Revista Rua

2019-06-26T11:41:24+00:00 Opinião

Antes um Gin Lover do que ter Spotify

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
21 Junho, 2019
Antes um Gin Lover do que ter Spotify

Vou-vos contar uma história, uma daquelas que reflete bem a realidade de determinadas coisas, nomeadamente, da mentalidade da grande maioria das pessoas em relação à arte; neste caso específico à música.

Estava eu a tomar um café num balcão há dias e estava um grupo de pessoas, dentro da minha faixa etária, a conversar. A certa altura, o tema da conversa chamou-me à atenção. Uma jovem, que graciosamente empenhava um copo de vidro, daqueles copos balão que se usa para beber o belo gin tónico para aparecer na fotografia, diz algo muito idêntico a isto: “(…) eu agora partilho conta de Spotify com três amigos meus. Já viste? Aquilo custa sete euros por mês, que roubo! Ao menos assim fica por dois euros e tal… mas se algum de vós quiser entrar, melhor! Ainda acho um pouco caro”.

Vamos analisar este cenário: uma pessoa, comum, normal, das que encontrámos quando saímos, considera que ter acesso a música infinita por mês, num catálogo sem fim, não tem valor suficiente para se pagar sete euros por mês. Pior, mesmo pagando dois euros e pouco estava a tentar angariar mais pessoas para partilhar conta e, consequentemente, diminuir ao custo mensal desta biblioteca de música sem limites. Obviamente que, fundamentalismos à parte, cada um gasta o seu dinheiro no que quer e valoriza as coisas conforme acha melhor, mas este é um cenário demasiado importante para deixar passar em vão. É tipo aquelas cenas do crime que os técnicos forenses precisam de analisar ao detalhe sem ninguém tocar em nada. Não sendo isto um crime, foi interessante avaliar todo aquele momento. Passo a explicar…

“É interessante questionarmos o valor duma música nos dias que correm. Quanto vale o valor unitário dum tema para as pessoas? Vale a pena os artistas continuarem a investir na criação e na produção de conteúdos?”

Uma pessoa que estava com um gin tónico, que no final da noite lhe custou oito euros e meio, quando pediu a conta, considera que sete euros mensais para ouvir música e ter acesso a basicamente tudo, é demasiado. Porém, beber uma bebida da moda que é sobrevalorizada por levar grãos de café, hortelã, entre outras coisas que ficam a boiar no copo, por oito euros e meio é perfeitamente normal. Pelo que vi, ela não achou caro, pagou, não reclamou do preço e estava feliz com a vida aparentemente. Neste caso, é um gin, mas podia ser outra coisa qualquer… o retrato do que vi, no seu todo, e em todo o detalhe, era rico demais para não vos descrever isto como se de um conto de Eça se tratasse. Nem vou pegar no assunto da mala da Bimba y Lola que tinha no outro braço, que pagava conta no Spotify por dez anos. Ser assinante duma plataforma de streaming com música sem limites, essa futilidade…

Uma vez mais, repito, cada um gasta o dinheiro no que quer e faz da vida o que bem entender, mas isto é bem sintomático do estado da cultura e do valor que as pessoas dão às coisas. Mais do que cultural é um problema educacional. É interessante questionarmos o valor duma música nos dias que correm. Quanto vale o valor unitário dum tema para as pessoas? Vale a pena os artistas continuarem a investir na criação e na produção de conteúdos? Se sete euros por mês não é um valor justo, para algumas pessoas, para terem acesso a uma biblioteca infinita de música, qual é o valor justo para comprar uma música? E um disco? Honestamente, nos dias que correm, já não sei.

Amigos, antes um Gin Lover que do que ter conta no Spotify!

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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