Revista Rua

2020-03-31T11:16:53+00:00 Personalidades

António Lobo Antunes, quarenta anos de escritor

António Lobo Antunes escreve porque não sabe dançar como Fred Astaire, escreve para dar sentido à vida, para preencher o vazio da ausência da escrita...
Redação
Redação11 Março, 2020
António Lobo Antunes, quarenta anos de escritor
António Lobo Antunes escreve porque não sabe dançar como Fred Astaire, escreve para dar sentido à vida, para preencher o vazio da ausência da escrita...

Texto de Joana Páris Rito
Escritora, natural de Braga. É autora de Borboletas sem Asas e Azul Índigo, da Chiado Editora.

Mete medo entrevistar Lobo Antunes, confessou Mário Crespo ao Escritor. Mete-me medo escrever sobre Lobo Antunes. Aninho-me diante da grandiosidade da obra antuniana. Encolho-me de admiração. No dizer de António Lobo Antunes, o que impulsiona a escrita é a sensação de que se é incapaz de fazê-lo. É a luta. É o desafio. Sigo-lhe a inspiradora determinação. Apesar do medo, escrevo sobre Lobo Antunes, um génio das palavras, o CR7 da Literatura, como ouvi um leitor nomeá-lo evocando a sua sublimidade e o gosto de Lobo Antunes pelo Desporto Rei.

Começo pelo início: o destino. Há caminhos que são traçados pela mão de Deus, trilhos que o homem tenta inglório desviar, estradas que por mais encurvadas, íngremes e socalcadas que sejam conduzem o homem ao desígnio divino. O destino de António Lobo Antunes é escrever. Uma escrita clandestina, nas suas palavras, que na infância o levava a esconder-se, a escrevinhar papelinhos de letra miúda fáceis de ocultar entre as páginas dos livros de estudo obrigatório, fugido dos olhares, da censura familiar, a família que o queria a estudar, a tirar um curso técnico, afastado do mundo das letras, a família receosa do seu futuro, do seu bem-estar no porvir, a visioná-lo a vender “Bordas D´Água”, a remediar-se de tostões e a sobreviver de ilusões. Uma clandestinidade embrulhada na culpa, a pegajosa culpa que teima em persegui-lo sempre que escreve, como se a profissão de Escritor fosse algo de pouco sério.

©Peter Peitsch

Prevaleceu a vontade do Pai, ilustre médico. António, o mais velho de seis rapazes, seguiu-lhe os passos na formação universitária. Licenciou-se em Medicina, exerceu a profissão de médico, de psiquiatra, da qual decidiu afastar-se para seguir o destino moldado na escrita: triunfou a vontade divina. A prática da Medicina, em Portugal e na Guerra Colonial, é crucial na obra de Lobo Antunes, experiências que alteraram a sua visão ptolemaica do Mundo e o confrontaram com o melhor e o pior da condição humana omnipresente nos seus livros.

António Lobo Antunes escreve porque não sabe dançar como Fred Astaire, escreve para dar sentido à vida, para preencher o vazio da ausência da escrita, escreve porque nele habitam a paciência, o orgulho, a teimosia, a coragem e a solidão.

“Escrevo com medo, a coragem não é não ter medo, é não ter medo de ter medo”, diz o Escritor.

Lobo Antunes não baila com os pés, mas com a mão, a mão que desliza sobre o palco branco do papel num bailado celestial, belo, hipnotizando o leitor com a magia da escrita, a destreza de um prestidigitador das palavras, das frases, das emoções. Lobo Antunes escreve como se escrever fosse fácil… Ao escrever luta contra o que é desumano, o que é reles, o que é injusto. Ao escrever despe o Mundo da falsidade, põe a nu a triste realidade e a frieza acutilante da verdade.

Estreou-se na publicação há quarenta anos com o Memória de Elefante, após o livro ter sido rejeitado pela cegueira de duas editoras. Desde então pôs no Mundo trinta e oito obras. Os seus livros esmiúçam a hecatombe da Guerra Colonial, Portugal e Angola na descolonização, o poder e o exercício desse despotismo num país lusitano de território minúsculo agarrado com teimas de jumento à vastidão do império perdido, preso a ideologias expansionistas, vetustas, descabidas, inadaptado a um presente inevitável.

Os seus livros são povoados de personagens de carne e osso, pessoas comuns de laivos grotescos, pessoas viciadas na prepotência, pessoas arrastadas na indignidade da submissão, pessoas sem heroicidade perdidas no presente, ensombradas pelo passado, incapazes de vislumbrar devires auspiciosos. As relações familiares surgem complexas, predominantes de desamor, famílias cujos membros se enovelam no silêncio, um calar amargurado, um grito abafado que é um clamor por amor, pontuado por dizeres ora grotescos, ora satírios, num adensar de frustrações, inseguranças e rejeições que inibem a troca dos afetos.

“Escrevo com medo, a coragem não é não ter medo, é não ter medo de ter medo”

Lobo Antunes é mestre em dissecar a alma humana numa busca do sentido da vida, da estranheza da morte, da incapacidade de admitirmos a nossa finitude, da dificuldade em lidar com a angústia e a indiferença do próximo. Escreve para os portugueses, não para outros povos, apesar dos seus livros estarem traduzidos em várias línguas. Escreve pela imensidão do sofrimento silencioso, pelas mudas lágrimas vertidas, na esperança de que sequem os prantos. E nós, leitores, vagueamos nesse silêncio, embrenhamo-nos nele, no mais difícil, no mais profundo modo de comunicar, desejando que esse silêncio nos fale cada vez mais.

A sua escrita é poética e fluída. Escreve como pensa. Um pensamento que divaga pelo tempo, o presente que chama as memórias, intercala realidades, salta de personagem para personagem, de acontecimento para acontecimento, de cenário para cenário, em parágrafos  pontuados de peculiares pormenores duma perspicácia admirável, paninhos de croché, bibelôs de cacaria, indumentárias ridículas, trejeitos jocosos, retratos kitsch, ditos brejeiros que ao contrário de banalizarem a narrativa a enriquecem e provocam no leitor sentires de lástima ou esgares de hilaridade.

A sua escrita é única, inovadora, inimitável.

Livros e autor fundem-se. Onde acaba o livro e começa a pessoa?

Atrevo-me a dizer que António Lobo Antunes é um Homem duma sensibilidade rara, duma imensurável compaixão pelo próximo. Se não o fosse, não escreveria como escreve. “A solidão de escrever é assustadora, assim como o medo de desiludir os leitores”, afirma.

Atrevo-me a dizer-lhe, António Lobo Antunes, não tenha medo de nos desiludir, a sua vasta obra, os merecidos prémios que recebeu, o seu empenho em prol da Literatura, são demonstradores da sua genialidade. No seu mais recente livro, A Outra Margem do Mar, prossegue esse talento divino.

Atrevo-me a dizer-lhe, não tenha medo, António Lobo Antunes, o senhor atravessou o oceano das palavras e alcançou não a margem de Angola, nem a de Portugal, mas a margem da terra dos imortais.

Continue a bailar até a mão lhe doer.

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