Revista Rua

2020-07-24T12:13:40+00:00 Personalidades

António Bagão Félix: “Tenho receio que os próximos meses venham a ser de muitas dificuldades”

Do imaginário ao quotidiano real de António Bagão Félix, uma entrevista sobre o que aprendemos com a pandemia.
António Bagão Félix ©D.R.
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva24 Julho, 2020
António Bagão Félix: “Tenho receio que os próximos meses venham a ser de muitas dificuldades”
Do imaginário ao quotidiano real de António Bagão Félix, uma entrevista sobre o que aprendemos com a pandemia.

O novo livro de António Bagão Félix, Um dia haverá, é um registo de reflexões do tempo presente, para que no futuro haja memórias daquilo que foi. Aproveitando o lançamento deste livro, pedimos ao gestor e político português de 72 anos, recolhido no seu espaço alentejano neste período de (ainda) confinamento, que nos respondesse a algumas questões sobre os tempos atuais e as mudanças que os mesmos impõem a cada um de nós.  Como poderá a sociedade, enquanto pilar do Estado, garantir a transição necessária para outra forma de pensamento e atuação? As respostas de António Bagão Félix, antigo ministro das Finanças e da Segurança Social e do Trabalho, estão aqui.

Percebo que esta obra seja um livro de reflexão do presente para uma visão de futuro – é dedicado às suas netas. Mas, no momento presente, quais são os seus maiores receios? 

Temos uma pandemia que espero que passe o mais depressa possível para uma pós-pandemia. Receio que não se tirem as necessárias ilações e, no fim, se venha a concluir que foi preciso mudar algo para tudo ficar na mesma. Uma crise, seja de que natureza for, é uma oportunidade de lucidez e um tempo de discernimento. Temos de a encarar deste modo.

O ano de 2020 tem sido intenso e imenso de transformação. A cada mês que completamos, coloca-se a questão “Como será o mês seguinte?”. Acha que ainda teremos surpresas guardadas para os próximos seis meses? Terá a viagem apenas ainda iniciado?

Desde logo, a questão de “Como será o mês seguinte?” coloca-nos a ideia hoje quase hegemónica do “shortermismo”, ou seja, a visão meramente conjuntural do tempo próximo, adiando-se decisões e reflexões estratégicas de médio e longo prazo. Vivemos prenhes da nova ideologia do atualismo, que secundariza o tempo que está para além do dia seguinte. Mas, respondendo diretamente à pergunta, tenho receio que os próximos meses venham a ser de muitas dificuldades. A pandemia vai convergir com a abertura de aulas, o outono e a gripe, sem que ainda haja meios de prevenção da COVID-19. As mais duras consequências económicas e sobretudo sociais ainda estão para vir.

“Glorificámos o homo economicus e transformámos a economia de mercado em sociedade de mercado. Endeusámos a globalização económica e informacional e ignoramos os seus perigos morais. Valorizou-se mais o crescimento económico do que o desenvolvimento humano. Estimulou-se a apologia e o elogio do sucesso, enquanto se desdenhou da compaixão por quem fracassa”

Como encara a questão do racismo em Portugal por contraste ao que se observa internacionalmente? Não seremos todos de facto cúmplices de algo que nos atravessa ao longo de séculos de História e que terá realmente de mudar para o futuro ser mais equilibrado, menos injusto e menos preconceituoso?

Não creio que exista racismo na sua aceção mais dura em Portugal. Mas, evidentemente, há atitudes e comportamentos racistas e de segmentação étnica. E teremos de estar atentos para que esta crise não venha a ter como uma das suas consequências sociais mais críticas, a acentuação de marginalização ou até exclusão de grupos étnicos mais desfavorecidos.

 

Novo livro de António Bagão Félix

Politicamente, como vê os próximos tempos? Cada vez mais, enquanto parecemos estar a evoluir num determinado caminho, acabamos por nos encontrar talvez noutro novamente escuro e ambíguo. Será que teremos novamente mais regimes ditatoriais, de esquerda à direita, menos liberdades? Será que o aumento de liberdade concedida não acaba por ser contraproducente para que a mesma seja possível (exemplo: O politicamente correto que afinal impõe limites/censura a uma série de questões que nem antes se levantavam e acaba por restringir muito mais a liberdade de expressão?)

Vivemos numa época de êxtase científico, onde o infinito parece ser o limite. Temos, ao nosso dispor, uma imparável parafernália tecnológica. Universalizaram-se poderosos meios virtuais de comunicação, com o que de maravilhoso e danoso nos trazem. Glorificámos o homo economicus e transformámos a economia de mercado em sociedade de mercado. Endeusámos a globalização económica e informacional e ignoramos os seus perigos morais. Valorizou-se mais o crescimento económico do que o desenvolvimento humano. Estimulou-se a apologia e o elogio do sucesso, enquanto se desdenhou da compaixão por quem fracassa. Desprezámos a aldeia para aumentar o urbanismo descontrolado e o asfalto. Erguemos o utilitarismo como a ética da conveniência e o egoísmo como a ética intergeracional. Convivemos com uma insidiosa métrica do valor da vida, através da qual ser velho é um problema e nascer é uma inconveniência. Continuámos, apesar das declarações proclamatórias, a ver a natureza como uma mera coisa instrumental a usar, abusar e saquear. Exaltámos a exclusividade dos direitos e fragmentamos os correspondentes deveres. Esquecemos que a noção de direitos humanos é ilusória quando se separa o direito do dever.  Trocámos valores sólidos pelo subjetivismo e relativismo de meras opiniões que nada valem por tudo quererem valer. Promovemos a primazia do número e o sufoco da estatística, como formas traiçoeiras de ditar políticas e de iludir as muitas formas de exclusão e de pobreza.  Satisfazemo-nos com a supremacia das circunstâncias sobre nós próprios. Reduzimos os agrupamentos humanos a arquétipos formatados em visões abstratas e objeto de decisões frias e distantes. Confunde-se liberdade com libertinagem. Assistimos a um mundo sem alma, sem comando, cheio de tiques de correção política. Deixámos de ter estadistas que viam longe, para dar lugar à política que não enxerga para além do curtíssimo prazo e alimenta (e se alimenta) de epifenómenos populares, populistas ou seja lá o que for. Tudo isto é “caldo de cultura” para tentativas autocráticas de poder. A democracia tem de saber encontrar um novo mundo de dar voz às pessoas, de as envolver, de não as sufocar com os eufemismos que travestem a realidade e criam danosas expressões de individualismo e de indiferença.

“O nosso SNS é uma grande conquista da democracia portuguesa. Com falhas, evidentemente, mas um verdadeiro ativo civilizacional, como esta crise pandémica está a revelar”

O que acha que poderá acontecer ao SNS? Não deixa de ser curioso que, até ao final do ano passado, havia quem dissesse que o SNS estava acabado. Agora vemos que é essencial no nosso país, mesmo que tenha as suas falhas. Posta esta questão, como vê o futuro dos médicos e enfermeiros?

O nosso SNS é uma grande conquista da democracia portuguesa. Com falhas, evidentemente, mas um verdadeiro ativo civilizacional, como esta crise pandémica está a revelar. Este tempo é também um ensinamento para que não desbaratemos energias no domínio dos cuidados de saúde por nos envolvermos em maniqueísmos que nada resolvem e tudo enquistam. O SNS não pode ficar refém de ideologias paralisantes. Os médicos, enfermeiros e pessoal de saúde merecem ser mais considerados, para além deste momento tão difícil.

Não deixa de ser profundamente pérfido estar-se a combater com todos os meios possíveis e grande sentido humanista do dever a COVID-19 e se ter agendado, no Parlamento, a votação da eutanásia travestida de morte clinicamente assistida.  A eutanásia e o vírus exprimem metaforicamente a distância entre a pressa e a emergência, entre a morte consentida e a vida dignificada, entre o direito à morte matando e o dever de cuidar.

António Bagão Félix ©Rádio Renascença

“Não se ouvem os gritos dos velhos porque não são sensoriais, antes estão entranhados nas suas almas. Frequentemente se diz que não há dinheiro. Dinheiro que, todavia, tem havido para perdoar dívidas de milhões de caloteiros encartados, de contumazes devedores, de bancos transformados em banquetas fraudulentas, de pequenos ou grandes caprichos políticos ou clientelares, etc.”

Finalmente, sendo um homem que gosta de observar e cuidar, o que pensa que poderá resultar na pós-pandemia, principalmente em termos de saúde mental dos portugueses (seja por questões financeiras, questões familiares – muitas famílias não sabiam sê-lo, nunca tinham passado tanto tempo juntas, questões até mesmo de falta de afetos e solidão imposta pela condição presente)?

O que ontem era importante, hoje passou a ser dispensável. O que ontem era urgente diluiu-se na sua quase sempre falsa pressa. Ninguém sabe como esta situação vai evoluir, mas o despertar das consciências deve ser encarado como uma boa lição a tirar para o futuro. Este é um ponto que nos deve tornar mais avisados em relação ao servilismo do dinheiro, à tirania da ambição desmedida, à pobreza espiritual e ao pendor excessivamente materialista em que muitas vidas se deixaram aprisionar. Esta guerra silenciosa que o mundo enfrenta abre-nos e alerta-nos para as verdadeiras e profundas prioridades de governantes e governados.

Seja-me permitido falar apenas dos velhos, um dos pontos mais críticos, ainda que longe de ser o único. De um modo predominantemente subliminar ou implícito e pelo mundo fora, há crescentes afloramentos eticamente discriminatórios da “bondade” social de estratificação geracional, incidindo sobre os mais velhos. Tomam a forma de juízos sobre a escolha entre quem já viveu muito e quem ainda tem muito para viver, de constatações sibilinas de que “já não vale tanto a pena”, de apreciações do tipo “foi assim com o vírus, seria assim com outra qualquer doença”. Intui-se que, no espírito de muita gente, há um certo “alívio social” com a notícia – sob a forma estatística – de que a larga maioria dos mortos está concentrada nos velhos. Tudo embrulhado em lindas palavras e eufemismos generosos que escondem um raciocínio generalizado de opção (ou alheamento) utilitarista. Sabemos – tal como ordena a lei natural da vida – que quem nasce primeiro deve, em regra, morrer primeiro. O que não podemos aceitar é que se acelere, de um modo injusto e discriminatório, esta forma de eutanásia social, geracional e terminal.

“Que diabo, por uma vez, deixemos de falar em economia para falarmos em proteger as pessoas e salvar vidas. Eu sei que é preciso voltar a revitalizar a economia, mas a maneira como a maior parte das vezes a questão é colocada, já transporta em si o vírus de que nada de essencial irá mudar.”

Os velhos não podem esconder os sinais exteriores da sua idade. Mas, durante décadas, foi um fartar de correção política para que o velho não o parecesse. Assim nasceu o dito conceito europeizado de “envelhecimento ativo”, que é tão-só obrigatório proclamar em qualquer discursata política. Assim germinou uma escala de vocábulos para evitar o estigma semântico de velho. Outrora, o velho poderia ser chamado de ancião, como expressão de respeitabilidade diante da sabedoria que a vida dá. Derrubada a ancianidade, conceito considerado retrógrado, tornou-se generalizada a nova raiz lexical da velhice –  a idade  – e, assim, o termo mais genuíno de velho se transformou na forma anódina e quase abstrata do idoso, do que tem idade. Os eufemismos continuaram e passou-se de idoso para sénior, sem que se aproveitasse a riqueza dessa mesma senioridade na sociedade contemporânea, pois que, cada vez mais, se cultiva o novo, o recente, o renovado, e se distrata o velho, o antigo, o longevo. Mas eis que, perante este repto dramático da pandemia, o sénior voltou a ser idoso e o idoso regressou a velho. Na óptica dominante de se ver a velhice como um peso e um sarilho, ser velho tornou-se mais obviamente inútil, embaraçador, descartável. Uma espécie de posta-restante da sociedade. Velho não dá retorno, só dá prejuízo, pressente-se no interior da hodierna sociedade. A respeitabilidade dos “cabelos grisalhos” tende a ser desconsiderada, ainda que se fale da “idade prateada”. Eis que, por fim, esta pandemia veio reportar à luz do dia a denominação de utente (que palavra tão feia!). É assim que nos é noticiada a morte. Os velhos estão a morrer mais como utentes do que como pessoas. Utente do lar, utente da casa de repouso, utente da unidade de cuidados continuados, utente de hospitais. E tudo vemos com a distância de uma tela que se encarrega de nos tornar insensíveis ou nos anestesiar, de tão mecânica e repetidamente tudo ser noticiado ou explorado sem rebuço.

Se bem repararmos, diante da doença, do isolamento, da pobreza, da supressão de laços familiares e de proximidade, da morte, hoje tudo se quantifica em euros, percentagens e estatísticas indolores e assépticas. Não se ouvem os gritos dos velhos porque não são sensoriais, antes estão entranhados nas suas almas. Frequentemente se diz que não há dinheiro. Dinheiro que, todavia, tem havido para perdoar dívidas de milhões de caloteiros encartados, de contumazes devedores, de bancos transformados em banquetas fraudulentas, de pequenos ou grandes caprichos políticos ou clientelares, etc. Também no tempo da anterior crise, havia que escolher as vítimas pagadoras, e logo à cabeça estiveram os velhos, sempre à mão de semear e sem o poder da rua, para garantir o equilíbrio do que não desequilibraram. Em toda esta crise incomoda-me muito a obsessão para que a economia volte rapidamente ao que era. Que diabo, por uma vez, deixemos de falar em economia para falarmos em proteger as pessoas e salvar vidas. Eu sei que é preciso voltar a revitalizar a economia, mas a maneira como a maior parte das vezes a questão é colocada, já transporta em si o vírus de que nada de essencial irá mudar.

Partilhar Artigo: