Revista Rua

2020-01-09T16:43:44+00:00 Personalidades

Benedita Pereira, um furacão de vontades

A atriz é a eterna "Joana" da série Morangos com Açúcar e está em entrevista na RUA.
Fotografia Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira20 Dezembro, 2019
Benedita Pereira, um furacão de vontades
A atriz é a eterna "Joana" da série Morangos com Açúcar e está em entrevista na RUA.

A vontade de fazer tudo, de fazer bem e de fazer outra vez, mas de modo diferente. Talvez esta seja uma das melhores descrições que podemos fazer de Benedita Pereira, a eterna Joana de Morangos com Açúcar. De regresso a Portugal a tempo (quase) inteiro, após anos em Nova Iorque em busca de um sonho que, se calhar, já conquistou, Benedita Pereira está na RUA para falar de tudo aquilo que a move: a comédia, o drama e o amor, as raízes portuenses e as paixões lisboetas… tudo com muitas gargalhadas à mistura!

Esta entrevista é parte integrante da Revista RUA #33.

Fotografia Nuno Sampaio

Nas nossas pesquisas, encontrámos várias descrições da Benedita, mas a que mais gostamos é “furacão Benny”. O que querem dizer com isto? Quem é Benedita Pereira?

(risos) Eu acho que, se calhar, até fui eu que me autointitulei isso. Porquê? Porque eu tenho muita energia! Tenho um efeito furacão… por onde eu passo, nada fica igual (risos) Acho que esse título surgiu na altura em que eu estava nos EUA. Quando eu vinha cá, eu anunciava a minha chegada, no Facebook, dizendo que o “furacão Benny” estava a caminho. A verdade é que eu tenho muita energia e eu acho que isso é bom, apesar de, às vezes, ser desgastante – para mim e para as outras pessoas. É uma energia que vem com muita vontade: tenho muita vontade de fazer coisas, tenho muita vontade de animar as pessoas sempre, de fazer rir. Sempre que estou a trabalhar num plateau, tenho sempre quase que uma obrigação de fazer com que toda a gente esteja bem – é uma coisa que sinto dentro de mim. Quero que toda a gente esteja bem e, então, procuro arranjar uma maneira de fazer toda a gente rir, de aliviar as tensões. Eu sei que não é bem essa a minha função, mas tenho sempre essa vontade. Nota-se a minha presença! (risos) Acho que a minha essência é um bocadinho essa.

É bem-humorada e isso é visível para quem a acompanha diariamente nas redes sociais ou até nos programas de televisão de entretenimento, como o caso do Lip Sync Portugal. A aproximação ao público português, seja no registo das redes sociais ou da participação em programas, faz sentido para si?

Eu levo a minha energia para qualquer lado! O caso do programa Lip Sync Portugal foi engraçado porque o lip sync é, para mim, verdadeiramente, uma paixão. Nas minhas festas de anos faço concursos de lip sync, sempre fui fã do programa americano e sempre que me cruzava com produtores de televisão dizia sempre para fazerem aquele programa. Eu nunca gostei muito dos programas das danças e outras coisas com famosos, mas esse programa em particular, em que não nos levamos demasiado a sério, eu sempre gostei. Acho que é esse o meu lema: não me levar demasiado a sério. Por um lado, eu trabalhei imenso e quis mesmo fazer aquilo bem; mas, ao mesmo tempo, nunca tive medo de fazer figura ridícula. Não me importo nada de parecer feia ou de parecer estranha. Gosto de servir o propósito! Não é a questão de ganhar ou não ganhar. É a questão de fazer bem, de entreter as pessoas. E entreter as pessoas dá muito trabalho! (risos) Acho realmente que tenho este lado de entertainer dentro de mim. Como eu disse, eu levo muito a sério a minha carreira e a minha parte artística, mas, depois, a minha maneira de ser é muito efusiva! (risos)

A Benedita é natural do Porto, embora o sotaque não seja notório. Esta ideia de “furacão” vem com as raízes nortenhas?

Sim, sim! E digo muitos palavrões (risos) Os palavrões ficaram, mas a parte do sotaque tive de adaptar. Quando vim para Lisboa, tive de fazer personagens que não eram do Porto e era importante eu conseguir naturalizar o sotaque. Mas gosto de o pôr, muitas vezes. As pessoas estranham porque ninguém (ou quase ninguém) consegue fazer um sotaque do Norte… a menos que seja do Norte! Quando sou eu, sai natural. Aliás, se eu me irrito ou se estou com os meus pais ou alguém do Porto, começo a ficar logo com sotaque. Mas gosto de fazer sotaques de outras raízes também. Quando fui para os EUA, havia muito a questão do sotaque, do parecer americana a falar. Logo no início, disseram-me que se eu queria trabalhar lá, tinha que trabalhar o sotaque. Só que, com o tempo, começou a haver necessidade de pessoas com sotaques de outros países, como o sotaque espanhol em inglês, o sotaque brasileiro em inglês… Basicamente, quando consegui soar americana começaram a pedir para eu treinar outros sotaques! (risos) Já dei uns toques no russo ou no sotaque de leste também! Acho muita graça a esse trabalho, porque o sotaque dá-nos muito de um personagem. Se eu trabalhar bem um sotaque, de repente parece que o meu corpo muda. É um trabalho de ator muito giro porque nos traz imensa coisa.

A Benedita tem vários feitos no currículo, mas gostávamos de voltar ao início, ao motivo de ter escolhido a representação como profissão. O que a levou a isso? O que mais a apaixonava no rótulo de “atriz”?

Houve uma pequena influência familiar, mas num sentido diferente do habitual: quando eu era pequenina, fiz um teatro com os meus irmãos mais velhos como surpresa para os meus pais. Uma coisinha que a minha irmã mais velha resolveu inventar. Eu tinha para aí quatro anos, nem sabia ler! Os meus pais filmaram. Eu tinha muita graça! Sabia as falas todas de cor e estava muito à vontade. Quando voltamos a ver o filme uns anos depois, quando eu tinha oito anos, o meu pai achou que eu tinha de ir para o teatro. Acho que, de certa maneira, o teatro era algo que o meu pai queria ter experimentado, mas na altura dele não teve hipóteses. Então, fomos às páginas amarelas e havia uma escola, a única que existia no Porto: o Balleteatro. A minha mãe inscreveu-me no teatro e depois fui para a dança também – não quis ir para o ballet porque achava que era piroso, era muito cor de rosa! (risos) Mas hoje em dia arrependo-me, porque seria uma boa base. No primeiro dia, a minha mãe ficou muito assustada porque, em 1993, a escola era num sítio estranho e a minha mãe não queria deixar a miudinha loirinha ali sozinha… Mas eu adorei! Estive nessa escola dos oito aos 16 anos. A partir desse primeiro dia, sempre disse que queria ser atriz… mas não sabia muito bem o que isso era. Via o Herman José na televisão e achava que queria ser o Herman José, depois via as coisas do La Féria e também queria fazer isso. Fui descobrindo o que era o teatro… e gostava cada vez mais! Na adolescência, comecei a fazer uns castings, fiz participações em televisão, também fiz trabalhos de modelo (que eu não queria fazer porque não queria misturar as coisas – mas foi porreiro porque fui juntando dinheiro). Os Morangos com Açúcar surgiram quando eu estava a terminar o 12º ano e ainda não sabia muito bem o que queria fazer a seguir. Surgiu esse casting e foi tudo relativamente fácil.

Fotografia Nuno Sampaio

“Eu tenho muita energia e eu acho que isso é bom, apesar de, às vezes, ser desgastante – para mim e para as outras pessoas. É uma energia que vem com muita vontade: tenho muita vontade de fazer coisas!”

Os castings fizeram parte da sua vida desde muito cedo e esse percurso trouxe-a a Lisboa, ao desafio dos Morangos com Açúcar. Teve noção daquilo que lhe estava a acontecer na altura? No que a série iria representar para si?

Tive alguma noção, mas não muita na realidade. Para mim, foi uma mudança gigante. Faltei às últimas semanas de aulas, vim para Lisboa de malas e bagagens – já tinha passado aqui umas temporadas e, por isso, Lisboa não era uma coisa estranha para mim. Mas senti imensa pressão! Não sabia muito bem o que era isso de ser protagonista. Não sabia o que é que isso significava. Depois, surge todo um grupo de pessoas novas, que graças a Deus são os meus amigos até hoje, mas foi tudo uma habituação: tudo era diferente! Antes da novela ir para o ar, sentíamos que não acreditavam muito em nós. Havia muito essa noção de termos de provar que éramos capazes. Lembro-me de primeiros meses com muita ansiedade, mas, ao mesmo tempo, foi uma descoberta de todo um novo mundo. Finalmente percebi que estávamos no caminho certo, mas trabalhávamos seis dias por semana, vivíamos uns com os outros… Era quase um Big Brother! (risos). Mas descobri ali as minhas pessoas. Senti mesmo que, de repente, a vida trouxe-me um projeto que muda a minha vida, que me põe a trabalhar naquilo que eu quero e logo com um grupo de pessoas que é espetacular, que tem tudo a ver comigo! Tínhamos todos um sentido de humor incrível, dávamo-nos todos muito bem e não éramos nada deslumbrados com a fama. Nós vivíamos muito para nós, para nós curtirmos, para nós fazermos bem o trabalho, vibrávamos uns com os outros. Tanto é que, quando fizemos a segunda série, eu e o João Catarré, por exemplo, sentimos aquilo do “quem é que são estas pessoas novas?” ou “não pertencemos a este grupo!” (risos). Mas foi, de facto, o início de uma nova vida. No fundo, o que fica mesmo são as pessoas. Claro que lidar com as pessoas na rua, com a imprensa, com o facto de falarem da minha vida nas revistas foi um bocadinho “chapada na cara”. Pouco tempo depois consegui desligar essa ficha, mas no primeiro ano foi duro. Mas hoje em dia, quando olho para trás, percebo que fizemos uma coisa incrível, nós fizemos história! Fico mesmo orgulhosa. Eu sei que há muitos preconceitos com essa ideia da Geração Morangos, mas na verdade eu acho que só temos de ter orgulho. Era uma escola! Nós nem sabíamos para o que é que íamos (risos) Todos nós tínhamos alguma formação em teatro ou em algo parecido, éramos um grupo sui generis, muito focados e, de facto, abrimos as portas para uma data de gente. Portanto, temos de nos sentir orgulhosos! Ainda hoje me reconhecem pela personagem Joana… pessoas que, na altura, ainda nem existiam! Tudo graças à reposição nos canais infantis. É maravilhoso!

E quando se revê a si própria, qual é a sensação?

(risos) Ainda bem que cresci! Há sempre um momento de ternura e de nostalgia… e depois há o momento de “ainda bem que evoluí!” (risos). Mesmo com trabalhos mais recentes, com poucos anos, acho isso na mesma. É sempre estranho olhar para trás. Imaginem olhar para uma coisa que já foi feita há 16 anos! Mas não estou na fase de “ai, que vergonha!”, é mesmo “oh, que fofinhos que éramos!” (risos). Tão inocentes! Na verdade, nós aprendemos tudo sozinhos, fomos mesmo atirados aos leões! Nós fomos as cobaias… mas correu bem! (risos) É engraçado porque ainda criam páginas no Instagram sobre a história do Pipo e da Joana! É querido!

Há pouco falou de querer ser o Herman José feminino. O que mais admira neste universo do fazer rir? Relembro aqui um trabalho chamado Ele é ela (2009) em que a Benedita fazia um papel muito engraçado… Interessa-lhe explorar mais o conceito de comédia?

(risos) Sim, mais nessa onda de séries de comédia ou sitcoms. Eu não sou a pessoa da comédia de stand-up. Uma vez experimentei fazer algo de storytelling e fiquei super nervosa. Estou a explorar devagarinho alguma improvisação. Mas a parte da comédia sempre foi uma coisa que eu quis muito fazer. Aliás, quando esse convite do Ele é ela chegou, eu estava nos EUA há dois anos e pensei “finalmente perceberam quem eu sou!” (risos) Achei mesmo que aquilo era para mim! Não estou a dizer que as outras coisas não sejam para mim, eu gosto muito de fazer coisas dramáticas também, mas havia ali um lado por explorar, que era apenas explorado na minha vida, com as minhas pessoas. Entretanto já fiz mais coisas de comédia, como o Sim, chef!, alguns episódios de Donos Disto Tudo, o filme Quero-te tanto! e espero que haja mais em breve! Posso já dizer que, para o ano, os dois espetáculos que vou fazer têm um lado cómico e fico muito contente por as pessoas se lembrarem de mim para fazer isso. É, definitivamente, uma coisa que eu quero explorar. Dá-me prazer. Não sou exatamente um Herman, mas gostava de trabalhar com ele, como é óbvio! (risos).

Fotografia Nuno Sampaio

“Antes da novela [Morangos com Açúcar] ir para o ar, sentíamos que não acreditavam muito em nós. Havia muito essa noção de termos de provar que éramos capazes. Lembro-me de primeiros meses com muita ansiedade, mas, ao mesmo tempo, foi uma descoberta de todo um novo mundo”

E o mundo do cinema é algo que lhe interesse explorar mais?

Claro que sim! Eu acho que o cinema, de maneira geral, está a pecar porque os truques, os twists, as histórias parecem ser sempre as mesmas. Mas estamos numa fase importante do cinema português porque produz-se mais, estreiam-se mais filmes. Acho que, desta maneira, ensinamos as pessoas a verem cinema português, também. Quanto mais oferta existir, aliada a uma boa promoção, melhor! Estou muito curiosa para saber os resultados finais deste ano porque nem todos os filmes se deram muito bem, mas há alguns ainda para sair e que são muito aguardados, por exemplo, o filme Variações. Eu gostava muito que se fizesse mais cinema em Portugal até porque eu própria gostava de fazer mais (risos).

Podemos falar da recente experiência com Quero-te Tanto!? É uma comédia romântica ao jeito de Benedita Pereira?

Foi muito divertido! Eu fui escolhida para o papel por ser exatamente como sou (risos). O Vicente Alves do Ó [realizador] vai fazer outro filme em que vou participar e foi através desse encontro para falarmos sobre esse filme, que surgiu este convite para Quero-te tanto! Nesse dia eu estava muito espirituosa, só dizia asneiras e ele teve a ideia de me convidar para ser a protagonista do Quero-te tanto! Foi fácil nesse sentido. Interpretei uma personagem que foi muito engraçada de construir, porque era diferente daquilo que eu costumo fazer: uma personagem mais inocente, mais fofinha, mais tonta, de certa forma. Como eu e o Pedro Teixeira também nos dávamos bem, correu tudo muito bem. Foi também a primeira vez que contracenei com a Fernanda Serrano, num registo que ninguém está à espera de a ver.  Era um filme um bocadinho louco, mas a experiência foi muito gira. Aliás, fizemos a antestreia na Prisão de Tires porque mais de metade do filme se passa numa prisão feminina e essa experiência foi muito marcante para todos nós. Elas reagiram muito bem ao filme, choraram, riram, aplaudiram-nos de pé imenso tempo! Nenhum de nós se vai esquecer deste dia. Também acho que é por isso que fazemos o que fazemos.

Fotografia Nuno Sampaio

Mas, para uma pessoa que teve a oportunidade de estar em Nova Iorque e de participar até num episódio da série The Blacklist, vendo toda a máquina cinematográfica de Hollywood, o que pensa de Portugal? Faz-nos parecer pequenos?

Não, faz-me sentir é que nós somos uns heróis! (risos) Porque nós fazemos muito com muito pouco! Em todos os sentidos! Quando há pouco dinheiro, há pouco tempo também. O que eles fazem em sete dias, nós fazemos num dia, por exemplo. Temos de ser criativos a duplicar para fazermos as coisas bem, mas com menos tempo e com menos dinheiro! Nós temos a mentalidade de safarmos tudo! Com tudo ao molho e fé em Deus, trabalhando horas extraordinárias, mas, no final, o que conseguimos fazer é mesmo muito bom! Mas não podemos comparar com as coisas que se fazem nos EUA. São escalas completamente diferentes. Eu acho é que nós, saindo daqui e indo para lá, somos os maiores! (risos) Nós evoluiríamos muito mais se houvesse mais capital investido. Mas nós somos pequeninos e é uma bola de neve. Não vai haver investimento… a não ser que comecemos a fazer coisas com o objetivo de vender para fora, com mais coproduções, por exemplo. Esse era o meu sonho!

Podemos falar da série Versailles, em que a Benedita interpretou Isabel de Bragança, Infanta de Portugal? Foi um desafio interessante para si?

Foi espetacular! Eu já gostava da série e então foi mesmo aquela sensação de entrar para dentro da televisão (risos). A personagem era, de certa forma, divertida apesar de ser uma infanta e de estar vestida daquela forma tão formal. Fui mesmo muito bem tratada, os atores também me receberam muito bem. Tive pessoas que eu já admirava a perguntarem-me opiniões – e eu ainda com o coração aos pulos, acabada de chegar! (risos) Eu acho que finjo o nervosismo muito bem, mas estava mesmo ansiosa. Cruzei-me com gente muito humilde, muito simpática e acolhedora. A experiência de trabalhar com pessoas de países diferentes também é incrível: a realizadora era belga, a equipa era maioritariamente francesa, os atores eram ingleses, escoceses, canadianos, etc.. Havia uma mistura de línguas no set, ui! (risos) Havia até um rapaz da equipa de som que era filho de pais portugueses e que falava português comigo porque queria treinar! A certa altura, eu já não sabia como devia falar! (risos) Foi espetacular! Depois, o facto de ter ido mesmo a Versalhes, para gravar uma cena a entrar para dentro do palácio, foi incrível. Foi num dia em que o Palácio estava fechado e eu estava lá sozinha. Imaginem-me sozinha na sala dos espelhos! Tivemos uma visita guiada e eu queria ir aos jardins para depois ir embora porque estava cansada. A dada altura estava sozinha, não havia ninguém, nem seguranças! Estava completamente sozinha em Versalhes e ninguém tem essa experiência porque aquilo está sempre cheio de gente! Fui uma sortuda! (risos)

Fotografia Nuno Sampaio

“Eu tenho sentido a necessidade de ter “aquele” desafio, “aquela” personagem que eu agarre e, ao mesmo tempo, fique perdida com ela. Que não saiba que volta dar à coisa. Que me obrigue a explorar-me a mim mesma!”

Vamos voltar agora a Nova Iorque para falarmos das oportunidades que aí surgiram. Sempre viu a profissão de atriz como algo sério. Foi por isso que decidiu apostar na sua formação? Considera que este passo mudou a sua carreira?

Os primeiros dias foram muito divertidos porque era a loucura de estar em Nova Iorque! Duas miúdas (eu e a Daniela Ruah) à procura de uma casa. Em dez dias encontrámos a casa e comprámos os móveis, o que lá é um feito. Mas passei várias fases lá. Eu cheguei a Nova Iorque como uma miúda de 22 anos e, entretanto, saí como mulher de 30. E agora vou lá de vez em quando… o que é completamente diferente!

Na verdade, eu não sabia que ia tanto tempo. Eu inscrevi-me para um ano, mas um ano passou a correr. E tanta coisa aconteceu! Diziam-me para pedir um visto e ficar mais tempo. Comecei nessa aventura dos vistos, que só acabou anos e anos depois! Todas as peripécias dos vistos foram uma canseira! (risos) Se me tivessem avisado, eu provavelmente tinha corrido para outro lado! (risos) Se eu soubesse o que me esperava, eu não tinha começado, de certeza. Mas, por um lado, ainda bem! É assustador. Passou-se tanta coisa, conheci tanta gente, tive tantos momentos: primeiro estudar, depois tentar trabalhar, depois estudar com outras pessoas, depois explorar diferentes coisas, fazer teatro super underground, fazer performances de rua… eu fiz tudo! Mais tarde, fiz televisão e vivi a parte da luta dos castings, que é muito dura! É uma etapa muito gratificante em algumas coisas, mas também é dura: passar por tantas fases e perceberes que chegaste ao momento em que és tu ou outra pessoa… chegas ao fim e não foste tu a escolhida. É duro! Hoje em dia já não penso tanto nisso nessa lógica de “não consegui!”. Dou valor ao que aprendi, ao facto de ter tentado.

Essa luta dura de castings, esses momentos de desilusão, as promessas que não foram avante… Nova Iorque desiludiu-a? Arrepende-se?

Não, nada! Todos aqueles momentos fizeram de mim o que sou hoje. Fizeram-me crescer e aprender… e isso é o mais importante! Todas as oportunidades que tive fizeram este percurso e fico sempre contente por hoje olhar para trás e ver que valeu a pena.

Regressou de Nova Iorque, apesar de visitar a cidade frequentemente. É em Portugal que quer estar?

Sim e, ao mesmo tempo, não! (risos) Sou nómada e gosto desse conceito! Mas quero ter a minha base cá. Estamos perto de tudo, rapidamente apanho um voo e vou a qualquer parte do mundo. E, agora, até podemos fazer castings em vídeo e enviar. Quero explorar a Europa nesse sentido, estar atenta às oportunidades. Portugal está cada vez mais bem vincado no mapa. As pessoas começam a conhecer-nos e a gostar de estar cá. Começam a olhar mais para nós e para aquilo que fazemos. Já não acham que pertencemos a Espanha. Uma vez, na imigração nos EUA, chamaram uma tradutora espanhola para o caso de ser necessário alguma ajuda. E eu perguntei “mas porquê? Eu não falo espanhol! Até é mais fácil em inglês!”. Por isso, sim, é por cá que quero andar. E Portugal está na moda!

Fotografia Nuno Sampaio

Diria que vive uma altura em que se pode dar ao luxo de escolher o que quer fazer?

Sim, ou melhor, diria que estou numa fase em que sei o que quero fazer, o percurso que quero percorrer. Tenho amigos que ficam pasmados quando eu digo que não vou a determinado casting. Perguntam-me “como assim?”, incrédulos. Mas basicamente é uma decisão que tem a ver com aquilo que eu estipulei que queria fazer. Não me interessa fazer por fazer, interessa-me fazer porque me vou divertir, porque vou fazer algo diferente, que nunca fiz ou que sinto que me trará algo novo. Interessa-me explorar novas histórias, sobretudo.

Fez sentido então aceitar o convite para a novela A Prisioneira, na TVI?

Sim, e tem sido muito giro pela equipa, pelos colegas que estão comigo. Já tive oportunidade de falar várias línguas na novela e isso é sempre engraçado para mim.

Mas o que quer para o futuro?

Fazer mais coisas, mais diversas. Procurar desafiar-me mais. Quero aproveitar para fazer personagens que, se calhar, daqui a uns anos já não vou fazer. Porque nas novelas as personagens femininas são cada vez mais novas e eu, entretanto, estou nos 50 anos (risos). Tenho de aproveitar agora! Não quer dizer que não seja feliz a fazer esse tipo de personagens depois, mas agora sinto a necessidade de explorar vários papéis. Drama, comédia, drama com comédia, porque não?

Falta-lhe “o” desafio?

Sim, posso dizer que sim. Eu tenho sentido a necessidade de ter “aquele” desafio, “aquela” personagem que eu agarre e, ao mesmo tempo, fique perdida com ela. Que não saiba que volta dar à coisa. Que me obrigue a explorar-me a mim mesma! Não sei pôr isto em palavras, mas estou a aguardar por aquela personagem em que eu mergulhe na complexidade. Que eu perca o sono porque não sei como farei aquilo. Que me exija verdadeiramente algo. Conhecem a série Killing Eve? A personagem da assassina é incrível! É dramática e, ao mesmo tempo, tem um sentido de humor surreal. É um bocadinho isso que eu procuro. Não falo propriamente da versão psicopata da coisa, mas sim da complexidade, do desafio que é criar uma personagem com essas camadas. Que me obrigue a “escarafunchar” nas suas entranhas. Claro que essa série tem um texto incrível, uma equipa de argumento realmente boa… É isso que eu preciso: preciso de um texto bom, basicamente!

E será com essa personagem que receberá o óscar?

(risos) Ai, espero que sim! Na verdade, o que eu acho mais importante mesmo é ter oportunidade de trabalhar. Trabalhar naquilo que gostamos é um verdadeiro luxo!

Fotografia Nuno Sampaio

É a constante procura de um sonho que não sabemos bem qual é, mas que queremos que exista?

Houve quem me alertasse para o facto de ser necessário eu ter o sentido de gratidão por tudo o que me aconteceu e por tudo o que me acontece. Porque realmente há muita gente que gostaria de estar na minha posição! De facto, se calhar, já estou a viver o sonho… mas queremos sempre mais. Também não vamos ficar aqui sentados à espera… eu vou querer sempre mais! Mas há tanta coisa boa pelo caminho… Olha que sorte que eu tenho!

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