Revista Rua

2021-08-30T10:25:36+01:00 Cultura, Em Destaque, Outras Artes

Ana Fatia e a arte de expressar o corpo numa obra como um reflexo de identidade

Artista, criadora e designer, Ana Fatia transforma materiais em formas orgânicas, através de técnicas inovadoras e de um profundo respeito pela sustentabilidade, a economia circular e a indústria portuguesa.
Fotografias ©D.R.
Maria Inês Neto30 Agosto, 2021
Ana Fatia e a arte de expressar o corpo numa obra como um reflexo de identidade
Artista, criadora e designer, Ana Fatia transforma materiais em formas orgânicas, através de técnicas inovadoras e de um profundo respeito pela sustentabilidade, a economia circular e a indústria portuguesa.

Ana Fatia é uma sonhadora imparável e uma artista em constante inquietação. Curiosa por natureza, procura transformar matérias em formas orgânicas, cruzando a inovação com a mestria da indústria portuguesa, assumindo a sustentabilidade e a economia circular como pilares essenciais na produção.

Cada obra é um espelho da sua identidade, visão criativa e desejos, reconhecendo-a como uma das designers portuguesas mais promissoras da atualidade e com mais projetos vendidos internacionalmente. Das várias distinções que já recebeu à inauguração de um estúdio em Shangai, conta-se uma história de dedicação, resiliência e paixão pela arte do desenho.

Em primeiro lugar, gostávamos de conhecer melhor a Ana. Como é que o design surge na sua vida? A Ana sempre foi uma criativa sem limites?

Cresci com a minha mãe a dizer-me que os quadros que tínhamos – e temos ainda hoje – nas paredes eram desenhos e pinturas do meu avô. Ficava horas a olhar para as suas pinturas que pareciam autênticas fotografias hiper-realistas. Quando era mais nova, criava cidades e personagens, defendia circuitos…valia tudo no meu imaginário. Recordo-me de negociar com a minha avó o período de dormir a sesta, que odiava profundamente, então convencia-a a fazer vestidos para as bonecas. Idealizávamos os modelos com restos de tecidos dos trabalhos de costuras que ela fazia.

Desde muito cedo que tenho uma conexão com a imaginação e a criatividade e já com alguma consciência adulta a única disciplina que me fazia ter foco de concentração era Educação Visual. Era fácil perceber e interpretar, enquanto identificação visual, tridimensional e bidimensional, tudo o que era pedido. Contudo, a minha mãe foi a grande responsável por ter estudado numa das melhores escolas de formação artísticas, a António Arroio, em Lisboa. À minha mãe, estou eternamente grata. Disse-me: “Queres estudar artes, então vais para a melhor escola de formação artística, onde uma base sólida sobre disciplina te fará entender o que procuras emocionalmente”.

Se o infinito ou a linha do horizonte, que é infinita, é considerado sem limites, então sim. Mas sempre com muita disciplina, conhecimento e experimentação. Não há evolução sem risco e base sólida primária. A coragem e a curiosidade, acompanhadas de idealismo e pragmatismo, movem a procura constante para abraçar novos desafios, sempre.

Não há evolução sem risco.

De que forma descreve a sua visão criativa ou que conceitos lhe interessam mais explorar? Que tipo de peças desenvolve e o que é que as mesmas representam?

Desenvolvo conceitos que exploram a transformação de matérias em formas orgânicas. Nas peças que executo, a matéria é explorada ao limite da sua plasticidade para potencializar a criação da forma, função e a estética através da organicidade. A forma muitas vezes é sobreposta à função devido à sua experimentação. O resultado pode objetivar uma cadeira, uma lâmpada, uma marca ou um espetáculo de video mapping…. Construímos uma linguagem com um vocabulário, através das novas tecnologias e métodos produtivos, criando peças únicas que desobedecem a uma ordem intelectual, procurando a perfeição, mas ao mesmo tempo, a desordem e as imperfeições. É precisamente nesse momento que conseguimos alcançar a harmonia da criação. Adoro trabalhar em tudo aquilo que é inatingível, experimental e orgânico. Esta minha paixão levou-me a procurar processos de alta tecnologia e alta precisão. A tecnologia avança porque existem pessoas a criar cientificamente para dar origem a novos materiais e é preciso saber o que fazer com eles. Para tal, existem pessoas como os designers, que dão uso a tudo isto.

Ser reconhecida como uma das 150 designers mais promissoras e talentosas do mundo é uma responsabilidade acrescida? De que forma se revê neste reconhecimento e o que é que o mesmo significa para a Ana?

Certíssimo. Não podia estar mais de acordo, pelo menos para mim. Mas a maior responsabilidade, no meu ponto de vista, não é no momento em que somos reconhecidos, mas sim após isso e como é que damos continuidade a esse reconhecimento, o que fazemos com ele, para onde o levamos, como o mantemos…para não ser uma questão apenas efémera, mas contínua ao longo da nossa carreira. Este reconhecimento é a concretização de um sonho: querer estar ao nível dos grandes designers da história e marcar o design português e internacional. Recordo-me de viver em Itália e ter o privilégio de poder acompanhar de perto como tudo funcionava. Milão é o selo de abertura de portas para o resto do mundo nesta área. Trouxe um eterno conselho por parte da Diretora da Exposição Salone Satellite, de jovens criadores: “Ragazza, não te vendas por pouco, o teu trabalho é muito especial e único”. É um reconhecimento de anos de dedicação, experiência, conhecimento, investigação, experimentação, entre muitas falhas e soluções, para poder mostrar ao mundo uma nova forma de ver o ato de criação e a minha criatividade.

Algumas das suas peças alcançaram um sucesso surpreendente. Mother Mine, por exemplo, foi uma peça que demorou cerca de três minutos para ser adquirida na Design Shanghai. Pode apresentar-nos esta peça?

As peças da coleção Mother Mine & All of Us são inspiradas na anatomia humana e representam a reflexão sobre a minha própria identidade, a partir da minha estrutura como mulher. Representam o lugar onde todos os seres humanos são gerados, formados e transformados. A inspiração surgiu-me da ideia de usar um simples grafiti, um hieróglifo leve e arabesco, mas significante e indesmentível. Mother Mine deriva da vontade de valorização da mensagem a transmitir, prestigiando a raiz da sua temática profunda, o corpo feminino. Tudo isto, com uma dinâmica intelectual contemporânea, intemporal e sustentável. Representa a força e a fragilidade de vários pensamentos de tridimensionalidade de uma imaginação cheia de impulsos, onde encontra nos materiais a capacidade transformativa de gerar novas peças. “Das coisas nascem coisas” já dizia Bruno Munari. É neste ponto que o meu subconsciente, sempre muito difícil de controlar, inquieto e muito imaginativo e criativo, decide representar numa peça a identidade e cultura adquirida ao longo de anos. Uma simbiose entre a culta da Mother Mine e a minha avó – que faleceu com 100 anos e que sempre foi o pilar de uma estrutura clássica e tradicional e a responsável pela inclusão de novos caminhos. De uma simples peça, nasce um conceito que passa rapidamente a uma coleção e com um ADN. Em 2012 acontece a entrada direta para Milão e dois anos depois é vendida numa das maiores leiloeiras de arte, na China, a Poly Action.

A Ana tem um estúdio em Shangai. Que importância teve este passo e como é que surgiu a oportunidade?

Foi bastante inesperado, mas sabia que mais cedo ou mais tarde teria de dar este passo, face às exigências e oportunidades do mercado asiático. Até que recebi um convite inesperado por parte da designer de interiores Yanfei, em 2018, para criarmos uma coleção de peças contemporâneas assinadas pela marca AnaFatia. Ao vencer o prémio na Design Shanghai 2019, na área dos Collectables, rapidamente evoluímos para uma candidatura a um financiamento artístico por parte do governo chinês. Juntas conseguimos fazer nascer o 8877 Interiores Studio. Foi tudo muito rápido e oportuno, permitindo ter alguém que pudesse assegurar a minha produtividade e continuidade no mercado chinês quando estou em Portugal. Apesar de já trabalhar com o mercado chinês há mais de sete anos, é um mercado atraente para pessoas que gostam de desafios, mas se não tivermos suporte pode ser muito difícil, para não falar que a evolução é muito rápida. É preciso estar presente e esta foi a melhor oportunidade para não perder cada segundo.

O que é que mais a inspira e surpreende na China? Considera que o mercado possibilita mais oportunidades para criativos emergentes?

A cultura e as pessoas. É milenar e histórica, de conhecimento, de sabedoria, de união, de respeito, de dedicação e de superação. É um mundo dentro do nosso mundo. Confesso que me fascina e desafia imenso o facto de estar num país em que não falo a mesma língua, estou sozinha a criar negócios e a única forma de comunicar é desenhar. (risos) O meu respeito pelo povo, em especial pelas mulheres, é enorme. Sou muitas vezes considerada como uma designer que defende o feminismo, devido à abertura emocional de representar e expressar o corpo numa obra como um reflexo de identidade.

Se as suas obras falassem, o que é que diriam? O que é que as mesmas transmitem? São um espelho da identidade da Ana?

Histórias de vida, imaginadas através de um universo transcendente, onde o impossível não é uma palavra no vocabulário e o surrealismo de paranormal não existe. Todas as formas são formas. Os objetos compõem a nossa história no tempo. São o reflexo da minha própria identidade. Criar objetos com caráter timeless, que vivem, registam e recordam os segredos de todos nós enquanto humanos, que evoquem sentimentos, angústias, tristezas, sorrisos e, acima de tudo, que as peças tenham a capacidade de viver, dar vida e realçar coisas do nosso imaginário, profundo e íntimo. No fundo, pretendo interrogar através de formas surrealistas. A identidade é algo muito importante, permite-nos evoluir e resistir a qualquer transformação do setor no mercado.

Sou muitas vezes considerada como uma designer que defende o feminismo, devido à abertura emocional de representar e expressar o corpo numa obra como um reflexo de identidade.

Transformar materiais em formas orgânicas, recorrendo à inovação, é uma das premissas do seu trabalho. Que materiais são estes que privilegia e que ligação tem à indústria portuguesa?

Na escolha de qualquer material está sempre a capacidade técnica de cumprir a sua função: fazer nascer a forma e transformar o invisível no visível. Em paralelo, com o mesmo grau de importância, a sustentabilidade ambiental. Usar materiais naturais, reciclados, biodegradáveis e ecológicos é fundamental e obrigatório para mim, enquanto criadora.  Para além disso, o ciclo não fica completo se não relacionar os desperdícios da indústria, mediante cada modelo de negócio, num mapa de economia circular no uso de matéria-prima para dar vida a novas criações, sempre em parceria com a indústria portuguesa. Não tenho um material de eleição, mas nos últimos anos tenho alternado as minhas criações entre a madeira nacional portuguesa, onde existe sempre um reaproveitamento da mesma, e objetos com o fim de vida, para podermos criar outros. É o caso da minha última peça, Mirror Mine: um espelho feito de Madeira Portuguesa – Castanheiro com mais de 100 anos. Corian é outro dos materiais ecológicos que utilizo e em parceria com a Tampor reaproveitamos os desperdícios da fábrica para fazer nascer as minhas obras. A tecnologia é essencial neste processo. As formas orgânicas só são possíveis de serem geradas fisicamente através de uma combinação de arte e de técnica.

Quem são as suas referências?

Salvador Dali, Antoni Gaudí, Zaha Hadid, Matisse, Bruno Munari, Goya, Caravaggio, Achile Castiglioni, Santiago Calatrava… Para além destes grandes nomes da área artística, acredito que a inspiração está em todo o lado e que todas as pessoas são inspiradoras. Aprender com elas diariamente é perceber o presente e como podemos criar o futuro.

Considera que o facto de transpor a sua essência para a criação de cada obra torna a sua abordagem artística tão particular? Para a Ana, quais são os pilares essenciais no seu trabalho?

Claramente. É uma interpretação muito especial de como vejo o mundo imaginário, entre a forma, a função e a estética, desconstruindo a própria criação de um reconhecimento de qualquer tipo de memória coletiva que me permite criar. O meu trabalho assenta em valores que não são negociáveis: empatia, humanidade, liberdade, criatividade, inovação, transformação, comunicação, experimentação, expressão, razão, investigação, sustentabilidade e qualidade. Só assim consigo transformar materiais em formas orgânicas e aplicar o processo em diferentes produtos, que tanto podem ser únicos, por encomenda, colecionáveis, singulares, de edição limitada e produção em série para um mercado de art lovers ou de Collectables.

Procuro desafiar a minha imaginação, a indústria e o mercado de empreendedorismo, provando que escalar um negócio é ir além-fronteiras.

Depois de vencer vários prémios e distinções importantes, que objetivos tem em mente para os próximos tempos ou o que é que gostaria de ainda explorar através da sua arte?

Desenhar para várias marcas com outros desafios opostos, como o IKEA Portugal, ter a minha peça INCOMODA no Museu do Design e da Moda em Portugal, o MUDE. A nível internacional, procuro abrir portas a novas parcerias com o Japão. Penso na concretização de uma exposição a solo, que possa combinar o virtual com o físico, através de uma simbiose entre arte, ciência e tecnologia com técnicas imersivas, como o video mapping e VR, proporcionando ao espectador uma experiência cultural transformativa ao nível do pensamento imaginário.  Quero criar peças que desafiem as novas tecnologias através de novos materiais. Eu estou sempre a voar. (risos)

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