Revista Rua

2019-02-15T12:27:25+00:00 Opinião

Aquele louco desejo por Amor

Sociedade
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva
14 Fevereiro, 2019
Aquele louco desejo por Amor

Há amores que matam. E não é uma hipérbole. Há amores que matam porque deixamos que assim seja. Há sentimentos tão fortes, que não se explicam de forma racional. E o irracional, tolerante com o coração, dá cabo dele.

Em Portugal, desde o início do ano, ou seja, em 45 dias, já foram mortas nove mulheres vítimas de violência doméstica. E por doméstica, explique-se, violência associada a um relacionamento. Poderia falar do machismo, ou do feminismo, de comportamentos sociopatas de homens e de mulheres, de situações estranhas e extremas em namoros e casamentos. Mas prefiro tentar perceber o que leva alguém, masculino ou feminino, a tolerar tal situação. E falo em nome próprio. Quando se deseja loucamente amar e ser amado, o objeto de desejo passa a ser único. Torna-se na verdade quase obsessivo, não conseguimos dar um passo sem estar, falar, ver, ouvir essa pessoa. E essa pessoa sabe exatamente como estamos, em que ponto estamos e o que deve fazer connosco. Quando queremos ser amados, toleramos os silêncios, a falta de mensagens, de bom dia e de boa noite, toleramos as perguntas de “onde estás?”, “como?”, “com quem estás?”, “o que andas a fazer?”, toleramos as humilhações de nos dizerem de frente que não valemos nada, que o que estudamos não serve para nada, que o que fazemos no dia a dia não nos dá mais valor. Toleramos as perseguições, toleramos o sexo sem vontade, muitas vezes por obrigação (ou será antes, obrigado?). Até ao dia em que também toleramos uma bofetada, um aperto no braço, um murro, um objeto atirado, uma facada, um tiro.

Há amores que de tão fortes nos aprisionam ao horrendo e nos dias que correm, com a pressa de se chegar longe e ao mesmo tempo a lado nenhum, quase que não conseguimos filtrar o amor. Os diferentes tipos de amor. O amor que não faz doer, daquele que nos desgasta aos poucos e poucos, que nos faz desacreditar em tudo o que conhecemos.

Há amores que matam, porque as forças faltam, porque o medo de ficar sozinho é maior, porque a sociedade não quer saber e fecha os olhos ou obriga-nos a ter alguém.

Há amores que matam, simplesmente porque sim. E porque nunca saberemos exatamente o porquê.

Sobre a autora:
Geóloga (do Gás e Petróleo). Autora de textos no blog A Carroça da Clau e simpática utilizadora de IG: @claudiapaivasilva e @urban_trender. Aficionada nas heranças culturais de Portugal e em chocolate.

Partilhar Artigo: