Revista Rua

2022-12-16T15:21:41+00:00 Cultura, Em Destaque, Literatura

Bem-vindos à Aldeia das Almas Desaparecidas, de Richard Zimler

Richard Zimler e as lições que a História nos tem de trazer. Uma entrevista em altura do lançamento do novo livro, que se apresenta como a primeira parte de uma saga familiar.
Richard Zimler ©D.R.
Cláudia Paiva Silva16 Dezembro, 2022
Bem-vindos à Aldeia das Almas Desaparecidas, de Richard Zimler
Richard Zimler e as lições que a História nos tem de trazer. Uma entrevista em altura do lançamento do novo livro, que se apresenta como a primeira parte de uma saga familiar.

Richard Zimler dispensa apresentações. Norte-americano nascido em Nova Iorque no seio de uma família judaica, cosmopolita e moderno, viajado e sabedor, atravessou várias revoluções culturais e geopolíticas, tendo acabado por encontrar o amor em terras do Porto, deste lado do Atlântico.

Aproveitando o embalo com o lançamento do seu novo livro A Aldeia das Almas Desaparecidas – A floresta do avesso, o primeiro de dois volumes que traz novamente a família Zarco ao papel, numa história que explora os efeitos devastadores da intolerância religiosa na aldeia de Castelo Rodrigo e povoações adjacentes, a Revista RUA fez algumas perguntas ao autor. Uma conversa que aborda as questões da atual política internacional à tradição portuguesa, do papel das Mulheres na sociedade medieval e para os seus Direitos à luz dos dias de hoje, mas principalmente para a real importância que a sociedade tem na obrigação de preservar e saber contar os reais factos que fizeram a nossa História.

Para Richard Zimler, a educação é a preservação da Memória, em qualquer cor política ou religiosa. Sem isto, muito dificilmente conseguiremos sobreviver.

É sempre (e sempre será) inevitável fazer comparações. Embora a perseguição aos judeus seja um tema muito particular na História Mundial, de que forma poderemos fazer uma ponte entre esses acontecimentos e o que observamos hoje em dia com o crescente discurso totalitário na Europa (e no Mundo)?

Ao longo da História, os seres humanos tenderam a formar grupos, tribos ou comunidades baseadas na sua etnia ou religião ou língua. Isso inculca neles uma perspetiva de “nós” e “eles”. Isto quase sempre envolve desconfiança ou medo ou até mesmo ódio daqueles de fora do grupo. Por sua vez, eles desenvolvem um padrão de moralidade para os indivíduos que fazem parte da sua comunidade e outro – geralmente mais violento, hostil e até assassino – para aqueles fora da comunidade. Essa “mentalidade tribal” – como às vezes a chamo – tende a vir à tona em situações de instabilidade. As pessoas que se sentem perfeitamente satisfeitas vivendo num ambiente multicultural e inclusivo durante tempos de paz, muitas vezes recorrem à sua antiga perspetiva de “nós” e “eles” quando confrontadas com um conflito político ou uma crise económica. Em consequência, começam a desconfiar de qualquer pessoa que não seja da mesma etnia, orientação sexual ou religião. Além disso, também podem ser encorajados a recorrer a essa mentalidade de exclusão por líderes inescrupulosos que desejam obter mais poder e influência. E que desejam convencer os eleitores a conceder-lhes mais poder – que é do interesse dos votantes ter uma forma totalitária de governo. Porque só assim, dizem eles, vão poder derrotar os “inimigos” da “nação”. Vemos esta estratégia com Trump e o Partido Republicano. Aproveitaram a identidade de grupo dos americanos cristãos e brancos e de classe média para convencê-los de que deveriam temer imigrantes, afro-americanos, pessoas LGBT e muçulmanos. No que diz respeito ao antissemitismo, muitos desses mesmos líderes populistas – como Viktor Orban – descobriram que é muito útil mentir para os eleitores e convencer-lhes que os judeus representam uma ameaça para o seu país. Esses líderes desenvolveram variantes de velhas teorias da conspiração – que datam da Idade Média – para tentar persuadir os eleitores de que os judeus querem destruir o país e minar o domínio da estrutura de poder cristã branca na Europa e na América. Será que preciso de dizer que esta mesma mentira odiosa levou diretamente ao assassínio de seis milhões de judeus nos campos de extermínio nazistas?

Para quem é apaixonado pela História de Portugal, e quem goste de perceber as nossas origens, torna-se quase obrigatório conhecer a zona do centro interior e raia portuguesas. O que se sente quando se pisa território que fez parte da comunidade sefardita, como Castelo Rodrigo, Belmonte, Castelo Branco, Castelo de Vide, e tantas outras terras? O que o inspira a escrever sobre estas regiões?

Antes de o rei Manuel obrigar todos os judeus a converterem-se ao cristianismo em 1497, os judeus viviam – e praticavam a sua fé – em todas as aldeias, vilas e cidades de Portugal. Em consequência, onde quer que viaje pelo país, sei que outrora houve sapateiros, mercadores, parteiras e costureiras judeus a viver nas ruas por onde ando. Uma pergunta que quase sempre me faço quando escrevo sobre um belo sítio como Castelo Rodrigo é: o que é que os fantasmas judeus que viviam nas casas ao meu redor me perguntariam se pudessem falar comigo? O que pediriam a todos os portugueses e até aos estrangeiros que visitam a sua aldeia? Acho que pediriam, antes de tudo, para serem lembrados. E provavelmente gostariam que todos nós soubéssemos que eles eram exatamente como os seus vizinhos cristãos em todos os aspetos importantes – com os mesmos desejos, medos e esperanças. Os mais determinados e transtornados entre eles também poderiam implorar-nos para entendermos e apoiarmos aqueles que são diferentes de nós – para evoluir além da nossa “mentalidade tribal” e aceitar pessoas de todas as fés, etnias e sexualidades. Por último, provavelmente diriam para sempre votarmos contra qualquer líder que tente convencer-nos de que um grupo religioso ou étnico é melhor do que os outros. Por isso, quando escrevo os meus romances – e especialmente no caso de A Aldeia das Almas Desaparecidas – ouço atentamente estes fantasmas e tento contar a sua história da forma que eles mais gostariam que fosse contada. E assim são as suas vidas – e a injustiça de serem vítimas do ódio e da intolerância religiosa – que me inspiram.

Para um norte-americano que, presumo, se tenha apaixonado por Portugal, quanto consegue identificar da cultura judaica no nosso dia a dia ainda? A avó do personagem principal (no meio de tantas outras personagens que fazem parte essencial do enredo), Flor, parece representar ainda algo muito enraizado nas aldeias mais antigas e tradicionais – as antigas curandeiras, que diziam lengalengas, e que “curavam” os males das crianças. Consegue-se ainda encontrar estes detalhes hoje em dia, ou estão já completamente perdidos? 

A minha perspetiva é que a Flor é representativa de uma sabedoria feminina que já existia na Europa nos tempos dos Gregos e Romanos. Nos séculos passados, as mulheres não tinham a possibilidade de se tornarem médicas ou boticários, então os seus conhecimentos de como usar folhas, flores, cascas e raízes para curar doenças era transmitida oralmente de mãe para filha. Como a Igreja condenava a sua sabedoria como bruxaria, o seu trabalho era frequentemente praticado longe das autoridades locais. Desde 1536, quando começou a Inquisição, até ao início do século XIX, quando terminou, o Santo Ofício em Portugal e na Espanha condenaram curandeiras como bruxas. Foram encarceradas e às vezes queimadas vivas em espetáculos públicos. Para a hierarquia da Igreja, esta era uma forma muito útil de manter o poder sobre as mulheres. No caso dos cristãos-novos, as curandeiras tiveram de esconder os seus conhecimentos ainda mais do escrutínio público – atrás de portas trancadas e cortinas fechadas. O Santo Ofício considerou essas mulheres hereges altamente perigosas por duas razões – o seu judaísmo e os seus conhecimentos médicos. Hoje em dia, a sua sabedoria vive nas aldeias e vilas na forma de curas tradicionais que envolvem o uso de plantas locais. E como muitas dessas plantas se mostraram essenciais no desenvolvimento de novas drogas e medicamentos, os seus conhecimentos perduram no trabalho de pesquisadores científicos, médicos e enfermeiros. Uma parte significativa dos remédios usados ​​para aliviar sintomas de gripe, doenças cardíacas e a doença de Parkinson, por exemplo, tem origem em plantas.

Qual a melhor forma de preservar as tradições e evocar a História de forma a explicar e contextualizar todos os eventos passados e recentes? Será uma coisa que deverá passar pelo ensino escolar, ou educando desde um contexto familiar? 

Nem todas as tradições merecem ser preservadas, na minha opinião. Por exemplo, a tradição de excluir mulheres de certas profissões não faz sentido nenhum e devia acabar. Talvez seja óbvio dizer isso, mas acho que vale a pena não valorizar uma tradição simplesmente por ela ser velha e típica de um país.  Quanto à História, penso que devia ser ensinada nas escolas de uma forma inclusiva. O que quero dizer com isso? Um exemplo: podemos ensinar o período colonial da perspetiva não só dos colonos portugueses (a expansão portuguesa), mas também dos povos indígenas. No caso do judaísmo, acho que podia ser importante ter aulas sobre a comunidade local – os judeus e cristãos-novos que viviam na cidade ou vila em que a escola se encontra. Por exemplo, em Castelo Rodrigo, as escolas podiam ter aulas sobre a sua própria comunidade de judeus e, depois de 1497, a comunidade de cristãos-novos. Uma maneira fascinante de fazer isso seria identificar as personalidades mais marcantes.  Por exemplo, o médico de Rembrandt, o famoso pintor holandês, era um judeu de Castelo Rodrigo, Ephraim Bueno. Ter aulas sobre o percurso do Bueno, focando a sua vida em Amsterdão, seria maravilhoso.

 

Quando é que podemos ver a Família Zarco atravessar o Atlântico para terras brasileiras? Sabendo que no sertão nordestino a mistura judaico-cristã se mantém muito melhor preservada do que em Portugal, teremos algum dia um romance com essa diáspora? 

É uma excelente ideia contar uma história da família Zarco no Brasil, pois a história dos judeus naquele país é fascinante. E há tantos locais maravilhosos para os quais eles imigraram, desde Manaus a São Paulo. Talvez um dia comece a fazer mais pesquisa sobre eles. Mas não tenho uma estratégia para a minha carreira e não posso prever o que vou escrever.

Partilhar Artigo: