Revista Rua

2019-08-09T17:15:06+00:00 Opinião

Arrumar cacos velhos

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
8 Agosto, 2019
Arrumar cacos velhos
Imagem representativa

Uma mesa de pé de galo, de naperon e jarra de flores falsas às quais se limpa o pó com mil atenções nunca antes dadas por nada, livros quietos em estantes intactas, lombadas largas e inquietantes. A cara grave de quem recebe um armador ou de quem cuida de um familiar doente, um sorriso quase cínico, mas sincero, não querendo ser pouco atencioso para aquele que bate à porta e ouvir bater à porta é um presságio de morte, é uma alucinação, um espectro, um baque na madeira e deus nos livre da morte, nem pensar nisso é bom. Portanto, aquela que sei que espreita da janela com o cata-vento de plástico colorido terá em si todos estes bibelots e com toda a certeza que acreditará que bater à porta é presságio de morte e deus nos livre, nem pensar nisso é bom. Uma casa que cheira a mofo, a humidade a roupas com séculos em cima, de pessoas dos passe-partouts no móvel da entrada, passos que rangem e tábuas com entorses nos tornozelos e varizes de décadas passadas atrás de um fogão, um marido esquivo, filhos que a esqueceram, familiares que se vão, vizinhos que o deixam de ser e a rua que muda, muda. Contudo, a casa intacta, a fachada incólume caindo aos pedaços como as memórias, ambas são edifícios trémulos, desagastados pelo tempo. Visitas ocasionais dos seus defuntos ocupam parte dos seus dias, passando na hora do chá com pão seco que serve de lanche e jantar ao mesmo tempo e perguntam como vai tudo na esperança de que nada tenha mudado, um subtil

– Cala-te

no calculismo da pergunta, claro que está tudo bem, não se atreveria a dizer que não, que vergonha. Esta vergonha na verdade não existe, senhora, é uma construção sua, frágil como a fachada, não é vergonha confessar aos seus defuntos que não está tudo bem. Pena é que de pouco lhe sirvam, tal como de pouco serviram anos antes, mas pelo menos não lhes esconde nada e mostra-se dura, é dura, quem manda é a senhora e não as figuretas pirosas dos passe-partouts, vestidas com o fato de domingo, lustroso e ridículo, como podem estas figuras julgá-la, senhora? Não podem de forma alguma. Troque as flores de plástico e compre flores vivas, deite fora os parentes que se impingem ou dê-os às gavetas recônditas, não relembre mais nada, não esconda mais aquilo em que pensa, não compre mais o pão na esquina em frente, deixe de lá ir, mude de ares e desça a rua, continue sempre pela esquerda para uma praça qualquer, depois para a seguinte, encontre o jardim e depois desça para o outro, aquele onde devia estar. Não pense mais em nada e esqueça-se de existir perante as memórias que a convocam, esqueça-se das horas e dos dias, não volte nunca mais a essa casa, esqueça-se dela também, vai ver que não custa nada e não tarda nada voa com os pardais que se somem no horizonte.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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