio. É por isso que normalmente nos meus cenários, nas minhas casas empilhadas, nestas minhas efabulações e ficções construídas, a arquitetura aparece como uma personagem principal, invariavelmente, e sempre com um desgaste, com essa questão do uso. As superfícies nem sempre são limpinhas, nem perfeitas. E há sempre uma história por detrás dessas arquiteturas – uma história que eu imagino, mas eu própria não a sei contar, o que é engraçado! (risos)

As paisagens urbanas das suas obras são a sua forma de projetar aquilo que não existe?

De alguma forma sim, porque o desenho está muito ligado à imaginação. Imaginar é fechar os olhos para o que está para fora e olhar mais para dentro. Ao projetar estruturas que não existem, eu estou a dizer o que poderia ser. Interessa-me muito, por exemplo na literatura, a ficção – o Ficções, de Jorge Luís Borges, é talvez uma das minhas referências principais. Interessa-me, sobretudo, a verosimilhança da ficção, ou seja, conferir-lhe muito rigor. É por isso que eu gosto tanto de literatura. O “se” nas nossas vidas é excludente, porque se fizer isto, não faço aquilo, mas, na literatura e no desenho, o “se” pode incluir e podem existir vários universos paralelos, assim como várias realidades e possibilidades. É uma forma de eu exercitar a minha imaginação e a capacidade de acreditar em múltiplos desfechos.

Fotografia ©Nuno Sampaio

A Ana Aragão não é uma arquiteta convencional. Como é que descreve a sua posição no ramo da arquitetura? 

Eu costumo dizer que não sou arquiteta nenhuma! (risos) Estudei arquitetura, mas é comum dizer que sou uma arquiteta a fingir. Claro que existem pontos em comum com o universo da arquitetura, no sentido de que parte sempre do desenho e, portanto, existe uma base comum. Contudo, o arquiteto desenha para construir e, para mim, o desenho é o fim em si mesmo. Eu não preciso de desenhar para depois construir. O desenho basta-me, até porque tenho o controlo total da situação, não tenho de delegar os desenhos para quem os vai utilizar depois. O desenho é meu do início ao fim e a sua maternidade será sempre minha. Os meus temas vêm da arquitetura porque, de facto, foi isso que eu estudei e é essa a minha reflexão. Interessa-me pensar a cidade, a arquitetura, e se há obra que importa pensar neste momento é, efetivamente, o presente e o futuro da cidade e isso é um tema que me interessa muito do ponto de vista do pensamento e da reflexão. Não me arrisco a fazer coisas reais, porque não acredito que seja essa a minha vocação.

O seu traço não representa a típica arquitetura, comercial e habitável. Há aqui uma fuga para uma vertente mais livre. É uma preferência?

Sim. A forma como a arquitetura nos chega e como apreendemos o espaço em que vivemos é muito visual, através de imagens, normalmente sempre muito limpinhas e tratadas. Eu acredito que a experiência do espaço é muito mais tátil, corporal e emocional do que propriamente visual. É nesse sentido que, de uma forma metafórica, as minhas construções são sempre um bocadinho imperfeitas, como todos nós também o somos, remetendo para essa questão de não podermos só ver a arquitetura, temos de a sentir. Tal como não podemos só ver uma pessoa para achar que a conhecemos, temos de a conhecer de facto. Tem muito a ver com a imperfeição a todos os níveis, porque de facto nós humanos somos imperfeitos e as nossas construções também o serão. Achar que, através de imagens virtuais, conseguimos tornar tudo perfeito é uma ilusão e acredito que possa criar desgostos à própria cidade.

“O desenho está muito ligado à imaginação. Imaginar é fechar os olhos para o que está para fora e olhar mais para dentro”

Homeland, 2014. Ilustração de Ana Aragão que representou Portugal na Bienal de Veneza de 2014

Podemos falar das suas anagrafias? Qual a história por detrás deste nome que define as suas obras?

O prefixo ana, não só pelo meu nome, reverte para inversão, contrário ou para uma certa falta de ordem convencional das coisas. E isso interessou-me, essa questão de as coisas não estarem nos lugares certos, através da grafia, que é uma espécie de escrita. O Valter Hugo Mãe, numa entrevista que me fez, disse precisamente isso, que havia uma espécie de sentido de grafia e de escrita nos desenhos e é isso mesmo, como se fosse uma espécie de caligrafia. Olhamos para os desenhos e vemos coisas, vemos um edifício que nos pode encantar ou desgostar, mas um desenho é um conjunto de traços, tal como a grafia com as letras, e isso é a base do desenho. É um ponto que é arrastado para vários sítios e eu gosto muito de pensar, quando começo um desenho, nessa base, de que uma linha é um ponto que foi arrastado, um desenho é um conjunto de traços e só depois chegamos à complexidade.

Os seus desenhos retratam cidades imaginárias e geografias subjetivas. O que é que representam as suas anagrafias urbanas?

Eu gosto de pensar a cidade um pouco como os situacionistas faziam, como um território subjetivo de afetos, emoções e sensações. Se pensarmos bem, a questão do mapa da cidade é muito interessante de analisar. Um mapa mental, que é sobretudo esse que me interessa, embora me baseie nos mapas reais, é uma construção pessoal e impartilhável e pelo facto de eu desenhar muitas vezes as coisas fora do sítio e distorcidas quer dizer precisamente isso, que nós aprendemos a cidade de uma forma diferente das outras pessoas. Isso é o objetivo! Quando fazemos perguntas às pessoas sobre a distância das coisas, a distância é psicológica, não é física nem real, depende da nossa geografia corporal, da rotina, do tempo que passamos num determinado sítio. Interessa-me explorar esse lado mais mental da cartografia, confrontando-a com a cartografia real do território.

Fotografia ©Nuno Sampaio

São obras que exigem um processo de descodificação demorado e intencional. Quem olha para as suas obras, consegue perceber a verdadeira narrativa da mesma, num primeiro olhar?

Peter Cook, que é um estudioso e fez parte dos Archigram, um grupo muito importante de arquitetos que desenhavam futuros tópicos, sobretudo na década de 60, dizia que há dois tipos de pessoas. Existem as que reconhecem um desenho e tiram tempo para olhar para o mesmo e as outras que não ligam nenhuma ao desenho. Há pessoas que olham e simplesmente assumem que ele está lá, que é uma coisa também bonita, mas eu não sou dessas pessoas, naturalmente, porque senão não investigava sobre isto. É curioso o tempo que eu passo a desenvolver uma obra e depois o tempo de observação. Quando eu faço obras muito detalhadas ou com muita densidade de informação, é quase um desafio a dizer: “Olhem duas vezes. Perceberam mesmo? Olhem de perto e depois de longe. Façam este exercício de elasticidade do olhar”. Há uma expressão que eu adoro do Eduardo Galeano que diz: “Um olho no microscópio e outro no telescópio”. É bonito testarmos esta elasticidade do olhar e o que eu faço nos meus desenhos é testar a minha própria elasticidade. Não tenho qualquer pretensão de querer testar a do observador, não é nesse sentido.

Alguns desenhos representam um “amontoar” de casinha empilhadas, quase num desafio à gravidade. O que simboliza esta construção e, simultaneamente, desconstrução da realidade?

Há várias maneiras de ler essa linguagem, que é de alguma forma espontânea. Estou neste momento a desenvolver uma espécie de desenho infinito. É um desenho com uma certa favelização infinita da cidade, que por um lado é uma crítica à cidade atual, uma cidade de contrastes, onde temos palácios, mas também temos a maior parte da população a viver em cabanas e habitações precárias. A precaridade das habitações é, para mim, das imagens mais fortes, desde as favelas às novas formas de habitação que são formadas a partir da crise. Eu trago esse meu espanto para os meus trabalhos. Por outro lado, não apenas crítico, mas também reflito de forma mais genérica: “Qual é a unidade dentro da universalidade?”. Se pensarmos, por exemplo, no texto Lugar, Lugares, de Herberto Hélder, somos só um ponto muito pequenino no meio de tantos outros. Se realmente tratarmos a repetição, que nunca é repetição, quem é que nós somos? Qual é a unidade ali? De alguma forma também existe essa pergunta, que tem um tom mais filosófico, sobre o que é que realmente interessa e qual é a relação entre o individual e o universal.

