Revista Rua

2019-10-15T14:56:00+00:00 Cultura, Outras Artes, Personalidades

Ana Garcia Martins, a Pipoca Mais Doce em entrevista

“Tornou-se complicado fazer humor nas redes sociais sem que as pessoas se sintam permanentemente ofendidas ou indignadas”
Fotografia ©D.R.
Redação
Redação8 Outubro, 2019
Ana Garcia Martins, a Pipoca Mais Doce em entrevista
“Tornou-se complicado fazer humor nas redes sociais sem que as pessoas se sintam permanentemente ofendidas ou indignadas”

É reconhecida por ser a Pipoca Mais Doce e o sarcasmo sempre esteve presente na sua escrita. Há uns tempos, estreou-se num roast e viu o humor abrir-lhe uma porta: o stand-up comedy. A blogger chega agora aos palcos de todo o país com o espetáculo Agora deu-me para isto e nós estivemos à conversa com ela. No dia 11 de outubro, por exemplo, estará em Braga, no Espaço Vita.

Fotografia ©D.R.

“Tornou-se complicado fazer humor nas redes sociais sem que as pessoas se sintam permanentemente ofendidas ou indignadas”

Criou um blog com a intenção de falar abertamente sobre tudo. Do digital saltou para os palcos com espetáculos de stand-up comedy. Agora deu-lhe para isto?
Deu-me para isto precisamente por essa necessidade que sempre tive de poder falar abertamente sobre tudo e sentir que, nas plataformas digitais, é cada vez mais difícil fazê-lo. Tornou-se complicado fazer humor nas redes sociais sem que as pessoas se sintam permanentemente ofendidas ou indignadas, por isso é bom poder passar para um palco e recuperar essa liberdade criativa.

O que motivou e despertou este interesse pelo humor ao vivo?

Sempre gostei e sempre consumi stand-up comedy, mas nunca me passou pela cabeça subir a um palco. Depois do primeiro roast em que participei, o da SIC Radical, desafiaram-me a experimentar e acabei por gostar.

O que há no stand-up comedy que lhe dá mais gozo explorar? O que é que mais a inspira para preparar os seus textos?

Acho que tudo pode ser um bom tema para explorar em stand-up, mas acho especial graça àqueles pequenos detalhes que fazem parte do nosso dia a dia, mas aos quais nem sempre prestamos atenção. Ou, pelo menos, não lhes reconhecemos potencial humorístico. Por exemplo, aquela coisa que acontece a toda a gente, de estarmos à espera que alguém tire o carro de um lugar de estacionamento para nós pormos lá o nosso e a pessoa demorar 70 horas. Gosto dessas pequenas particularidades, precisamente por serem banais e desvalorizadas, mas depois também acho piada a temas mais macro, como a maternidade ou as relações.

Sendo uma das primeiras mulheres a fazer stand-up comedy em Portugal, sente que o público português já está mais predisposto a consumir este tipo de produto ou sente algum tipo de estigma pela sua profissão?

Acho que o conceito de stand-up comedy já está completamente instalado. Em quase todas as cidades há pelos menos um bar onde se pode ver humor. E acho que é um formato que as pessoas gostam de ver. Pelo menos, pela parte que me toca, não me posso queixar, tenho tido quase todos os espetáculos esgotados.


O que procura proporcionar às pessoas com este espetáculo? Como é que está a ser o feedback por parte dos espetadores?

Acho que quero o que qualquer humorista quer: que as pessoas se divirtam, que entrem numa sala e, pelo menos, durante uma hora e meia deixem todas as preocupações lá fora. O feedback tem sido muito positivo, sinto que muitas pessoas se surpreenderam. Pelo menos muitas reações têm sido nesse sentido, sobretudo de homens, que achavam que eu me limitava a falar sobre sapatos e vernizes.

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“O feedback tem sido muito positivo, sinto que muitas pessoas se surpreenderam. Pelo menos muitas reações têm sido nesse sentido, sobretudo de homens, que achavam que eu me limitava a falar sobre sapatos e vernizes”

Qual é a pior coisa que pode acontecer em cima de um palco? Já teve alguma experiência menos boa?

Há várias coisas más. As piores talvez sejam não nos lembramos do texto ou as pessoas não reagirem a nada do que dizemos e só haver silêncio na sala. Já me aconteceu esquecer-me de uma coisa ou outra, mas há sempre maneira de contornar isso. E também já aconteceu não se rirem assim tanto quanto isso com uma ou outra piada que eu acreditava serem boas.

Voltou-se para o stand-up comedy numa procura (outra vez) da liberdade de expressar as suas ideias? O que é sentia que estava a faltar?

Sim, foi como eu disse no início. Atualmente, é muito difícil manifestarmo-nos nas redes sociais, sobre o que quer que seja, porque as pessoas andam sempre à procura de sangue e de motivos para se chatearam. Isso é muito cansativo para quem, como eu, vive da produção de conteúdos criativos que têm o humor por base. No stand-up não há filtros, não há limitações. Quem assiste a um espetáculo sabe ao que vai, sabe que é só humor, que são só piadas, e isso faz com que haja muito mais liberdade.

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