Revista Rua

2020-02-19T14:26:19+00:00 Opinião

And the winner is…

Cinema
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
19 Fevereiro, 2020
And the winner is…
©D.R.

Voltei à RUA. Sempre estive aqui mas, num mês, muita coisa aconteceu: eleições no PSD, onde assumi funções de Vice-Presidente da Comissão Política de O.Azeméis, congresso do partido, viagem à Irlanda – tenho que escrever sobre isso; e há tanto para escrever sobre a ilha -, e muitas outras coisas, mais de quem, por si só, já tem a vida em entropia. Escrevi sobre o CDS e o retrocesso do Chicão; mas não me apeteceu publicar.

No meio de todos estes processos foram os Óscares; e os Globos de Ouro e os Bafta.

Tinha os meus favoritos, como toda a gente tem, e estavam no topo os filmes e actores que já tinha visto, e que ombreavam para as estatuetas: Once Upon a Time in Hollywood, para melhor filme, Joaquin Phoenix, para melhor actor, Le Mans 66 para uma série de outros Óscares, incluindo o de melhor actor secundário. A lista de nomeados para melhor actor secundário, a meu ver, era a mais desafiante.

Mas faltavam-me ver muitas coisas e fiz uma maratona cinematográfica antes da grande noite do Dolby Theatre.

Vi Two Popes e The Irishman no pc, na cama. Dois excelentes filmes, mas sabia logo ali, pelo sítio onde estava a ver a sétima arte, que não eram vencedores de nada: Netflix, o anti-sistema, não poderia brilhar na grande gala da distribuição.

Two Popes mostra a transformação da Igreja Católica, na transição do século XX para o XXI, aos olhos de dois homens. Um filme importante para crentes; e não-crentes, como eu, mas que admiram a capacidade de liderança e o pensamento livre. Mais, a importância do papel social da Igreja, numa era de crise que começou por ser financeira, em 2008, passou a económica, moral e política, e que ainda não estabilizou. Ratzinger e Bergoglio são, através de dois actores excelentes, expostos aos olhos do mundo, a nu.

Martin Scorsese, Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci e Harvey Keitel. Mais 160.000.000 $ para filmar a história de Jimmy Hoffa. O filme é excelente para a compreensão da história da mafia e o financiamento dos sindicatos, e para quem viu e amou, como eu, Godfather, Scarface, Donnie Brasco. Não é um filme feito para a posteridade, é um filme feito para o presente, com uma receita antiga e com todos os monstros sagrados num só local, e que, espera a Netflix, consiga angariar cada vez mais subscritores da plataforma digital.

1917 foi o filme que mais curiosidade me despertou: sou fã do Sam Mendes, arrecadou Globos de Ouro e Bafta. Tentei ver uma vez; quando estava na fila para comprar bilhete, tocou o telefone e tive que voltar à fábrica. Fui uma segunda vez, a três dias da grande noite, numa sessão a meio da tarde.

Quando saí da sala, corri para ler o que escreveram sobre ele porque, além da excelente fotografia, não vislumbrei nada. “Parece que foi todo filmado num só take”, disseram-me. Ah! Uma das especialidades do Godard.

Parasitas. Vi-o há horas. Antes de ver o filme, pensei: tão óbvio, o sistema a tentar mostrar que não se premeia a si mesmo e vai buscar um filme do paralelo 38, a sul, claro. Feições orientais e sonoridade linguística que não permitem, aos nossos olhos e ouvidos, distinguir uma boa de uma má representação.

Uma casa de sonho, feita para contemplar o silêncio. A classe alta, riquíssima, em busca de pergaminhos na sociedade ocidental.

O filme é poderoso de meio para a frente. É duro, custa a encaixar. Não conheço o título original, mas quem escolheu “Parasitas” certamente pensou na xenofobia daqueles que não acreditam no estado-social; e Bong Joon-ho viu a necessidade de mostrar que o Estado tem de intervir junto daqueles que não têm discernimento. Quem é parasita de quem?!

Em Outubro, numa conferência do Rotary Club de Oliveira de Azeméis, Beatriz Pacheco Pereira, fundadora do Fantasporto, aconselhou-me Ad Astra, com Brad Pitt como actor principal e produtor.

Disse-lhe que não era fã daquele tipo de cinema e atirei com uma frase batida: há 2001 Odisseia no Espaço e depois é só entretenimento. Contou-me que iria ter uma surpresa; e boa.

Brad Pitt, a produção, montagem, banda sonora, caracterização, estão lá, com a conta peso e medida de quem viu a obra prima de Kubric.

Em vez de Pitt poderia estar Sheen, com Brando no lugar de Lee Jones. A viagem da Terra a Neptuno, todas as dúvidas e interrogações do narrador, levam-me até ao rio que desagua no Coronel Kurtz. Faltou o “The End”, mas ganhou-se o grito de Roy McBride ao deixar ir o pai ao encontro daquilo em que acredita.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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