Revista Rua

2020-08-25T17:35:56+00:00 Opinião

Apartes

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
25 Agosto, 2020
Apartes

A incerteza de encontrar aberta a cortina que de noite fecho sobrepunha-se à pressão que a inquietude das louças paradas no armário azul me impunha. Limites de madeira grossa sem qualquer fineza no trato que me insultam em silêncio e

– Ficas aqui porque foste esquecido
prosseguem a sua inércia numa ausência silenciosa pesada e cinzenta, mas, olhando, azul. Imaginando será cinzenta porque as memórias não se servem da mesma realidade de que os olhos se satisfazem. A memória é astuta e perita em invenções de cores e cheiros e madeiras cinzentas porque inertes, mas azuis.
Não só de madeira são feitos os compartimentos, mais ou menos estanques, da memória, são feitos de orquídeas brancas em jarras de vidro e de sardinheiras na varanda. As sardinheiras olham-nos da beira da varanda, dois andares acima do solo e

– Já vens tarde para casa rapaz dizem como a avó dizia

(diz)
dizia não é adequado porque ainda diz, mas eu não tenho a idade que tinha e agora reparo nas floreiras enforcadas na varanda e percebo que se preocupem com os horários. Que existência levam numa esquina agreste onde o vento as fustiga numa esperança de abrir o cadafalso para que se enforquem de vez.

(o que uma pessoa imagina)
A memória é limitada pelos medos incertos porque certos de acontecerem e apenas irregulares porque os passeios não são direitos, são tortos e inclinados e gastos pelo vento e por sardinheiras que caem dos segundos andares de esquinas agrestes, as jarras de vidro existem porque há orquídeas dentro delas – como saber se existem jarras se nada existe dentro delas?

– Existimos sim, tu foste esquecido e, abandonado, não nos valorizas

Existem para deixar ver o pé delicado e vertical das senhoras que nelas se introduzem, por meios obscuros, ocupando a sala de aromas, dizendo

– A tua sala é bonita porque cá estamos
sim, a sala é bonita porque cá estão, mas a jarra não está, apenas é transparente. Quantas senhoras alvas não temos nós nas jarras transparentes da memória?

– Dizes coisas tão estúpidas
Venho tarde porque me perdi com senhoras de pé delicado e porque me desviei de cercados cinzentos, mas azuis e vi as sardinheiras enforcadas na varanda enquanto a avó

– Já vens tarde para casa rapaz
e lá vou eu, apressando o passo, não vá um vaso decidir-se no momento em que cruzo a esquina.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

Partilhar Artigo: