Revista Rua

2020-08-11T11:56:10+00:00 Cultura, Música, Personalidades

Benjamim: a música portuguesa não está em Vias de Extinção

O músico português Benjamim está em entrevista na RUA.
Benjamim ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto3 Agosto, 2020
Benjamim: a música portuguesa não está em Vias de Extinção
O músico português Benjamim está em entrevista na RUA.

Encontrámo-nos com Benjamim numa tarde quente que ansiava mais um concerto ao ar livre, a propósito do Devesa Sunset, uma proposta cultural promovida pelo Município de Famalicão. Entusiasmado com a sensação de voltar ao lugar onde é realmente feliz – o palco -, o cantor e compositor falava-nos do seu mais recente projeto discográfico: Vias de Extinção, um disco composto por oito canções e que se revela o mais íntimo do seu repertório.

Vias de Extinção chega depois de dois grandes êxitos, Auto Rádio (2015) e 1986 (2017) – este último partilhado com o músico inglês, Barnaby Keen – na premissa de se revelar no registo musical mais pessoal e direto até ao momento, através de letras escritas num tom quase confessional. Um álbum que começou a ser desenhado há sensivelmente dois anos e com a primeira canção a ser lançada em plena altura de confinamento, deixa de ser apenas próprio, para espelhar – ainda que não intencionalmente – a realidade que vivemos, em versos que nos dizem: “Eu não esqueço que o apego é melhor que a solidão”.

Prestes a ser apresentado na íntegra, já é possível ouvir algumas das canções que contemplam este recente Vias de Extinção.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Depois de um tempo controverso, começamos por perguntar: qual é a sensação de estar de volta aos palcos?

É espetacular. Já tinha muitas saudades, porque isto é a nossa vida. Obviamente, é uma sensação estranha, ao mesmo tempo. No caso do concerto aqui em Famalicão, acaba por ser agradável, porque como as pessoas não têm de estar de máscara e estão separadas por grupos (já definidos no recinto). Acho que isso devolve muito do que é a essência de um concerto.

Durante o período de confinamento, o Benjamim foi gravando alguns vídeos para as redes sociais. Foi uma forma que encontrou para manter o contacto com o seu público e também de se reinventar e sentir-se continuamente criativo?

Sim, por vezes era mais por estar aborrecido. Acaba por ser um misto de tudo, há uma necessidade de querer comunicar e uma ansiedade de querer tocar e fazer música. Foi também para me manter ativo, para tentar sair daquela rotina. Toda a gente passou por isso e sabemos que, mesmo estando em casa e a trabalhar, temos de ir inventando outras coisas, para não estarmos tão presos a essa monotonia.

A necessidade de confinamento permitiu ter tempo para criar coisas novas ou, pelo contrário, foi um período difícil de se sentir inspirado? Que lições tira da quarentena?

Foi horrível, mas tiro muitas lições, obviamente. Acho que este tempo ensinou-nos ou relembrou-nos o que já devíamos saber: as coisas essenciais são as mais básicas, que a economia e a sociedade estão estruturadas de uma forma que é, de facto, insustentável e que temos de aprender a ser mais simples no nosso modo de vida. Eu senti muito isso. De repente, não podíamos sair, não podíamos fazer nada. Tivemos de aprender a viver com as coisas mais simples e básicas. Nesse sentido, foi uma grande lição… escusava era de ter sido tão longa.

Este regresso implica adaptações a uma nova realidade. O Benjamim começou por tocar em Guimarães, a propósito do Lufada, subiu recentemente ao palco do Coliseu dos Recreios, nos Prémios Play, com a Lena D’Água, e agora em Famalicão, no Devesa Sunset. São eventos completamente diferentes, mas como é que tem sido a reação do público?

Tem sido boa. É estranho para o público e é estranho para os músicos. Tenho consciência que o concerto em Famalicão é mais próximo do que já eram os concertos antes, porque apesar de as pessoas estarem separadas, o facto de poderem expressar-se livremente e cantarem connosco ajuda muito. Em Guimarães, por exemplo, foi mais estranho, porque as pessoas estavam todas sentadas de máscara e é mais difícil perceber se estão a gostar ou não. Há uma dificuldade maior em comunicar e interagir com o público, mas estamos todos a habituarmo-nos aos poucos a uma nova realidade.

Este novo álbum chega depois de um disco que foi, muitas vezes, considerado como um dos melhores lançamentos discográficos do ano (2017). Estava à espera de que o 1986 tivesse o reconhecimento que atingiu?

Não estava à espera de nada, na verdade, mas também porque nunca crio muitas expectativas em relação aos meus discos. Claro que fiquei muito feliz por ter sido tão bem recebido e para nós foi um disco muito importante, porque nos levou a novos públicos, a outros palcos e foi um passo mais à frente daquilo que já tinha sido o Auto Rádio (2015). Permitiu dar-nos a conhecer a mais pessoas.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Acredito que parte da minha terapia pessoal durante a quarentena foi o facto de saber que as coisas não podiam parar, que a música não podia parar.”

O ano de 2020 marcava o lançamento de um projeto discográfico que estava a ser trabalhado há sensivelmente dois anos. Ainda que tenha sido anunciado numa altura mais conturbada, fazia todo o sentido mostrá-lo ao público?

Na verdade, se tivesse conseguido lançá-lo mais cedo já o teria feito, mas ele ainda não está completamente pronto. Eu ainda ando em estúdio a acabar de o gravar (risos). Mas acredito que parte da minha terapia pessoal durante a quarentena foi o facto de saber que as coisas não podiam parar, que a música não podia parar. Foi muito difícil pensar assim, confesso, mas foi, realmente, a única coisa que me motivou a trabalhar todos os dias. O disco tinha de sair, eu tinha um prazo e queria muito cumpri-lo. Não queria adiar mais.

Fotografia ©Nuno Sampaio

No que diz respeito às letras, podemos dizer que este Vias de Extinção é, provavelmente, o registo musical mais pessoal até ao momento? Qual foi a inspiração para a concretização deste disco?

Basicamente, é quase um reflexo da minha vida pré-pandemia, o que é um bocado irónico. Estava numa fase da minha vida em que me tinha separado, estava solteiro, vivia muito à noite e foi um disco no qual procurei explorar tudo isso. O disco tem um lado muito noturno e foi muito influenciado pelos sons e as vivências da noite. É irónico no sentido de estar a acabar o disco numa altura em que nada disso existe neste momento. O que é curioso é que fomos todos forçados a crescer durante a pandemia e, quando voltar tudo ao normal, nós já não seremos as mesmas pessoas que erámos antes de tudo isto acontecer. Os nossos hábitos vão mudar, obrigatoriamente. Neste processo final do disco, comecei a ter uma visão mais cínica e distante das canções que tinha escrito inicialmente. A inspiração vem dessa sensação boémia, de eu me sentir perdido e ainda de um prolongamento da crise dos 30 – que é uma coisa um pouco patética.

Se pegarmos em específico no tema que dá nome ao disco, “Vias de Extinção”, deparamo-nos com uma canção que começa por ser quase confessional, mas que, curiosamente, acaba por ditar muito da atualidade. Falo de versos como “Eu não esqueço que o apego é melhor do que a solidão”. Numa altura em que a solidão foi, para muitos, uma “via de extinção”, estes versos tornaram-se plurais e intemporais?

Quando lancei a canção tinha consciência que o significado dela poderia ser transportado para os tempos que vivíamos. Eu achei imensa piada, porque a canção não tem nada a ver com o confinamento. É curioso porque eu sempre quis que esta fosse a primeira canção a sair e até havia alguma resistência na altura, porque tem quase seis minutos, o que para formato de rádio não funciona muito bem, mas quando estávamos no confinamento, pensamos: É agora! Foi uma coincidência, apesar de que há um lado muito importante na escolha do título do disco que eu nunca falei, mas que tem a ver com a sensação de que estamos, de facto, em vias de extinção (risos) Portanto, há um lado em que te sentes um adulto perdido, mas também estamos todos perdidos enquanto sociedade. É pensar que o mundo está a acabar e nós estamos nesta festa gigante. É um bocado explorar essa ideia. Todos os dias há recordes de temperatura batidos na Sibéria ou gases que estavam presos no gelo há milhares de anos a serem constantemente libertados para a atmosfera… de repente, tudo isto contribui para o aquecimento global e damos por nós no meio de uma pandemia mundial. Temos um problema muito urgente e que está a ameaçar a nossa espécie, mas temos um outro lado do qual nos estamos a esquecer: a sustentabilidade. Isso tem sido, em grande parte, a fonte para a minha ansiedade: a noção da nossa mortalidade e de questionar como é que será o nosso futuro.

“Eu sou um otimista-pessimista. Sou muito otimista no geral, mas sou muito pessimista em relação ao nosso futuro.”

Assusta-o pensar no futuro?

Assusta muito. Eu sou um otimista-pessimista. Sou muito otimista no geral, mas sou muito pessimista em relação ao nosso futuro, porque acho que não estamos a fazer nada que vá resolver o grande problema que temos.

Já foram desvendadas algumas canções, tendo sido “Domingo” uma delas, um tema no qual recorres muito ao otimismo – como nos diz a própria canção. Qual é o propósito deste tema no disco?

Eu odeio o domingo, basicamente. Sempre odiei e causa-me muita ansiedade por ser o fim da semana – o final de algo chateia-me sempre. Sofro muito por antecipação. Depois também há aquela noção de que tudo está fechado ao domingo e essa ideia de que há um dia em que as pessoas ficam no sofá – apesar de eu também gostar de estar no sofá – mas a ideia de que isso é quase obrigatório e te tira a hipótese de fazer algo gera uma certa melancolia que acabou por inspirar a canção.

Como é que está a ser até ao momento o feedback por parte do público face a este novo lançamento?

Está a ser bom, apesar de não ter tido muito ainda, porque como não há muitos concertos o feedback vai chegando aos poucos. É nos concertos que conseguimos perceber se as pessoas cantam as nossas canções e se gostam delas.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Presumo que ainda faltem alguns temas para que o álbum esteja totalmente finalizado e conhecido na íntegra. Quais são os planos para os próximos tempos?

Até agora saíram duas canções e há ainda mais seis. Vamos ter concertos de lançamento em setembro e em outubro, em várias cidades, mas nesta fase queremos apenas lançar o disco e ver o que é que acontece depois. Como ninguém sabe como é que será o futuro ou o que é vai acontecer, as marcações de tours ou concertos passam a ser muito relativas. O inverno será mais complicado, provavelmente, porque pode chegar uma segunda vaga ou então deixamos de atuar em sítios ao ar livre, o que irá limitar muito aquilo que podemos fazer. Mas estou muito motivado e espero que este álbum tenha um impacto ainda maior do que o anterior, que é o que desejamos em todos os discos.

Perante todas as adversidades inusitadas que surgiram neste 2020, se o Benjamim pudesse ter uma Via de Extinção, qual seria?

Eu já a tenho: é a música. Foi o meu único refúgio durante este período, assim como em todos os momentos da minha vida, sejam eles bons ou maus. A música será sempre a maneira de me expressar.

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