“O arquiteto desenha para construir e, para mim, o desenho é o fim em si mesmo. Eu não preciso de desenhar para depois construir. O desenho basta-me”

Via Utopia, 2016

Nas suas obras há uma fusão de ideologias. Na mesma obra vemos figuras do campo da ficção, que contrastam com a realidade. O que pretende transmitir com esta dualidade?

É engraçado. Tenho uma obra que é a Via Utupia, que é irónica e, de alguma forma, nada tem a ver com a utopia. Tem a ver com petrificação do presente, mas é a reinterpretação de uma imagem antiga de um dos meus heróis que é Piranesi. O que eu estou a trabalhar agora é precisamente isso, ir buscar imagens que fazem parte do nosso imaginário coletivo, que é uma coisa que me interessa bastante, e dar-lhes outro conteúdo, manter a forma e trocar o conteúdo. É por isso que aparecem pequenas ironias que podem passar despercebidas, porque estão disfarçadas numa forma semelhante à original, mas são claras provocações.

As suas anagrafias urbanas revelam um olhar crítico em relação à cartografia atual, que se vê das cidades e aos modos de habitar contemporâneos? Em específico, a cidade do Porto, qual é a sua análise?

Na cidade do Porto, há determinados fenómenos que não passam despercebidos para um habitante que é do Porto e que, de algum modo, vão causando uma certa estranheza para quem vai acompanhando e vive no centro, tal como eu. Como a gentrificação urbana ou a especulação imobiliária que, tal como acontece nas restantes cidades europeias, acaba por ser normal, mas que pode dificultar a vida às pessoas que sempre viveram e querem continuar a viver próximas dos centros. Há opiniões díspares. Eu acredito que a cidade deve ser, não só dos turistas, que são com certeza importantes, mas sobretudo de quem cuida dela. E são essas as pessoas que deveremos prezar, estimar e garantir condições para que consigam continuar a habitar um centro alargado.

E esse olhar crítico está muito presente nas suas ilustrações e anagrafias, quase como uma pergunta retórica?

De alguma forma eu acho que ainda vai estar mais. Eu tenho alguns trabalhos do Porto, mas são muito antigos e ainda de uma visão de composições mais estéticas. Se eu hoje tivesse de desenhar o Porto, se calhar entrariam todas essas questões que de ordem mais social, urbana ou arquitetónica teriam de entrar. É por isso que eu estou, de certo modo, a adiar o inevitável, que é tornar a representar a minha cidade de um ponto de vista mais crítico, de quem tem vindo a assistir a determinados processos que são extremamente positivos, por um lado, mas também extremamente negativos, por outro.

Fotografia ©Nuno Sampaio

O seu percurso conta com alguns momentos importantes, nomeadamente a representação da arquitetura portuguesa na Bienal de Veneza (2014 e 2016). O que é que representa a narrativa da ilustração Homeland, em 2014?

A iniciativa partiu de um convite por parte do curador de Arquitetura na Bienal de Veneza, o arquiteto Pedro Campos Costa, em 2014, e na altura definiram que a arquitetura iria ser representada através de um jornal. Eu fiz três ilustrações e houve uma que se destacou particularmente, porque de facto é a forma do território português rodeada por edifícios de Veneza que no fundo olham para o território de Portugal, que é preenchido por água. É de uma leitura mais direta: “Estamos aqui, estamos em Veneza, estamos a apresentarmo-nos e estão a olhar para nós, e agora?”.

É interessante, porque da mesma obra podemos retirar observações diferentes. Poderíamos dizer que o território está aprisionado e sem hipótese de fuga, por exemplo?

Essa é a parte bonita do meu trabalho, quando eu ouço as interpretações das outras pessoas (risos). Gosto muito de ouvir as leituras, porque eu tenho imensas, como demoro muito tempo a fazer os desenhos passa-me tudo pela cabeça. E hesito sempre entre explicar a obra ou falar de uma forma mais genérica, porque acho que é mais bonito falar de uma forma mais genérica acerca do que é isto de desenhar e deixar que as pessoas tenham a sua própria leitura dos desenhos. Porque me surpreende sempre ver o meu trabalho através dos olhos dos outros, embora eu não goste muito de olhar para o trabalho que já fiz, prefiro pensar no que ainda vou fazer.

Marcou recentemente presença no fórum do Mês da Arquitetura da Maia, onde a principal questão em debate era: “Qual o futuro das cidades no próximo século?” Chegou a alguma conclusão? Que desafios se aproximam?

Essa obra apresentada na Bienal da Maia não é só da minha autoria, mas também do Rui Manuel Vieira, e foi uma intervenção sobre fotografia. Não cheguei a nenhuma conclusão acerca do futuro das cidades, embora tenha proposto um texto explicativo que remete, mais uma vez, a uma ironia. O que eu imagino é que este chavão da mobilidade, que é tão usado no discurso político, se torna literal e, de repente, todas as estruturas da cidade, fotografadas pelo Rui, vão dar a outro ponto, em que tudo se une a tudo, de todos os pontos é possível chegar a todos os pontos. De alguma forma, vivemos num terminal infinito e permanente em que todos os pontos são de chegada e de partida. Depois lembrei-me de Milan Kundera e um livro muito bonito que ele tem, A Lentidão, no qual refere que a velocidade é proporcional ao esquecimento. Quanto mais depressa andamos, mais rapidamente nos esquecemos, e vice-versa, sendo que a lentidão está relacionada com a memória. É engraçado, porque achamos todos que acelerarmos a nossa forma de nos movermos nas cidades, chegamos mais rápido ao destino. Contudo, eu chego sempre à mesma conclusão e parece-me lógico. Italo Calvino tem uma citação na qual distingue a linha reta e a linha curva e diz-nos que a reta é a forma mais rápida de chegar ao destino, evidentemente, mas a linha curva é aquela que nos permite mais facilmente escapar da morte. Portanto, embora eu proponha uma reflexão sobre a mobilidade e a questão da rapidez de movimentos, isso é irónico, porque o que eu proponho é, no fundo, “Vamos encontrar alguma calma e saber permanecer nos espaços que habitamos. Vamos demorarmo-nos mais, tanto a habitar como a olhar”.

“Eu gosto de pensar na cidade um pouco como os situacionistas faziam, como um território subjetivo de afetos, emoções e sensações”

Que projetos tem em mão para este ano?

Em relação a novos desafios, tenho duas exposições, uma em Lisboa no final do ano, na Sociedade Nacional de Belas Artes, e depois uma no início do ano, no Porto. E talvez outros desafios internacionais que não estão ainda confirmados.

Numa entrevista que deu, mencionou a seguinte frase: “Nada do que fiz anteriormente me garante que vá fazer uma coisa boa a seguir”. É este processo de constante recomeço que a impulsiona?

Sim! A parte mais dura – mas também a força que me conduz ao trabalho – é o facto de lidar permanentemente com a incerteza. Eu costumo dizer que “estou a atravessar o deserto” quando parece que não consigo encontrar soluções. Tenho intuições e tenho de as tentar ler e entender, mas só consigo encontrar a solução através do processo de desenhar. O meu trabalho é muito mental, não é um desenho espontâneo, mas que obedece a uma certa disciplina, a um rigor, a uma clausura, a um silêncio. Esse lidar com a incerteza é constante. Em nenhum momento do desenho eu sei se o desfecho vai ser feliz, conseguido ou, pelo menos, que seja uma peça que se possa mostrar. E quando acabo um trabalho, lá está, nada me garante que consiga fazer o próximo. Lido constantemente com a incerteza. É desafiante!

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