Revista Rua

2020-11-05T18:55:55+00:00 Opinião

Assustador!

Crónica "O Poder está na RUA!"
Rui Madeira
Rui Madeira
5 Novembro, 2020
Assustador!

O poder está na RUA! #3

Acabo de ler um texto que mão amiga me fez chegar. Texto escrito pelo professor José Oliveira Barata, com quem, a partir dos finais dos anos setenta, partilhei momentos fantásticos que o teatro nos proporcionou. A razão de ser do texto parece ser, à partida, a atribuição do Prémio Camões ao Professor Aguiar e Silva, mas a destinatária do mesmo parece ser a senhora Ministra da Cultura. De qualquer modo, o que ali é descrito e escrito lido assim, é assustador. Considero-me amigo do Professor Aguiar e Silva, reconheço o seu labor intelectual, nunca fui seu aluno, mas tenho, ao longo dos anos que escolheu Braga para viver, aprendido, colaborado enquanto Companhia de Teatro de Braga e reconheço a relevância da sua presença para a cidade. Braga, cidade cosmopolita, atractiva, diversa e preocupada com o Outro, deve sentir-se mais responsabilizada depois deste Prémio merecidamente atribuído ao professor Aguiar e Silva. E eu sinto-me nesta situação (e neste contexto) na obrigação de defender a minha consciência. Apenas.

Vivemos um tempo estranho, em que passados muitos anos as pessoas se lembram que foram vítimas desse mesmo passado. E, de certo todos fomos, por vezes vítimas e, aqui e ali, talvez também um bocadinho algozes. Vivemos num tempo em que o exercício parece ser: estar atentos ao que mexe e se mexe, atira-se. Nesses idos anos setenta e oitenta foi com prazer que partilhamos noites e histórias que aliás, o Barata, contava como ninguém.

Surpreso, fiquei pois, ao ler o que li. Quanto tempo para “denunciar as arbitrariedades” da pessoa em causa. De outros não sei. Outros há, (que conheço-os tão bem) quase lhes adivinho as razões do “porquê só agora”. Há muito que uso uma máxima que, pelo menos, me garante alguma coerência ética, estética e ideológica. Neste caso e noutros e que passa pelo seguinte:

1 – Admito que as pessoas podem mudar e que o tempo e as circunstâncias ajudam.

2 – Valorizo e respeito a convicção e o desapego até à vida, durante a ditadura. Aprendi e não esqueço esses exemplos.

3 – Já na Democracia conheci e reconheci pessoas vindas de outro tempo e de outras muitas atitudes negacionistas, quanto à situação política, à misoginia, à prepotência. Nem sempre ser de esquerda quer dizer pensar e agir à esquerda. E o contrário também é verdade! O mundo e nós estamos cheios de exemplos, de Stendhal a Cendras e Erza Pound. Sei e conheci pessoas que, na democracia, se tornaram autênticos senadores e pilares desta nossa Democracia: Adriano Moreira, Veiga Simão, Lucas Pires, Freitas do Amaral e outros. Vindos da Direita e da Esquerda, para sermos claros!  E no plano local, excluindo a ideia de “pilar da democracia”, posso, (pelo conhecimento, colaboração com a CTB e a amizade que se gerou, depois dos anos oitenta), testemunhar a sagacidade, a capacidade intelectual, o civilismo e a preocupação com a Polis, por parte do Cónego Melo.

4 – Tudo isto, numa reflexão estranha sobre nós, portugueses e a nossa incapacidade de ultrapassar a inveja (como diria o filósofo do Medo de Existir, José Gil) sobre o êxito do Outro.

5- Aguiar e Silva já escreveu e publicou tantos e geniais livros sobre Camões e a Literatura Portuguesa. Já leccionou tantas aulas depois de Abril, já ensinou tantas e tantos alunos em Braga… porquê só agora em cima dum prestigiado prémio, aproveitando uma frase inconsistente (ou inconsciente?) da senhora Ministra, decidem cair em cima de Uma e de Outro? Ou qualquer pretexto servia para diminuir o labor intelectual da Pessoa?

6- Será que também estavam e se achavam no direito de entrar na Corrida ao Prémio? É plausível a pergunta! Afinal alguns dos “retardadamente vítimas do laureado e actuais defensores de virtudes” também têm no seu palmarés lados menos bons. Alguns deles e, por exemplo, o autor do texto que li, também ele já foi acusado em tempos (sem razão, certamente) de ter a chave, só para ele, da Biblioteca Jorge Faria (a dos textos de cordel). E outros há que roeram (imagino eu, que os conheço) as unhas, quando algum mais próximo da sua artesania, lhe levou a palma… que é como quem diz… o Prémio.

A questão é: porquê, tantos anos depois de Abril a nossa capacidade de entender e viver a democracia ainda passa por ignorar os contributos generosos, sábios, informados, reflectidos, para a Cultura Portuguesa, que o mesmo é dizer, para a qualidade do nosso viver colectivo? Reconhecendo esse labor, exactamente como um ganho dessa mesma democracia. Porque não se vê como exemplo e se exacerba o ódio? Por fim, não seria melhor o Professor Doutor Oliveira Barata, deixar para traz o cânone dissertativo tão coimbrão, ir directo ao assunto e dizer logo “as ideias que tem sobre tudo isto” e não se preocupar em não ser deselegante para o seu antigo professor e fingir que o problema é afinal com a Ministra que já tem tanto para se preocupar?

Duas coisas são certas:

1 – Um intelectual não tem de ser forçosamente hábil, (como critica O.B.) nos tempos que correm. É mesmo importante que não se confunda.

2 – Este meu texto não pretende apagar ou reescrever a história.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:

Diretor artístico da Companhia de Teatro de Braga.

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