Revista Rua

2021-12-27T16:02:30+00:00 Gastronomia, Sabores

Avianense: um saber centenário de um sabor sem igual

Um século depois da origem da Avianense, é unânime reconhecer que poucas foram as empresas nacionais a perdurar no tempo com tanta longevidade - e sucesso.
Redação2 Dezembro, 2021
Avianense: um saber centenário de um sabor sem igual
Um século depois da origem da Avianense, é unânime reconhecer que poucas foram as empresas nacionais a perdurar no tempo com tanta longevidade - e sucesso.

A Avianense é, para quem acompanhou a sua entusiasta evolução, um misto de tradição e estima por uma marca nacional que revolucionou a indústria portuguesa. Hoje, mais de cem anos depois da criação da famosa fábrica de chocolates, a Avianense apresenta-se como uma referência no mercado. Ao mergulharmos no seu vasto percurso somos convidados a viajar no tempo até aos primórdios da sua narrativa, abrindo capítulos que nos contam também o progresso do país ao longo do século.

A fábrica de chocolates Avianense foi fundada em 1914, inicialmente em Viana do Castelo, sendo a mais antiga fábrica portuguesa de chocolataria a manter-se em contínua atividade há mais de um século. Um projeto ambicioso, criado por António Lima e João Felgueiras, viria a impulsionar a indústria nacional. Nascia a Avianense, num edifício no qual hoje resta apenas a fachada principal, mas que outrora abrigava uma pequena fábrica onde acontecia a laboração dos chocolates – atingindo uma quantia de produção diária de trinta quilos de chocolate. Num rés-do-chão de um prédio havia um pequeno espaço para escritório e a restante área era ocupada com maquinaria e armazenamento, mas o suficiente para se dar início à laboração. De acordo com as tabelas comerciais da altura, a oferta ramificava-se em 12 produtos distintos, considerando que a marca nacional se destacava pelas técnicas de produção já avançadas para a época. O tempo foi passando e o negócio crescia a olhos vistos, reforçando a necessidade de ampliar as instalações, ao conquistar o mercado local – com vista na expansão da marca.

Parar era sinónimo de estagnar e, por isso, trabalhava-se de sol a sol para corresponder a todas as solicitações. No entanto, aos poucos eleva-se a necessidade de modernizar e ampliar o espaço que era até então muito limitado para a quantidade diária de produção. Conciliando a premência com a oportunidade de compra de um terreno na mesma rua, era tempo de deitar mãos à obra, ao constituir a sociedade Felgueiras & Lima, com vista na indústria do fabrico de chocolate. Começa a construção do edifício, seguindo-se a importação das primeiras maquinarias vindas da Alemanha e, pouco mais de um ano depois, a fábrica estaria a laborar em pleno. Nesta nova fábrica acontecia todo o processo, da torra do chocolate à venda em loja, que se encontrava no rés-do-chão. O edifício imponente foi regularmente alterado, no sentido de dar resposta ao crescente fluxo de produção e de vendas, mas também do aumento de funcionários.

Decorria a década dos anos vinte e a instabilidade política, que era uma constante, refletia-se em grande escala na economia das empresas, pelo que “A Vianense” – como era registada na altura – não foi exceção. A criação de novas secções laborais era necessária e a fábrica passa a introduzir a produção de massas alimentícias, que viria a solucionar a falta de matéria-prima proveniente de uma calamidade sentida na Província de S. Tomé e Príncipe, com a quebra de produção cacaueira. A Avianense ia de vento em popa e em agosto de 1934 o Ministério da Indústria autoriza a realização de torrefação de café, um licenciamento que implicou, uma vez mais, a ampliação das instalações da fábrica – que nesta altura laborava ininterruptamente vinte e quatro horas por dia. O crescimento da produção levou, por questões meramente estratégicas, à divisão de responsabilidades por parte dos dois sócios, ficando António Lima a cargo da indústria de chocolates e João António Felgueiras com as massas alimentícias. Com a dissolução da sociedade, António Lima cria uma nova com a sua esposa, Antónia de Barros Lopes, denominando-se Felgueiras & Lima Suc, que viria a dar continuidade à produção de chocolate, torra de café e cevada. António Lima acabaria por falecer em 1961.

©Nuno Sampaio

Já nos finais da década de quarenta, para facilitar a distribuição dos produtos pelo país, são abertos depósitos no Porto e em Coimbra, a par do lançamento de novos produtos. Surgem as tradicionais moedas de chocolate, as violas, as garrafas e os icónicos bombons Imperador. É também nesta altura que a marca anuncia os famosos sorteios de bolas coloridas em caixas com pequenos furos – um conceito que rapidamente se espalhou pelo país. Um momento também muito popular foi o lançamento dos primeiros calendários de bolso da empresa, que no ano seguinte já eram apresentados em versões maiores e mais tarde viriam acompanhados de um memorando à população. A Avianense passou a marcar presença e a associar-se a várias datas celebrativas – não só em Viana do Castelo – expandindo a sua oferta a mais regiões.

Atualmente, é Luciano Maciel da Costa, natural de Barcelos, a assumir a gerência da Avianense, que inscreve a marca a seu favor no Instituto Nacional da Propriedade Industrial em 2005, dando início à atividade fabril numas instalações em Durrães (Barcelos). A marca passou a ser publicitada em diversos meios de comunicação, como no Jornal de Notícias e no programa O Preço Certo, da RTP, estando ainda presente em várias feiras internacionais. A expansão da visibilidade da marca foi notória, levando à edificação de uma nova fábrica num terreno à disposição do Município de Barcelos. É dentro destas novas instalações que é produzido o famoso Bombom Avianense, feito com chocolate negro, que é um dos destaques da marca desde 2008.

A aquisição da marca Avianense por parte de Luciano Costa reiterava inicialmente um interesse meramente estratégico, mas o formidável acervo da marca estimulou a concretização de outros projetos que visavam a partilha da história e do percurso da marca com o público. Surge assim a ideia de abrir um museu, em 2016, onde é hoje possível conhecer todo o processo laboral da fábrica, desde as máquinas em pleno funcionamento ao manuseamento personalizado. A visita pelo museu passa ainda pelo auditório, no qual é projetado um filme que inclui depoimentos de antigos obreiros desta indústria, bem como a história da Avianense. É uma viagem cronológica que nos descreve, não só a evolução da empresa, como da própria indústria em Portugal. Atualmente, é possível encontrar os produtos Avianense à venda nas instalações fabris da marca e em vários pontos de venda selecionados, desde hipermercados a lojas locais, de norte a sul do país.

Um século depois da origem da Avianense, é unânime reconhecer que poucas foram as empresas nacionais a perdurar no tempo com tanta longevidade – e sucesso. Hoje é muito mais do que uma fábrica de chocolates, é um património que se manteve inalterável com o passar dos anos e cujo prestígio é ainda hoje amplamente reconhecido.

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