Revista Rua

2019-07-22T14:10:23+00:00 Personalidades

Ana Moura, o novo horizonte do Fado

Ana Moura encontra-se em estúdio para dar início às gravações daquele que será o sucessor de Moura, o disco mais vendido da década em Portugal.
Fotografia ©D.R.
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira25 Junho, 2019
Ana Moura, o novo horizonte do Fado
Ana Moura encontra-se em estúdio para dar início às gravações daquele que será o sucessor de Moura, o disco mais vendido da década em Portugal.

É com a classe de um vestido de gala, mas com os pés bem assentes numas sapatilhas modernas que apresentamos Ana Moura, a fadista portuguesa que nos mostra, em cada canção, que o poder do Fado pode inspirar gerações e rejuvenescer tradições. Com toda a elegância de mulher que sabe o que quer e com todo o futuro na voz, esta é Ana Moura aos nossos olhos.

Ana Moura fotografada no Theatro Circo, em Braga. Fotografia ©Rui Bandeira

Há vozes que nos marcam, arrastando-se pelo tempo como uma raiz que não esmorece. São vozes que nos cantam a vida, as tradições e os lamentos, vozes que trazem o sentimento de um povo em cada melodia, seja qual for o ritmo. Portugal é terra de Fado, de saudade que atormenta em cada choro de guitarra. Mas há vozes que perpetuam momentos e, mesmo depois do adeus, alcançam o poder de inspirar gerações, trazendo à vida novos horizontes. Falamos de vozes que o tempo não perde, como Zeca Afonso, Carlos Paião e António Variações. Ícones que ultrapassam a brevidade da existência e, em 2019, ainda deixam resquícios de um império criativo – como Amália Rodrigues. Talvez Amália seja o exemplo que melhor ilustre o talento que aqui queremos exaltar. O repertório de Amália, a sua unicidade vocal e a sua presença que enchia de luz as casas de Fado lisboeta são, sem sombra de dúvidas, a maior dádiva para a história do Fado, inspirando ainda hoje artistas que sobem a palco com influências notáveis da música de Amália. No meio dessas influências, há uma voz que nos marca neste século XXI como uma força do Fado novo, um batimento reinventado num coração antigo: Ana Moura, a voz que nos traz o Fado que nos empolga, o Fado novo que nos faz bater o pé, fora da aura típica das casas de Fado.

Mandando a tristeza embora, o Fado de Ana Moura é história contada a cantar, é vida envolvida em sentimento que, por muito que possa ser triste, é alegria nessa tão grande tristeza.

Cruzamo-nos com Ana Moura no Theatro Circo, em Braga, em duas noites de casa cheia. Em palco, Ana Moura surge como um trovão, com a voz poderosa envolvida num vestido branco, que pinta de luz um ambiente outrora negro – como os recantos sombrios das casas de Fado antigas, onde o pesar do negro dos xailes e dos vestidos carimbavam o sofrimento do mundo fadista. Ana Moura é a sensualidade de um Fado que traz o pedido que embarquem nele, é uma voz que toca por dentro. Como num virar de direção, que nos empurra para um admirável mundo novo, com tradição e inovação na mesma estrofe, Ana Moura é, aos nossos olhos, aquele sol pela janela que nos apresenta um dia de mudança. A mudança de um Fado triste para um Fado sentido com um sorriso. É o Fado de uma geração à espreita, que nas playlists inclui, sem hesitação, os temas de António Zambujo, de Miguel Araújo, de Prince ou dos The Rolling Stones. Ana Moura é o vértice que liga a tradição com a novidade, recolhendo os aplausos do pop ao rock, mas sempre com a identidade de fadista – identidade essa que já ninguém lhe tira.

Com a proeza de “disco mais vendido da última década em Portugal” atribuída ao álbum Desfado, Ana Moura apresenta um Fado com “elasticidade rara”, um Fado que convida a guitarra portuguesa a partilhar o palco com a bateria, com a guitarra de flamenco ou até com o cajón (instrumento de percussão). Dizendo facilmente “sim” àquele pedido reconhecido de “Leva-me aos Fados”, nós, aqueles que se sentam na plateia e aguardam os movimentos gentis que acompanham uma voz grave e cativante, vemos Ana Moura como uma carga de trabalhos que renova baterias de uma memória lusitana, para a tristeza ir de volta e o fado celebrar, como diz a canção.

Mandando a tristeza embora, o Fado de Ana Moura é história contada a cantar, é vida envolvida em sentimento que, por muito que possa ser triste, é alegria nessa tão grande tristeza. Agora, se calhar, está na altura de ir ouvir os álbuns, não?

Novo álbum a caminho

Em estúdio durante esta semana de junho, Ana Moura prepara-se para dar início às gravações daquele que será o sucessor de Moura, o multi-platinado álbum editado em 2015, lançado após Desfado, o disco mais vendido da década em Portugal e um dos mais bem sucedidos álbuns de sempre da música nacional.

Acompanhada pelos seus músicos habituais, a fadista está a gravar, em Lisboa, sob a batuta de Emile Haynie, o produtor norte-americano conhecido pelas suas colaborações com Lana Del Rey no seu primeiro disco de estúdio Born to Die; Bruno Mars em Unorthodox Jukebox; e Eminem no álbum Recovery, que em 2010 lhe valeu um Grammy para “Melhor Álbum de Rap” e uma nomeação para o Grammy de “Álbum do Ano”. Para além destes artistas, Emile Haynie colaborou ao longo da última década com muitos dos grandes nomes mundiais, tais como Adele, Drake, Florence + The Machine, Lykke Li, Dua Lipa, Brian Wilson, Kid Cudi, A$AP Rocky, Rufus Wainwright, Father John Misty, Sam Smith, Beyoncé ou Ed Sheeran.

O novo e sétimo álbum de originais de Ana Moura será lançado ainda antes do final de 2019 e marca uma nova fase e sonoridade na carreira da artista. Após a edição deste novo disco, Ana Moura iniciará uma extensa digressão mundial ao longo de todo o ano de 2020.

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