Revista Rua

2019-02-28T16:08:28+00:00 Opinião

.as não respostas.

A Civilização do Espectáculo
Cátia Faísco
Cátia Faísco
28 Fevereiro, 2019
.as não respostas.

Sempre tive muito sangue na guelra. Ouvi essa expressão vezes sem conta como se fosse algo a evitar. Mas, nas entrelinhas, ficava também subentendido que a vida trataria de me ensinar que algumas batalhas valeriam o esforço de ser travadas e outras não. E por mais resistência que tivesse à ideia, por mais pontapés que quisesse dar, lá fui aprendendo devagarinho. Actualmente, continuo a (re)agir apaixonadamente perante os assuntos que me tocam. E um dos que mexe mais com a minha guelra é o das não respostas.

Não gosto de generalizações, mas não consigo ser totalmente imune a elas. Tenho a noção do seu perigo, mas também reconheço a sua utilidade quando são utilizadas como combustível para chegar a um outro ponto. E quando penso nas não respostas, penso automaticamente nas generalizações porque, nesta civilização do espectáculo, umas encaixam nas outras que nem uma luva. Ai, como eu gostava que assim não fosse e que apenas precisasse de trocar de lentes…

O meio artístico português é um meio muito pequeno. Ridiculamente pequeno. Pelo menos, comparativamente a outros países. Toda a gente se conhece. Toda a gente se cruza antes e depois de espectáculos, concertos, exposições, … Trocam-se ideias, contactos e, por vezes,  algumas promessas. Há, obviamente, aqueles que se sabem mover e sorrir melhor do que os outros e acedem a círculos privados ganhando, deste modo, acesso ao bilhete dourado para usarem mais tarde. Ou seja, quando se tem um espectáculo ou um concerto que se quer fazer circular, é muito mais fácil chegar a um programador quando já se estabeleceu alguma forma de contacto anterior. Caso contrário, um e-mail pode ficar perdido para todo o sempre. E nem sequer é preciso ir para o Spam. Fica só ali sossegadinho, umas vezes sem ser lido, outras a ser só relegado ao esquecimento.

Como em todos os outros quadrantes da vida, profissionais ou pessoais, é muito mais fácil seguir em frente depois de um não, do que ficar a tentar perceber se se vai ter alguma resposta ou, nalguns casos, onde é que se errou.

Quando um(a) programador(a) ou director(a), ou qualquer outro cargo com poder de decisão, recusa algo que está a ser dirigido a essa instituição, está claramente no seu direito. Imagino que as solicitações sejam imensas, mas não clarificar o que quer que seja ou o uso de um simples não para que se possa seguir para outras alternativas, não me parece muito difícil de fazer.  Ou será? Quantas vezes se tem de insistir até desistir? O mais curioso é quando dois artistas cruzam informações e, quase sem querer, se apercebem que enviaram propostas ao mesmo tempo e que um recebeu resposta e o outro não. Há aquele momento do meio segundo do silêncio e do “ah, pois, não sei, deve estar cheio de trabalho, sabes como é e tal…”.

Como em todos os outros quadrantes da vida, profissionais ou pessoais, é muito mais fácil seguir em frente depois de um não, do que ficar a tentar perceber se se vai ter alguma resposta ou, nalguns casos, onde é que se errou.

Continuo a ter dificuldade em perceber a programação neste país. Continuo a ter dificuldade em perceber como é que não há dinheiro para programar X e, de repente, aparece milagrosamente para que Y possa apresentar o seu projeto (música, teatro,…). Continuo a ter dificuldade em entender os critérios de selecção (por vezes nem sequer são claros). Continuo a ter dificuldade em observar sempre os mesmos nomes a circular. E é engraçado, mas não tem graça nenhuma, que mesmo havendo noção de tudo isto, se continue a pensar que se tratam de generalizações…

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o Autor:
Dramaturga. Escolhi a eternuridade como palavra mãe porque sou teimosa. Prefiro a plateia ao palco. Penso melhor debaixo de água. Adoro pôr as mãos na massa. Professora, investigadora, yogui.

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