Revista Rua

2020-11-12T10:18:16+00:00 Cultura, Fotografia

Balada dos dias que correm por André Cepeda

A fotografia de André Cepeda não é particularmente contrastante, mas tem antes um singelo jogo de sombra e luz que dá sentido e intensidade ao que se quer mostrar.
Helena Mendes Pereira
Helena Mendes Pereira12 Novembro, 2020
Balada dos dias que correm por André Cepeda
A fotografia de André Cepeda não é particularmente contrastante, mas tem antes um singelo jogo de sombra e luz que dá sentido e intensidade ao que se quer mostrar.

A exposição individual de André Cepeda (n.1976) no MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), em Lisboa, intitulada Ballad of Today, é uma imersão emocional na cidade que poucos veem. Com a normalidade de quem quer saber mais e transportar-se de um conhecimento abstrato e especulativo sobre algo ou alguém, na iniciativa do convite que o artista me fez para experienciar, com ele, a exposição, adivinhei e senti que a vontade traria consigo a surpresa e o positivo encantamento da descoberta. Fui ver.

Composta por cerca de 80 fotografias de diferentes formatos e duas instalações áudio-lumínicas, desenvolvidas em parceria com Gabriel Ferrandini e Maria Reis, a expografia dispõe-se ao ritmo de um gabinete de curiosidades, numa narrativa que trabalha entre a presença e a ausência do humano explícito, num exercício ousado e audaz de preto e branco e cor. Não obstante, nos trabalhos em que impera a cor, há uma sugestão clara de paleta que nos induz na neblina nostálgica dos dias em busca de nós mesmos, à procura do nosso próprio emparedamento, num vazio cognitivo de alma em ruínas.

O tempo da investigação supera o prelúdio mas dir-se-ia que estão três anos de trabalho no conjunto exposto. É como se André Cepeda, que fotografa no silêncio e na paciência do tripé que espera o tempo certo, tivesse passado os dias, as noites, as madrugadas e os crepúsculos no olhar atento dos recantos sem charme da urbe invisível. É Lisboa mas podia ser Belém, em terras da Palestina. A ruína e o inacabado são iguais em todo o lado porque são um sentimento, como se aquele espaço-tempo fotografado fosse no man’s land, terra de ninguém, mas habitada pelas almas que se aparentam perdidas, mas que estarão mais encontradas do que nós, reles privilegiados que observam com distância.

A fotografia de André Cepeda não é particularmente contrastante, mas tem antes um singelo jogo de sombra e luz que dá sentido e intensidade ao que se quer mostrar. I will never surrender são talvez as únicas palavras que emergem do todo, síntese possível daqueles dias, diante do Tejo e na Lisboa que ferve em criação, em que me senti e vi comigo mesma e reafirmei este compromisso de continuar. Creio que é esta a linha muito particular entre o que é e não é uma obra de arte: quando sai do artista e entra em nós, nos penetra como uma noite de paixão feroz sem dia seguinte.

Saí do Museu da Eletricidade, mais concretamente, na perturbação de me ter visto ali e na certeza de ter privado com mais um maravilhoso artista. Estar no lugar certo à hora certa. Obrigada, André.

Sobre a autora:
Curadora e Professora

Partilhar Artigo:
Fechar