Revista Rua

2019-05-17T17:24:57+00:00 Opinião

Baby TV e outras considerações

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
17 Maio, 2019
Baby TV e outras considerações

Cumpriram-se sete meses desde que fui tio pela primeira vez. E única vez, porque não dava tempo para ser novamente. Como sete meses é uma data redonda, acho que é altura de fazer um balanço do que se passou até agora.

Os primeiros tempos foram os de maior interação, porque só via a criança a dormir. Como sou muito calado, era vantajoso. Depois, ao fim de um mês, ele começou a reconhecer-nos, é uma alegria grande quando se começa a rir para nós. Porém, vem com a contrariedade de o bebé, sim senhor, reconhecer a nossa voz, mas o nosso tom normal não é aquele, nem nós passamos os nossos dias a dizer “será que tem um xixi? Quer uma maminha, quer?” nesse mesmo tom. É um combo para o qual não estava preparado e continuo a não estar. E acho mal andarmos a enganá-lo com estas vozinhas.

Em termos de linguagem, estamos agora na zona do “ááá, ééé, brrrrr, prrrrr, tataaaa”, onde já me sinto mais confortável, de modo que estabeleço boas conversas com o meu sobrinho. Ele ri-se bastante, portanto deduzo que gosta das nossas eloquentes trocas de impressão.

Outra fase importante é a de pegar ao colo. No primeiro mês, terei pegado na criança uns… 11 minutos. Foi por aí. “Põe sempre uma mão na cabecinha” continua a ser uma frase algumas vezes proferida quando estou com o Afonso ao colo. Tipo, tenho 27 anos, há muito que sei que é para pôr a mão na cabecinha, agora na cinturinha, põe a mão lá na perninha, vai acima, vai abaixo, vai acima, vai abaixo. Caramba, citação de música popular, assim, do nada!

Mas pronto, agora já tenho jeito para pegar na criança, a dificuldade passou a ser o peso, a irrequietude do pequeno ser humano, que quer mexer em tudo e não tem a destreza de ir lá sozinho, embora já tenha idade para isso, e o facto de claramente não sair ao tio, porque nunca quer estar sentado. Mas quando se põe a puxar-me a barba e o cabelo, fica tudo bem.

Contudo, tenho de registar aqui que possuo algumas reticências quanto ao facto de ele comer papaia. Espero que não me trate por você, quando começar a falar, e que não ande com um pullover pendurado nos ombros.

Etapa importante é também o dar de comer. Além de alegadamente, muito alegadamente, os madeireiros andarem a pedir encarecidamente a pessoas para que ateiem incêndios, também devem pedir encarecidamente a outras pessoas para que façam bebés. Porque o que a gente gasta de guardanapos de papel para o limpar, durante e depois de uma refeição, com certeza está a enriquecer muita gente. Pronto, a minha função é basicamente essa, manter o bebé limpinho e tentar manter-me limpinho, também, porque descobri que a sopa dos bebés tem vida própria e cria manchas na nossa roupa, instalando-se em sítios em que a nossa roupa nem sequer tocou. É um fenómeno parecido com o das meias que desaparecem na máquina de lavar. Contudo, tenho de registar aqui que possuo algumas reticências quanto ao facto de ele comer papaia. Espero que não me trate por você, quando começar a falar, e que não ande com um pullover pendurado nos ombros.

Todas estas etapas ocorrem durante o visionamento dos programas da Baby TV. Os canais de desporto continuam a ter a maior audiência aqui em casa, mas a Baby TV vem logo a seguir. Sei mais canções dos programas da Baby TV do que canções recentes que passam na rádio. “Com um novo dia a chegar, desperta, toca a levantaaaar”, como não amaaaar? Charlie e o Abecedário, bem como Charlie e os Números, são outros programas recomendáveis, porque o Charlie é uma criança constantemente sob o efeito de comprimidos para a rinite alérgica. Já a Pequena Lola é uma criança que anda nos ácidos e que se ri constante e irritantemente com os animais faladores que são amigos dela. Saudades de quando o meu cérebro era usado apenas para decorar os plantéis do Brasileirão? Algumas, mas a vida também é isto.

Outro clássico, em que felizmente não tenho muita intervenção, a não ser para aproveitar para falar com ele e preparar as coisas para que alguém faça o que tem de ser feito, é a mudança de fraldas. Já ando há anos a aguentar com a porcaria dos outros, não sou obrigado a limpar a do meu sobrinho. Mas carrego para o caixote do lixo.

Mesmo com todas estas “chatices”, as vantagens são muito maiores e ser tio é um espetáculo, digo eu. Deviam experimentar. Nota 9/10, recomendo!

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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