Revista Rua

Beatriz Batarda: “O conceito de ilusão vive nas pessoas de formas diferentes”

Estivemos à conversa com Beatriz Batarda, no Espaço Oficina, em Guimarães.
Beatriz Batarda | Fotografias ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto15 Junho, 2022
Beatriz Batarda: “O conceito de ilusão vive nas pessoas de formas diferentes”
Estivemos à conversa com Beatriz Batarda, no Espaço Oficina, em Guimarães.

Uma das atrizes mais prestigiadas do universo artístico português, Beatriz Batarda é também encenadora e há mais de uma década que emprega todo o rigor e verdade que a definem no papel de pedagoga. Se já era uma influência nacional e internacional, enquanto professora de interpretação tornou-se numa referência para jovens artistas, a quem desafia a percorrer um caminho de autodescoberta até a um lugar limpo e livre de ideias pré-concebidas (e não questionadas): o pensamento independente.

Estreou-se muito nova em cinema num filme de João Botelho, a quem se seguiram nomes incontornáveis na produção artística: Manoel de Oliveira, Cláudia Varejão, Margarida Cardoso, Teresa Villaverde ou João Mário Grilo, entre tantos outros portugueses e internacionais, como Stan Douglas e Bille August. Chegou aos ecrãs recentemente no papel principal em Sara, uma sátira às contradições do meio audiovisual, em particular da televisão, que resultou numa brilhante série televisiva realizada por Marco Martins, mas também aos palcos com Orgia, uma tragédia moderna sobre os impulsos obscuros que moldam o ser humano (partindo das inquietações do poeta e realizador italiano, Pier Paolo Pasolini), de Nuno M. Cardoso.

Sentámo-nos à conversa com Beatriz Batarda a meio de uma ronda de jornadas de teatro que agitaram o Espaço Oficina, em Guimarães, para falarmos de verdade, de amor, de medos e de ilusão.

Apanhamos a Beatriz no decorrer de uma série de jornadas de teatro dirigidas a profissionais do setor, em início de carreira. Há mais de dez anos que o trabalho da Beatriz passa pela formação e tem sido uma forte aspiração para jovens artistas. Verdade?

Eu dou aulas há 16 anos. Comecei numa altura em que senti que já tinha percebido muitas coisas. Durante muito tempo, no meu percurso profissional, estive preocupada em perceber como é que se fazia e fui aceitando uma série de fatores que estão fora do meu controlo enquanto artista e intérprete. Fui aperfeiçoando e criando o meu método de trabalho, dando respostas a mim mesma. Senti que precisava de organizar a minha cabeça com aquilo que eu estava a trabalha e foi assim que surgiu a vontade em dar aulas, porque obriga-me a organizar o pensamento.

Numa primeira fase os alunos eram interlocutores que me colocavam à prova e a minha relação com o ensino era ainda muito infantil, porque era para me resolver, mas gradualmente fui apanhada numa teia – que se chama a teia do amor – e comecei a descobrir a beleza do início, do outro, com muita admiração pela entrega, pela generosidade e, principalmente, pela fé que depositavam em mim. Fui ganhando muito respeito pelos alunos. E aqui não se pode confundir respeito com facilitismos ou em dar abébias, porque sou uma professora dura e não reajo nada bem a pessoas que não estão na mesma viagem que eu, porque o meu tempo é o meu trabalho e levo-o muito a sério. Sou muito dura com pessoas que não estão a dar tudo, que até pode ser pouco, mas que seja o melhor que conseguem naquele momento.

Não há fórmulas para o sucesso, mas de que forma aplica a sua experiência em teatro, cinema e televisão como um contributo para quem está a começar?

A partir de um momento são viagens separadas. Quando tomei consciência das necessidades do aluno, separei a minha viagem artística do trabalho enquanto pedagoga. Estou num sítio muito diferente e não posso usar o aluno para resolver os 20 passos à frente em que eu estou. Tenho que aceitar que o aluno tem um tempo e está num determinado sítio. E os tempos são diferentes. A contemporaneidade e a realidade são diferentes. A exigência também é diferente, porque é outra pressão – não sei se é maior, mas é mais ansiosa, porque há muitos fatores condicionantes no momento. Esta promiscuidade entre as redes sociais e o direito ao lugar no mercado de trabalho é doentia e provoca ansiedade e estados depressivos ao artista, que é um ser que deve estar em contacto com uma certa verdade e que é violentando por fatores tóxicos que nada têm que ver com o processo artístico. Nesse aspeto, estão muito mais expostos.

