Revista Rua

2020-03-24T10:17:10+00:00 Opinião

Aproveitar o tempo em quarentena

Sociedade
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
24 Março, 2020
Aproveitar o tempo em quarentena

Como corre a quarentena até agora? Provavelmente não corre, ou estamos sentados no sofá, deitados na cama, ou na varanda a observar a solidão nas ruas (para os que têm mais sorte podem até brincar com os animais ou fazer uso de um terraço).

Ora, o importante são as atividades que escolhemos para aproveitar o tempo que temos em mãos. É uma situação histórica e no meio disto tudo ainda poderemos tomar proveito para algo positivo no cerne de tanta coisa errada.

Já que só posso falar por mim, e que não há muito mais a acontecer que possa ser abordado numa crónica, escrevo sobre os meus pequenos prazeres de isolamento social. Bem, em primeiro lugar há que corrigir o isolamento social – há, de facto, uma distância social, mas a maioria de nós tem ferramentas em mãos, como a internet e os dispositivos digitais, que nos permitem estar em conexão – um grande exemplo disto foi o festival “eu fico em casa” que juntou vários músicos para dar concertos nos meios digitais. Luto ainda contra os duzentos e cinquenta quilómetros que me separam da minha namorada e que ainda assim tentamos manter uma proximidade virtual através das videochamadas, áudios, fotos, mensagens… tanto o quanto possível para amolgar a saudade que não desaparece e tem uma forte tendência a crescer.

Fico-me pela minha biblioteca pessoal recheada e pela minha coleção de vinis para dar um compasso mais ajustado ao meu tempo. Entre isso há ainda as aulas por vídeo conferência que, até à data, têm resultado (grande parte disso deve-se ao facto de que estudo num mestrado de investigação, portanto o método de avaliação é mais facilmente aplicado).

Consegui acabar a nova temporada de Narcos México, ver o filme Blow, ouvi alguns álbuns, variando no género desenfreadamente – numa fase experimental – e rodando de autor em autor: Goethe, Cervantes, Walter Benjamin, Lewis Carroll, Rimbaud, António José Forte, Mário Cesariny, Manuel de Freitas, Filipa Leal, Helder Moura Pereira… e reler António Lobo Antunes. Quanto ao trabalho há um certo Hegel para tratar, Wittgenstein, entre outros… todos os que ditei são recomendáveis e aconselháveis à passagem na quarentena, no entanto há uma vasta panóplia de opções.

Entretanto tentei fazer a minha parte para ajudar e aproveitei para reunir alguns poemas e escritos meus, aprendi a tratar do grafismo (tão simples quanto a experiência me permitiu), a paginação e lancei um livro digital, totalmente gratuito – “meio maço de café” – e isto ajudou-me não só a mim, como espero que tenha ajudado outros tantos a aproveitar o tempo. A única coisa que ganhei com isto foi o prazer de escrever, e esperança que alguns poucos leitores tenham gostado e melhorado a quarentena com o meu livro.

Quanto ao resto, a rotina tem sido repetitiva e ainda assim um distante da repetição: o café é o mesmo, na mesma varanda, o livro varia, às vezes até o formato, com a rádio de fundo ou somente o chilrear dos pássaros. Aproveito as tardes para trabalhar e estudar e as noites para algum prazer pessoal servindo-me da Netflix para ver algumas séries ou filmes novos (ainda para mais com a nova estreia de “Freud” estou deleitado).

O país está em estado de emergência, a Europa está praticamente toda na mesma situação e, ainda assim, não necessitamos de pegar em armas e partir para a guerra, como o Rodrigo Guedes de Carvalho nos explicou em tom de advertência no fim do telejornal – podemos simplesmente cultivarmo-nos, e sair desta situação com um pouco mais de cultura por entre todo o desabamento.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

Partilhar Artigo: