Revista Rua

2019-07-01T18:22:24+00:00 Cinema, Cultura

As sete vidas de Tiago Aldeia

"Eu acho que terei 50 anos e as pessoas continuarão a chamar-me de Rodas", conta-nos o ator Tiago Aldeia, reconhecido ainda hoje pela icónica personagem na série Morangos com Açúcar.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto1 Julho, 2019
As sete vidas de Tiago Aldeia
"Eu acho que terei 50 anos e as pessoas continuarão a chamar-me de Rodas", conta-nos o ator Tiago Aldeia, reconhecido ainda hoje pela icónica personagem na série Morangos com Açúcar.

Encontramo-nos com Tiago Aldeia durante um intervalo de gravações, em terras minhotas, para uma longa-metragem de ficção nacional que terá o nome de Os Conselhos da Noite, realizada por José Oliveira e com produção de Daniel Pereira (The Stone and The Plot). Enquanto moldava a sua mais recente personagem, falou-nos do passado e do presente, de uma carreira preenchida por inúmeros projetos televisivos, teatrais e cinematográficos. Natural de Lisboa, o ator que precisaria de sete vidas para fazer tudo aquilo que gostava, garante viver apaixonado pela profissão.

Esta entrevista é parte integrante da Revista RUA Printed Edition#32.

Fotografia ©Nuno Sampaio

O Tiago é natural de Lisboa, mas poderia ser natural da cidade de Braga, tal como a personagem que representa neste novo projeto. Teria a mesma reação que o Roberto (personagem) se chegasse agora a esta cidade?

Talvez! O Roberto saiu de Braga aos 15 anos, entretanto já passaram 20 e, pelo que sei, a cidade mudou bastante, principalmente nos últimos cinco anos, tal como Lisboa ou Porto. Felizmente, tivemos um bom desenvolvimento. Eu, Tiago, vou ficando surpreendido com esta cidade, que sempre achei uma cidade muito bonita e vou achando ainda mais à medida que vou conhecendo.

O que é que nos pode contar sobre esta personagem?

O Roberto é um escritor falhado por opção, porque é contra o sistema. Escreveu um livro, uma grande reportagem sobre as comunidades cabo-verdianas a viver em más condições à volta de Lisboa e esperou que isso tivesse efeitos políticos que promovessem a melhoria da qualidade de vida dessas pessoas. Mas a vida, com uma série de frustrações, levou-o a isolar-se e a ficar um bocado “bicho do mato” revoltado. Entretanto, depara-se com uma doença em fase terminal e decide regressar a Braga, no intuito de se despedir. Esse regresso acaba por despertar alguma curiosidade e ele decide escrever o romance que sempre desejou. Mas, no fundo, é um homem que está perdido e que não tem nada a perder. Com muita irresponsabilidade misturada com convicções e uma grande capacidade de observação da vida.

José Oliveira (realizador), Tiago Aldeia (protagonista) e Daniel Pereira (produtor) do filme Conselhos da Noite

Qual é o fator que mais o entusiasma num papel e, em especial, neste Roberto?

A carga dramática que ele transporta. Isso é uma das características naturais, dada a situação dele, e que atravessa o filme todo. É uma situação limite que ele está a viver e é sempre interessante perceber como é que o ser humano reage a situações limite. Isso foi o que me despertou mais a atenção.

O que mais o motivou quando conheceu o argumento do filme?

Uma naturalidade na narrativa que acontece com o percurso da personagem, sem querer ter grandes acontecimentos, ou seja, o que acontece é simplesmente acompanhar o interior emocional da personagem. É esse o foco do filme. O filme é acompanhar a emoção, o pensamento e o estar do Roberto.

Se olharmos para o currículo do Tiago, vemos que tem participado em vários projetos teatrais, televisivos e cinematográficos. São áreas diferentes, mas há alguma que lhe desperte maior interesse e se sinta mais confortável?

Eu sinceramente gosto das três. Cada uma tem o seu encanto. No teatro temos sempre o feedback imediato e direto do público, é uma orgânica de maior energia, algo que acontece apenas ali. A televisão tem um ritmo mais acelerado, o que também dá uma certa “pica”. A velocidade com que se faz televisão, o stress (o bom stress, porque também há o mau stress) e a projeção que tem é interessante. E o cinema! O cinema tem o encanto de ser imortal, fica gravado e permanece para sempre. É mais “dado à poesia”.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Como caracteriza a arte cinematográfica em Portugal?

Nós temos muito bom cinema, bons filmes, bons atores e realizadores, precisamos que o público perca aquele preconceito em torno do cinema português, porque temos grandes filmes, mas que são primeiro reconhecidos lá fora e só depois cá. Era bom que as pessoas dessem uma oportunidade para realmente existir cinema em português, nas salas de cinema em Portugal.

Sempre participou em vários projetos nacionais. É importante continuar a participar em projetos criados e produzidos em Portugal?

Claro que sim! Tenho muito orgulho em ser português e temos muita coisa para contar, muitos locais para mostrar. Este filme é um exemplo. Temos muitos sítios fantásticos para dar a conhecer.

Já deu vida a várias personagens e foi também crescendo com as mesmas. Como é que se molda para corresponder a cada uma? Tem algum truque?

Eu deixo-me contaminar pelas emoções de cada uma. O truque é mesmo viver a personagem. Neste caso, o Roberto é muito expressivo e tem uma carga forte, dadas as circunstâncias que vai vivendo.

Recebeu vários prémios, nomeadamente o prémio de melhor ator na curta-metragem Cigano. Que importância tem para si este reconhecimento?

É muito importante, claro. Dá-me vontade de trabalhar mais e cada vez melhor.

Se olhasse para o ator que era em Super Pai (2002), o que lhe diria?

(risos) Diria que tinha muito que aprender. Obviamente que fui crescendo e a vida e a experiência dá-nos outra leitura das cenas e, se calhar, agora faria diferente. Eu sou muito perfecionista. Acabando alguma cena, se me derem oportunidade de repetir, eu vou fazendo até atingir a perfeição, que é utópica sempre.

“Eu acho que terei 50 anos e as pessoas continuarão a chamar-me de Rodas (risos)

É, também, impossível falarmos de carreira sem fazer referência à mítica personagem do Rodas, na série juvenil Morangos Com Açúcar. De que forma recorda essa personagem?

A grande questão dessa personagem e que, de facto, eu fico muito grato, é que marcou várias gerações. Quando eu acho que já acabou, a série repete-se e existem miúdos de oito anos que vêm ter comigo a gritar: Rodas! Já fiz muitas personagens e essa marcou completamente, talvez porque não havia redes sociais e dava-se outra importância à televisão. Também ainda não tinham visto uma personagem assim tão rebelde e isso criou rapidamente simpatia de uma forma geral. Foi a minha primeira personagem de elenco principal e a de lançamento da minha carreira. Comecei a fazê-la com 17 anos e acabei com 19. Foram dois anos de Rodas e isso deixa imensas saudades! Parece que foi ontem e, simultaneamente, parece que foi há muito tempo. Foi muito bom!

Considera que será sempre a personagem a quem as pessoas mais o identificam?

Eu acho que terei 50 anos e as pessoas continuarão a chamar-me de Rodas (risos). Durante um tempo, depois de acabarem as gravações, eu não gostava muito dessa referência, visto que já tinha feito outras personagens. Mas, hoje em dia, estou muito satisfeito com isso, até porque é um privilégio ter uma personagem que marque tanto. É muito positivo e não me importo nada!

Começou muito cedo a representar. Sente que o seu percurso teria de ser mesmo a arte? Nunca ponderou exercer outra profissão ou seguir um caminho diferente?

Eu pensei sempre em fazer muitas coisas. Acho que a nossa vida deveria ser como a dos gatos: deveríamos ter sete, porque só uma não chega! Há tanta coisa para fazer e para viver. Eu acho que optei pela melhor profissão de todas. É aquela que me permite viver outras vidas para além da minha.

Está confiante com a estreia deste filme?

Acredito muito na visão do José Oliveira (realizador). O objetivo é as pessoas entrarem no mundo desta personagem e tentarem perceber a sua vida – ou então não, porque às vezes nem tudo se percebe nos outros. Esse é o encanto da vida.

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