Revista Rua

2020-11-23T10:01:29+00:00 Cultura, Música

As novidades portuguesas do mundo do Jazz

São sugestões imperdíveis e perfeitas para este Natal.
Miguel Estima
Miguel Estima20 Novembro, 2020
As novidades portuguesas do mundo do Jazz
São sugestões imperdíveis e perfeitas para este Natal.

Estamos a chegar ao Natal e à época dos presentes – e somos cada vez mais confrontados com o slogan “Compre no comércio tradicional”. Para os melómanos, e nestes tempos mais conturbados que estamos a viver, a sugestão passa pela compra de discos diretamente aos músicos. Todos eles pertencem à Associação Porta Jazz, sediada na cidade do Porto. São discos com a particularidade de terem uma capa com serigrafia pela artista visual Maria Mónica, num incomum formato quadrado de 20 cm de cada lado, enganando os menos atentos por se assemelhar a disco de vinyl single.

Os seis discos foram todos eles editados este ano pela Carimbo (editora da Porta Jazz), sendo que alguns deles foram apresentados pela primeira vez fora do circuito da Associação, numa tarefa um pouco distinta do habitual, o que veio ainda dificultar mais a promoção e divulgação que este género musical já por si enfrenta.

Na próxima semana a Porta-Jazz vai promover o Fast Forward, um festival online  onde serão apresentados alguns destes discos.  Na terça-feira, dia 24 de novembro, destaque para o lançamento do disco de João Pedro Brandão.

Trama no Navio, de João Pedro Brandão

Tendo como início um convite feito pela Orquestra de Jazz de Matosinhos para musicar o filme O Couraçado Poutenkim de Sergei Eisenstein, o disco de João Pedro Brandão (composição, saxofone alto, saxofone soprano e flauta), inspira-se na base cinematográfica. Sendo um filme russo mudo de finais dos anos 20, o único tema de quase 40 minutos é para dar um corpo sonoro à segunda parte da película Drama no Navio.

O disco já não é em formato Big Band, mas em versão quarteto, mantendo a espinha dorsal do projeto. Contou com Hugo Carvalhais no contrabaixo, Marcos Cavaleiro na bateria e Ricardo Moreira no piano e no Hammond. Com apenas uma faixa, o disco – ou diria, o tema – faz jus a essa parte do filme, que segundo o próprio Brandão revela “uma narrativa densa, intensa com um desfecho tão dramático quanto poético”.

Um disco com uma forte base experimental, um desafio constante para quem se aventura na orgânica de sonorizar um filme mudo.

The Guit Kune Do, de André B. Silva

Lançado no passado dia 18 de novembro, depois de ter sido apresentado ao vivo no Parque da Devesa em Famalicão no passado mês de julho, The Guit Kune Do é um projeto musical da mente do músico e compositor português André B. Silva. Na eterna busca por sons, formações e soluções menos exploradas, ele tropeçou na possibilidade de criar um grande conjunto voltado principalmente para a guitarra elétrica.

O resultado é o The Guit Kune Do, uma ode ao instrumento, mas também aos ritmos mainstream do final do século XX. As influências do jazz, funk, hip-hop e rock estão bem definidas no som e são acompanhadas por um material melódico mais ousado (uma característica muito presente na obra de André, por exemplo com os The Rite of Trio). Detalhes melódicos harmonizados e unidos com riffs contrapontísticos viciosos tornam o uso das cinco guitarras um deleite auditivo. A musicalidade é sempre celebrada.

Com André Silva na guitarra e composição, António Pedro Neves (AP), Eurico Costa, Francisco Rua, Miguel Moreira nas guitarras e, ainda, João Próspero no baixo e Diogo Silva na bateria.

Implosão, de Ricardo Formoso

Implosão é o segundo projeto musical original liderado pelo trompetista espanhol Ricardo Formoso. Depois da sua estreia como compositor no álbum Origens, lançado em dezembro de 2017, Ricardo apresenta o seu novo conjunto de composições no 10º Festival Porta-Jazz acompanhado por quatro excelentes músicos que completam um quinteto internacional.

A solidez e dinamismo do saxofonista canadense Seamus Blake, a versatilidade e sofisticação do pianista espanhol Albert Bover e a fantástica dupla na secção rítmica do indiscutível Demian Cabaud no baixo e Marcos Cavaleiro na bateria contribuem com profundidade, surpresa e magia para este projeto. Constituem uma bela amostra da história recente do jazz, com carreiras ligadas a figuras notáveis ​​do meio jazzístico de várias gerações.

Implosão contém um repertório pensado para proporcionar uma reação entre as estruturas moleculares que configuram a essência e a voz dos elementos desta formação num contexto determinado pelo cuidadoso arranjo, improvisação e descoberta do cosmos.

Implosão conta com Ricardo Formoso no fliscorne e composição, Seamus Blake no saxofone tenor, Albert Bover no piano, Demian Cabaud no contrabaixo e Marcos Cavaleiro na bateria.

Sete, de Marcos Cavaleiro 

Marcos Cavaleiro Quarteto feat. Thomas Morgan foi dos últimos concertos de jazz que aconteceram no Museu Nogueira da Silva ainda em dezembro de 2018. O disco foi gravado logo a seguir com um quinteto de excelência. Cinco músicos de notável percurso internacional a começar pelo Marcos Cavaleiro na bateria que convidou Thomas Morgan a acompanhar no contrabaixo, João Guimarães no saxofone alto, José Pedro Coelho no saxofone alto e ainda André Fernandes na guitarra.

Foi numa química nova, fruto desta combinação que os músicos exploraram novos territórios do jazz, num (quase) free jazz muito próprio de quem já domina e sente uma vontade de liberdade para dar largas à imaginação.

Connecting the Dots, de Hugo Raro

Num tempo de dormência, de servidão voluntária, de alienação, de consumo rápido e superficial, propomos uma viagem entre memórias e o que há de vir, entre fantasias e realidade, entre a ilusão de passeios por florestas e castelos e o conforto do cheiro a terra molhada, entre a vontade continuada de nos superarmos e o saber apreciar e valorizar o que foi conseguido. Esperamos que a viagem possa ser de repouso, de contemplação, de descoberta, chegando a diferentes destinos e encontrando infinitas sensações.

Um disco lançado em maio que conta com Hugo Raro na composição e no piano, João Mortágua no saxofone alto, José Carlos Barbosa no contrabaixo e Marcos Cavaleiro na bateria.

TaCatarinaTen, de Nuno Campos

O Nuno teve oportunidade de tocar o seu disco TaCatarinaTen, depois de lançado em plena pandemia, pela primeira vez também em Famalicão no Parque da Devesa, em julho passado.

TaCatarinaTen é um disco repleto de emoções e experiências vividas numa década preenchida de mudanças na vida do próprio Nuno. Sendo que materializou “com tinta musical todos esses momentos. Este é um disco íntimo, largamente pensado e trabalhado como se de filigrana se tratasse”.

Gravado no Estúdio/Casa do Miguel em dezembro do ano passado, o trabalho conta com o próprio Nuno Campos na composição, contrabaixo e voz, José Pedro Coelho no saxofone tenor, Miguel Meirinhos no piano e Ricardo Coelho na bateria.

Mazam:Land, de João Mortágua

Existe um espaço próprio para o saxofonista nortenho, cada vez mais afirmado no panorama do jazz nacional. João Mortágua juntou mais três amigos: Carlos Azevedo no piano, Miguel Ângelo no contrabaixo e Mário Costa na bateria. Deste juntar de energias profícuas saiu uma série de temas que deram origem a este disco de originais lançado no passado dia 4 de março na FEUP no Porto.

Já em 2019, quando fez uma apresentação dos temas ao público, na folha de sala revelou o projeto assim: “No seu mais recente projeto de originais, João Mortágua explora as características do quarteto com piano, juntando-se a uma emblemática secção rítmica, em prol de um produto fresco e apurado. Sem filtros, chora-se a mágoa da beira-mar e ri-se face à alegria na montanha. De tudo e nada é feito este espaço. Não é, MAZAM”.

MAZAM é um meio caminho entre o free jazz com freak jazz, muito bem elaborado e com uma boa dose de psicadelismo, muito próprio, que confere a este disco aquele rótulo ambíguo entre o jazz e o experimental.

Mazam são composições de João Mortágua, entremeadas com improvisações espontâneas, Carlos Azevedo no piano, Miguel Ângelo no contrabaixo e Mário Costa na bateria.

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