Quando era jovem atriz, havia crítica de teatro e de cinema, coisa que não existe neste momento, mas em contrapartida agora toda a gente pode fazer comentários – não necessariamente enquanto crítica – ignorantes, preguiçosos e desinformados que servem o objetivo de achincalhar ou desvalorizar o outro, através das redes sociais. Não estávamos expostos a esse ataque aberto na praça pública do mundo virtual.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Sou uma professora dura e não reajo nada bem a pessoas que não estão na mesma viagem que eu, porque o meu tempo é o meu trabalho e levo-o muito a sério.

Ao acompanhar a formação de atores, encenadores e criadores, consegue ter uma perspetiva de evolução do próprio setor de produção cultural em Portugal. Hoje, é mais fácil seguir um caminho profissional nas artes? Há mais oportunidades – quer na formação como no mercado de trabalho – em Portugal?

Pensou que tudo cresceu. Cresceu a qualidade na formação. Cresceu a oferta na formação (há mais escolas e algumas muito boas, como a ESMAE), mas este crescimento das escolas foi uma invenção em resposta a um mercado que se anunciava crescer. Perante essa iminência de um mercado em crescimento nos anos 90, era evidente que não ia estagnar e, portanto, começaram a estruturar-se profissionais para darem formação e não deixar que o mercado andasse ao sabor do “nascimento espontâneo” de artistas. Criámos profissionais com instrumentos para produzir e dar resposta à necessidade de um mercado para ser consumido: o mercado da cultura e respetivos caminhos, desde experimentais a de entertainment.

Considera então a profissionalização sempre necessária para dar resposta às exigências do mercado?

O que a profissionalização fez com a formação foi garantir a promessa de que o ator ou o artista de espetáculo fica preparado para dar resposta aos vários formatos da cultura. E depois, consoante a sua identidade que se vai definindo (a nível artístico e pessoal), vai-se encaminhado por um desses formatos com mais assiduidade ou, então, saltitar entre diferentes linguagens, se essa for a sua identidade. Acho que nós, formadores, passamos instrumentos de saúde para o corpo na sua totalidade – incluo a mente, o intelecto e a inteligência emocional – que permitem ao artista também fazer uma limpeza e voltar a ligar-se a si próprio. Porque é difícil entrar e sair do La La Land. Vamos perdendo essa agilidade e é importante termos recursos para nos irmos “limpando”.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“De que nos serve a ilusão” é o nome do workshop que a Beatriz traz à discussão nos Festivais Gil Vicente. O que procurou explorar?

O conceito de ilusão vive nas pessoas de formas diferentes. Quis trazer essa ideia para a nossa discussão, enquanto resposta ao estado em que os jovens artistas estão como resultado da pandemia. A crise económica, seguida da pandemia, seguida da Guerra na Ucrânia (ou melhor, na Europa) veio disparar os níveis de ansiedade, abriu portas ao medo e às inseguranças. Uma das qualidades mais importantes na vida de um artista é o acesso à melancolia, que é um estado sereno de contemplação, de reflexão e de interesse e, quando essas inseguranças ganham proporções descontroladas, essa melancolia é contaminada por outra cor mais sombria que se chama depressão. É mais difícil sair daí.

A nossa sociedade organiza-se na ilusão de que o capitalismo “é que é” e para podermos acompanhar fazemos uma série de coisas que não seriam necessárias se trabalhássemos a origem dos problemas. Acho que esta juventude desaprendeu a espantar-se e a acreditar na ilusão, que mesmo que cause desilusão é “onde nasce a ideia que nos conduz à evolução”. Não há evolução sem uma ideia e essa ideia nasce sempre de uma ilusão. É fundamental para nos salvarmos, a nós próprios e enquanto coletivo.

Com as pressões do mercado, os jovens levantam questões como: “Mas para quê?”; “Porque é que estou a fazer isto se sou só um produto ou até um cachê?”. Perdem o objetivo e ficam consumidos pelas suas inseguranças. É importante devolver-lhes o sentido de rumo. Nós [artistas] somos os construtores da ilusão. Não é a ilusão do sistema económico, mas na linguagem da elevação e da poética que nos liga à verdade de quem nós somos.

Neste sentido, é necessário alargar a oferta de lugares de pensamento e de conhecimento acessíveis, promovendo mais oportunidades? Ou seja, é urgente investir numa cultura que seja de e para todos?

E numa educação também, que seja de e para todos. O sistema educativo, na forma como está estruturado e como tem vindo a abandonar algumas disciplinas (nomeadamente as expressões artísticas), veio anulando o exercício do pensamento próprio. Os alunos são avaliados pela capacidade de decorar matéria, ao invés de compreender e questionar…isso não é valorizável. Com isso, vão desistindo de pensar, adormecendo a cabeça no scroll.

Deixam de sentir que têm lugar?

O mundo também lhes diz que não é o seu lugar. Às tantas, mais vale “só fazer”. Acho que o ator, mesmo aquele que não tem pretensão de ser artista, tem que ter ponto de vista e, para mim, representar é exatamente isso. A única diferença entre mim e a personagem é que mudamos o olhar e a perspetiva sobre as coisas e não posso contaminar as personagens com o meu olhar sobre o mundo. E para conseguir fazer esse exercício de construir uma existência com uma opinião é preciso trabalhar muito o corpo – e a cabeça – e a primeira coisa é aprender a pensar. Se não devolvermos aos jovens artistas, intérpretes e criadores esse estímulo à capacidade de pensar e lhes dizermos “Sim, há lugar para ti e para o teu pensamento”, vão habituar-se a fazer cópias de comportamentos cognitivos.

Vamos perdendo o significado daquilo que estamos a fazer. Parte do trabalho que procuro desenvolver com os alunos é restituir a noção de que podem inventar, se aprenderem a pensar outra vez.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Não há evolução sem uma ideia e essa ideia nasce sempre de uma ilusão. É fundamental para nos salvarmos, a nós próprios e enquanto coletivo.

A arte deve ser ativista e de intervenção? Deve assumir necessariamente esse papel?

Para mim, a arte é um verbo e não um resultado. Esse verbo varia de significado consoante a sua contemporaneidade, ou seja, se no momento presente estou a pintar um estilo impressionista é amador da minha parte, não existe, porque está descolado da sua contemporaneidade. É uma repetição de alguma coisa que já foi inventada. Para que esse verbo tenha expressão tem de estar na temperatura da sua atualidade. E a nossa atualidade é esta: estamos num momento de rutura, com uma série de hábitos que se foram instituindo na linguagem e que é secular. É urgente a rutura com esses hábitos, porque o próprio planeta está a exigir. Mas só vamos conseguir estar todos nesse problema se conseguirmos ultrapassar outros antes. Por isso é que está a aquecer muito.

É difícil não politizar um gesto artístico, mesmo quando fazemos um gesto como exercício de beleza e de exaltação do belo para dizer ao mundo que o belo existe e que é importante olhar para ele também acaba por ser um gesto político. Se o papel da arte é colocar a lupa na urgência desse ativisto, porque não?

Numa fase ainda frágil, é dúbio tentar perspetivar com clareza o futuro do setor, em termos de produção e de consumo. Mas considera que estamos num bom caminho? Vê o futuro das artes e da cultura com esperança?

O futuro é sempre bom. Esperávamos todos era que não tivesse de implicar tanto sofrimento e que a transição fosse mais doce, mas o sacrifício acelera a transformação. Só espero que aquilo que as pessoas estão dispostas a sacrificar sejam as coisas mais acertadas e o mais sereno possível, por uma liberdade com respeito.

E esse sacrifício chega a ser recompensado? 

A retribuição não existe. Acho que não podemos estar à espera do agradecimento porque não virá nunca, basta ler três biografias de artistas para saber isso. Temos todos o desejo de nos imortalizarmos ou deixarmos uma pegada no mundo, mesmo que seja invisível. O universo é muito maior e mais antigo do que nós e aceitando a nossa proporção, questiono: “Vamos viver sem dar significado à vida?” Todos queremos dar um significado e encontramos sempre forma de o fazer, nas pequenas e nas grandes coisas. Não têm de ser sempre grandes causas.

Na beleza das pequenas coisas também queremos atribuir significado. E essa é uma das primeiras manifestações da espécie humana.

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