Revista Rua

2020-01-28T23:13:45+00:00 Opinião

Auschwitz e ‘Des’memória

Política/Sociedade
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
28 Janeiro, 2020
Auschwitz e ‘Des’memória
©D.R.

“Uma combinação incomum de um complexo de campos industriais e uma instalação de matança”. Assim é descrito pelo Historiador Timothy D. Snyder um dos mais infames e tenebrosos locais da História: Auschwitz. Este será incontornavelmente lembrado por todos como o mais terrível campo de extermínio nazi e o símbolo primário do Holocausto.

Inicialmente, Auschwitz foi concebido como mais um campo de concentração, igual a tantos outros que o regime nazi construiu desde o início dos anos 30. E assim funcionou até ao início de 1942, quando na Conferência de Wannsee se decidiu a implementação da “Solução final” – o plano de genocídio da população judaica. A partir daquele momento, tornou-se o maior centro de extermínio da História. Auschwitz não era apenas um campo de concentração, mas antes um complexo de campos com cerca de 40km2, sendo Auschwitz II ‘Birkenau’ o local onde ocorreu o maior número de mortes.

E assim, o esforço concertado na construção de uma autêntica cidade de extermínio resultou no retrato mais esquálido do Homem: mais de 1 milhão de pessoas pereceram às mãos de um regime visceralmente funesto.

Porém, volvidos 75 anos, a comemoração da “libertação” de Auschwitz é também uma lembrança de que os equívocos relativamente à Segunda Guerra Mundial parecem não ter fim. Um dos conceitos básicos que continua errado na mente de grande parte das pessoas respeita ao enquadramento moral da guerra: tende-se a considerar que o conflito no continente europeu envolveu um regime maléfico (O Terceiro Reich), que contou com a oposição de uma coligação de aliados que lutava sob a égide da liberdade. Aqui, não devemos olvidar que Estaline e a União Soviética, tal como Hitler e os nazis, só podem inserir-se na categoria de criminosos de guerra e assassinos em massa.

O flagelo dos campos de concentração também continua a ser visto por muitas pessoas como um “monopólio” dos nazis. Torna-se imperioso enaltecer neste ponto que os “libertadores” soviéticos de Auschwitz se aplicaram na manutenção de uma gigantesca rede de campos de concentração: os GULAGs (acrónimo russo que significa «Direcção-Geral dos Campos de Concentração»), tendo mesmo aproveitado as instalações de vários campos alemães no caminho percorrido até Berlim para servir os seus propósitos (Buchenwald é um dos exemplos).

Também o “Holodomor” (Holocausto ucraniano), uma acção deliberada de extermínio desencadeada pelo regime soviético que visou especificamente matar à fome o povo ucraniano, ceifou a vida a mais de 3 milhões de pessoas entre 1932 e 1933.

Lembremo-nos ainda que todos os países localizados entre a Alemanha e a União Soviética estiveram sob o jugo destes dois gigantes. Desde logo, no início da Segunda Guerra Mundial, Hitler e Estaline “dividiram” a Polónia. Depois, tornou-se um campo de batalha durante quatro anos. Por fim, no final da guerra, nunca estes países viram garantida qualquer tipo de libertação expressiva.

Ajuizar o significado destes grandes acontecimentos requer, para além de um conhecimento minimamente aprofundado, a passagem de tempo para os digerir. Mas três quartos de século parece-me já um hiato de tempo considerável para percebermos de forma clara o significado da libertação de Auschwitz: uma abordagem comum à condenação dos crimes perpetrados por qualquer regime totalitário.

Se isolarmos a Guerra no Leste (entre a Alemanha e a União Soviética) da Segunda Guerra Mundial, mesmo assim estamos perante a guerra mais mortífera da História. E porque grande parte dos mais hediondos crimes de sempre se desenrolou naquele teatro de guerra, celebremos o fim de Auschwitz e de Babi Yar, mas também de Katyn e de Nemmersdorf. Porque esta não foi uma guerra de um lado bom contra um lado mau. Foi a guerra de um lado mau contra outro lado mau.

Que a fragilidade da nossa memória não nos impeça de celebrar em uníssono a libertação de todos aqueles que sofreram os horrores da tirania: esta foi a maior batalha da História, em que os homens e mulheres, num tempo de trevas sem precedentes, assentes nos mais elevados recursos do espírito humano, derrotaram o mal.

Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories.

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