Revista Rua

2020-10-15T16:45:16+00:00 Opinião

Astérixizados

Política Internacional
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
15 Outubro, 2020
Astérixizados

As eleições presidenciais nos Estados Unidos têm provocado uma panóplia de reacções pelo mundo fora. As intervenções a que Donald Trump nos habituou, aliadas a um Joe Biden mais hostil do que nunca, são um verdadeiro motor de entretenimento que culminou num debate deplorável.

Os Estados Unidos da América são uma democracia representativa desde que a sua Constituição foi ratificada, em 1787, pelo que as eleições nunca foram um campo desconhecido dos americanos. Aliás, creio que se o típico pensamento político-ideológico lusitano fosse transversal ao planeta, ninguém teria legitimidade ou sequer coragem para questionar aquela democracia. Afinal, se tantas lições de democracia temos para dar com 46 anos, o que dizer daqueles que são uma democracia há séculos!

Ora, na esteira desse mesmo pensamento político-ideológico, nós somos o verdadeiro exemplo-mor da vivacidade democrática. O português olha para os alicerces do mundo Ocidental e vê todos os defeitos que uma ideologia assocializada poderia corrigir. O português vê nos países mais desenvolvidos do mundo uma miscelânea de pecados, que são o alvo da sua invariante preocupação, como um Astérix ansioso por perceber quando o céu poderá cair sobre a sua cabeça.

Por cá, para além dessa variante do herói, temos também as versões de Obélix e de Ideiafix. Obélix caiu no caldeirão da poção mágica quando era pequeno, o que o brindou com capacidades sobre-humanas, e é um colecionador de capacetes amolgados dos legionários romanos – despojos de guerra para nunca esquecer as suas vitórias. Ideiafix, o seu leal companheiro, é um ultra defensor da natureza e reage desesperadamente quando vê uma árvore a ser derrubada.

©D.R.

Tudo isto não me parece mau. Pelo contrário! Contudo, os irredutíveis gauleses deparavam-se com um perigo premente e aflitivo que nunca colocaram em segundo plano: a luta contra os romanos. E assim, apesar do seu constante desassossego com a possibilidade de o céu desabar, o sagaz Astérix nunca se distraiu daquilo que verdadeiramente importava. A sobrevivência do seu povo dependia disso.

Mas as incursões romanas são um problema da Gália, bem longe da Portugal. O que temos por estas bandas? Façamos o exercício de nos desfocarmos das cores vivas da banda desenhada e lancemos a lente para o campo real. O último mês foi bastante produtivo na publicitação de grandes notícias: o Novo Banco deverá precisar de mais de 475 milhões de euros, já depois dos 3.000 milhões injetados no banco nos últimos anos; o apoio do Estado à TAP pode subir para 1700 milhões; quase 400 mil famílias atrasaram-se a pagar as prestações bancárias; os contornos de uma pandemia que todos os dias nos traz uma dose extra de incerteza.

Ainda, e da uma forma peculiarmente grave, assistimos a tiques de “sovietização” de um regime. Desde a rasura de PPP’s como a do Hospital de Braga – servida como um brinde às muletas de um executivo coxo – à inédita não recondução do novo Presidente do Tribunal de Contas, contando já com o episódio da ex-Procuradora-Geral da República Joana Marques Vidal, este processo em curso parece querer o regresso ao modelo falhado do “socialismo real”, que defendia o controlo económico e social através do Estado. O resultado final é sobejamente conhecido.

No entanto, desengane-se o leitor que antecipa o esmiuçar destas questões como o busílis da questão. O ponto passa por termos indicadores que antecipam cenários negríssimos, com a distinta e vergonhosa teia de corrupção que jaz no nosso país, onde a falta de implementação de medidas de combate é tão descarada quanto embaraçosa. Isso, inelutavelmente, é independente de qualquer orientação política! Mas tende-se progressivamente a percorrer caminhos que camuflam o desinteresse e o desconhecimento (ou até mesmo a orientação política) de quem pouco ou nada se pronuncia sobre o próprio país e tanto tem a dizer sobre os outros.

Em suma, temos solução para todos os males exteriores. Idealizamos um quintal, uma aldeia, uma região e discorremos sobre o quão melhor poderia ser tudo o que nos rodeia. Mas a nossa casa… essa, fica para depois vermos o que fazer com ela. E é assim que nos vemos obrigados a focar novamente nos “quadradinhos” e ficamos Astérixizados. Com uma pequena diferença: na Lusitânia, os romanos não são levados a sério. Só estamos preocupados com o céu e com a possibilidade de nos esmagar.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories Group.

Partilhar Artigo: