Revista Rua

Ana Bustorff: “Para mim, o palco sempre foi um lugar sagrado”

Prestes a estrear-se com a peça Gostava de estar viva para vê-los sofrer, a 28 de outubro, no Theatro Circo, numa produção da Companhia de Teatro de Braga com encenação de Ignacio García, Ana Bustorff está na RUA!
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira14 Outubro, 2020
Ana Bustorff: “Para mim, o palco sempre foi um lugar sagrado”
Prestes a estrear-se com a peça Gostava de estar viva para vê-los sofrer, a 28 de outubro, no Theatro Circo, numa produção da Companhia de Teatro de Braga com encenação de Ignacio García, Ana Bustorff está na RUA!

Ela é uma das mais reconhecidas atrizes portuguesas, com um currículo de sucesso em teatro, televisão e cinema. Ana Bustorff é uma mulher de sonhos, de partilha, de contacto. Numa fase em que as suas prioridades são mais terrenas e menos esotéricas, como nos diz, Ana Bustorff conversou com a RUA sobre um percurso que a deixa feliz, mas cujo futuro lhe traz alguma ansiedade. Prestes a estrear-se com a peça Gostava de estar viva para vê-los sofrer, a 28 de outubro, no Theatro Circo, numa produção da Companhia de Teatro de Braga com encenação de Ignacio García, Ana Bustorff está na RUA!

Fotografia ©Nuno Sampaio

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer um bocadinho dos sonhos da Ana Bustorff. É verdade que, antes de ser atriz, equacionou ser bióloga? Porquê?

É verdade! (risos) E confesso que, com a dificuldade da vida nesta fase, sobretudo para pessoas que, como eu, trabalham a recibos verdes – ou seja, não faço parte de nenhuma companhia, vou trabalhando em cinema, teatro, televisão, mas sou trabalhadora independente – a ideia de ser outra coisa parece bem mais ambiciosa. Viver das artes tornou-se bem mais complicado. As linguagens estão a mudar e os tempos também. O que eu sinto é que a biologia, como um exemplo de contacto com a natureza, com os animais, com as pessoas, tornou-se, para mim, como uma opção que teria sido também muito boa! Poderia estar agora isolada numa montanha! (risos) A biologia era um grande sonho meu, um sonho que continua dentro de mim porque eu acredito que a biologia é uma grande ajuda para mim enquanto atriz. Eu acredito bastante na procura dos sentimentos, no que é absolutamente visceral em nós e, nos meus personagens, há sempre um animal presente que representa a personagem que eu estou a fazer. Ora porque tem a ver com os movimentos, ora porque outras coisas me inspiram. Mas posso dizer também que, pelo caminho, ficou também outro sonho, outra coisa que eu gostava muito de ter sido: bailarina! Eu sou do Porto e, quando era mais nova, fazia ballet clássico. O meu professor, um reconhecido profissional russo, queria que eu e mais algumas alunas seguissem a carreira de bailarinas. Mas isso ficou não se concretizou. Digamos que esses sonhos são bases que acrescentaram muito à minha carreira de atriz. No final de contas, acabei por fazer um curso de iniciação à prática teatral e depois outros cursos que me encaminharam para este mundo da representação.

“Para mim, o palco sempre foi um lugar sagrado. É o meu refúgio, um espaço de evasão.”

Mas houve algum clique que a conduzisse nessa direção da representação?

Sim, houve. Houve um clique muito forte numa altura em que eu tinha acabado de ser mãe, portanto, tinha 21 anos (quase a fazer 22). Trabalhei, na altura, com um encenador alemão, com quem eu fiz Leonce e Lena, de Georg Büchner, e foi um trabalho que, nesse tempo, não era muito usual em Portugal. Um processo muito longo, muito feito a partir de nós próprios. Eu senti que aí tinha conseguido fazer uma coisa que eu acho muito importante na atuação, com os atores, que é uma espécie de transcendência. Ter acesso a lugares mais profundos. Aprofundar todos os sentimentos e não ter medo disso, dessa exposição. E procura-la sempre até à exaustão. A partir desse momento sempre me deu imenso prazer o palco. Para mim, o palco sempre foi um lugar sagrado. É o meu refúgio, um espaço de evasão.

Esta profissão tem algo de absolutamente maravilhoso: conseguimos, através de nós mesmos e da nossa experiência, sermos outras pessoas, outros personagens. Esses personagens ensinam-nos a viver, mas nós também lhes damos vida. É uma espécie de mão dada com os personagens. Isso faz-nos crescer muito, ir a sítios emocionais, sentimentais muito concretos e muito fortes. A partir do momento em que percebi isso, pensei que aquilo era a minha vida: as personagens, os espetáculos, as pessoas com quem estou, uma espécie de comunidade de busca, de prazer. Eu quero isto! Tornou-se muito claro para mim esse desejo, independentemente de eu saber se era capaz ou não de concretizar esse sonho.

Fotografia ©Nuno Sampaio

E tem sido um percurso repleto de reconhecimento. A Ana é considerada uma das mais talentosas atrizes do nosso país. Cinema, teatro, novelas… A Ana já participou em inúmeros projetos. É para si um orgulho ser intitulada como um sinónimo de talento? Um ícone?

É uma responsabilidade enorme! Se as pessoas pensam isso de mim, fico contentíssima|! (risos) Penso que ser um ícone é meio estranho. Eu acho que o que eu posso acrescentar às pessoas, nesta passagem rápida de vida e de trabalho, é servir de exemplo. Sinto que, muitas vezes, com gerações muito mais novas, sirvo de exemplo, mas também aprendo muito. Talvez por isso eu tenha percebido que o meu papel fosse de responsabilidade. E, para tal, tem de haver despojamento total. Nunca pensar que se estamos a contracenar com uma criança ou com alguém mais novo que nós, que não tem experiência, que estamos bem mais avançados ou melhor preparados… porque não estamos, de facto. Isto é um trabalho de partilha e eu só cresço nessa partilha se tiver do outro lado coisas que me dão e que eu dou também. Eu nunca me senti ícone de nada!

A Ana, durante este percurso, teve oportunidade de se cruzar com muitos talentos de várias gerações. Num país em que a cultura se vê menosprezada, principalmente num contexto tão complicado como este de pandemia, muitos jovens que anteriormente sonhavam com um percurso artístico assumem que esta não será uma profissão segura. Concorda?

Em primeiro lugar, a verdade é que a nossa profissão não é considerada uma arte e, mesmo em termos económicos, se não fizermos outras coisas paralelamente ao teatro ou ao cinema, é muito difícil viver. Para muitas pessoas, mesmo para mim, esta ideia de que existe um vírus, uma espécie de inimigo público, perturba imenso. Eu não sei viver sem afeto, sem relações. A representação em si é partilha e é encontro num espaço físico. Agora tudo está diferente: ensaiamos de máscaras, não nos podemos tocar… isso vai contra tudo o que para mim é a arte, a criação. Há um distanciamento e um afastamento. Começaram a procurar-se outras linguagens, com espetáculos online, que, muito sinceramente, não me agradam. Claro que tenho de estar disponível para colaborar, mas não me agradam. É como estar a falar com alguém na rua e não lhe ver todo o rosto…

Fotografia ©Nuno Sampaio

Mas que conselhos deixaria aos nossos jovens que hoje tentam ingressar no mundo do teatro e são surpreendidos por plateias semivazias?

Às pessoas que estão a começar, sinceramente, não sei muito bem o que posso dizer. Acho que já não é uma questão apenas sobre este monstrozinho chamado Covid. É necessário as pessoas pensarem, olharem-se mais, partilharem – mesmo na distância, porque há outro monstrozinho chamado redes sociais e internet que fez as pessoas perderem (e terem medo até) o contacto. Terem medo daquilo que é claramente real. Acho que a geração mais nova precisa também de ter atenção a isso. De resto, ninguém sabe o futuro. Se as redes sociais já nos distanciavam, isto ainda vai piorar. O facto de o rosto estar meio tapado também vai contra à ideia de partilha de emoção que é a essência do teatro. Portanto, além de se precaverem e de pensarem nas coisas numa forma menos virtual, sugiro aos jovens que o cuidado seja também para evitar um distanciamento maior do que aquele que já existia da realidade.

Ao longo dos anos, a Ana vestiu imensas personagens. Há alguns projetos que ocupam um lugar especial na sua memória?

Normalmente, de forma geral, eu tento que os projetos em que me envolvo sejam qualquer coisa de novo e único. Ser algo espetacular naquele momento. Há muitos espetáculos que eu fiz que me ajudaram e me catapultaram para outras realidades. À medida que fui trabalhando consegui acrescentar vários conhecimentos… além da idade! (risos) Recordo o espetáculo O Arquicoiso, de Robert Pinget, em 1989, com encenação de Rui Madeira. Foi um espetáculo que me marcou imenso, em que eu contracenei com um ator que infelizmente já partir, o José Ananias. Há outro espetáculo em que participei logo após a minha ida para Lisboa, que marcou o início da minha vida artística na capital, chamado Jogos de Noite, de Stig Dagerman, que fiz na Casa Conveniente com encenação da Mónica Calle (1993). Depois, falaria também do projeto com o John Romão, Pocilga (2014). O monólogo Concerto “à la Carte”, de Franz Xaver Kroetz, é também um espetáculo que recordo e que quero, inclusive, continuar a fazer enquanto tiver saúde. Claro que, neste momento, estou absolutamente apaixonada pelo projeto Gostava de estar viva para vê-los sofrer, com encenação do Ignacio García, com quem eu já tinha trabalhado…

“Talvez este monólogo nos ajude a perceber que os tempos sempre foram difíceis, mas que neste momento estão muito, muito confusos. Que não somos todos iguais, de todo. Que há pessoas com privilégios que outras pessoas nunca terão na vida. Que muitas pessoas que estavam mal, estão pior neste momento.”

Podemos falar desse projeto que tem estreia marcada para dia 28 de outubro, no Theatro Circo?

Está a ser um enorme desafio! O Ignacio é uma pessoa que me dá força e energia, fazendo-me acreditar que eu ainda sou capaz de fazer coisas. Porque a minha insegurança é muito grande! Talvez com a idade, vão-se criando alguns receios. É verdade! A segurança não existe. Mas, desde que não se transforme em pânico, acho que não ter as coisas como certas é um bom ponto de partida. Nunca estarmos contentes com a busca que fazemos. Não no sentido de insatisfação, mas sim num sentido de procura artística que não tem fim. A arte faz-nos viver, faz-nos repensar sobre a vida. A mim, a arte faz-me sentir viva e a achar que faz sentido continuar.

Que convite a Ana deixaria aos nossos leitores para assistirem a esta peça?

No fundo, vão ver uma Emma absolutamente solitária, destroçada pelos dias de hoje graças a vários tipos de problemas, sejam políticos, raciais, emocionais ou artísticos. É um espetáculo com grande confronto em relação a essas questões e que eu acho que serve para qualquer geração. Acho que muitas pessoas se vão sentir identificadas, mesmo nos tempos em que tudo está a acontecer: problemas raciais em todo o mundo, governantes absolutamente destrutivos e obsoletos. Talvez este monólogo nos ajude a perceber que os tempos sempre foram difíceis, mas que neste momento estão muito, muito confusos. Que não somos todos iguais, de todo. Que há pessoas com privilégios que outras pessoas nunca terão na vida. Que muitas pessoas que estavam mal, estão pior neste momento. Eu acho que, neste sentido, este espetáculo nos dá um abanão. Nos deixa a pensar no que é isto, na necessidade de pensarmos uns nos outros, de partilha e de busca por uma coisa que é fundamental sempre, que é o amor. O amor que é redentor e que cura tudo. O amor que nos ajuda a continuar a viver esta vida que é extremamente difícil… 

E estar no Theatro Circo com uma peça com uma mensagem destas é ainda mais especial…

É um privilégio! Este teatro tem uma história incrível. Cada vez que passo a porta de entrada para ir ensaiar é um desafio muito grande. É entrar num templo. É quase um universo paralelo.

Antes de terminarmos, gostávamos de trazer à conversa um projeto do qual fez parte: o filme Surdina, de Rodrigo Areias. Como foi trabalhar neste filme português?

Foi incrível trabalhar com o Rodrigo e com toda a equipa. Acho a história uma delícia, de um bucolismo muito bonito. Para além de o Rodrigo saber muito bem o que quer como realizador, a forma como ele filmou, a forma como os personagens foram trabalhados, tornou o projeto lindíssimo. Tive um especial prazer em fazer a minha personagem porque era uma mulher tão silenciosa, mas tão forte ao mesmo tempo, com uma presença tão transparente, que acaba por contaminar aquele homem e voltar a dar-lhe esperança de um amor. O nome “Surdina acho que diz muito. São gritos que muitas vezes queremos dar e saem em surdina. E filmar em Guimarães foi maravilhoso!

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Os meus sonhos são mais uma casinha à beira-mar, com uma hortinha, e cada vez mais conhecer as pessoas e estar com elas. Partilhar. Uma coisa mais simples, mais terrena, menos esotérica.”

A Ana teve também oportunidade de participar no elenco de um filme que no ano passado foi um sucesso de bilheteira em Portugal: o filme A Herdade, de Tiago Guedes. Na sua opinião, estamos num ponto de viragem em relação ao modo como os portugueses olham para o cinema português ou ainda nos falta um caminho longo?

Eu acho que ainda falta um grande caminho para que o trabalho dos realizadores seja valorizado. Mas, sobretudo quando se tem um produtor absolutamente extraordinário como o Paulo Branco, ficamos mais sossegados e pensamos que o cinema, a forma como se faz em Portugal, é extraordinário. Temos atores absolutamente incríveis, diretores de fotografia e equipas técnicas cada vez mais preparadas para todo o tipo de linguagens que possam surgir. Acho que A Herdade mereceu bem os prémios que lhe foram atribuídos!

Começamos esta conversa por falar de sonhos e era exatamente desse forma que gostaríamos de terminar. Que sonhos ainda faltam à Ana realizar?

Sonhar é sempre bom, não é? Mas estou tão preocupada com a nova geração – eu tenho uma neta – e o que é que vem aí que o meu sonho é que as coisas realmente mudem a todos os níveis (pessoais e artísticos). Acho que os meus sonhos passam mais por aí do que propriamente pensar que, a seguir, gostaria de fazer um espetáculo em que interpreto a Cleópatra. Os meus sonhos são mais uma casinha à beira-mar, com uma hortinha, e cada vez mais conhecer as pessoas e estar com elas. Partilhar. Uma coisa mais simples, mais terrena, menos esotérica.

Partilhar Artigo: