Revista Rua

2020-10-28T10:25:09+00:00 Opinião

Big Brother is watching you

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
28 Outubro, 2020
Big Brother is watching you

Para quem entrou aqui a pensar que vou falar do programa da TVI: peço desculpa, mas não vou, que eu não vejo o Big Brother desde a 2.ª edição, para aí. Para quem entrou aqui a pensar que eu vou falar do livro do George Orwell: peço desculpa, também não vou, que não tenho erudição para isso. Só apanho assim umas citações e vou usando.

Então, diz que o Governo queria obrigar-nos a instalar uma app e isso é contra o não sei quê, porque passa-se isto assim e assim, não é? Realmente, ninguém tem de andar a controlar a nossa vida. A não ser que já existisse o Facebook e o Instagram e nós expuséssemos a nossa vida sem ninguém nos obrigar. E há aquelas pessoas que não dão o pisca, porque também ninguém tem de saber para onde elas vão.

O número de downloads da Stay Away Covid aumentou um bom bocado, mas a estratégia não foi a melhor. Eu trabalho no marketing, sei destas coisas. O primeiro-ministro devia ter dito que quem não instalasse a app teria sete anos de (ainda mais) azar e que se não convencessem mais dez pessoas a descarregá-la, um príncipe nigeriano – não sei se Peter Rufai, mas quero pensar que seria Peter Rufai – daria a sua fortuna a outra pessoa bem comportada e livre de bicho. O povo desatava a instalar a app no telemóvel, no tablet e na smart TV. A grande dificuldade seria António Costa não comer sílabas a dizer “instalação” e “descarregar”.

Outra dificuldade é convencer faixas etárias opostas. Por um lado, os jovens não ficam convencidos a instalar uma app em que não podem postar fotos, nem frases inspiradoras, enquanto fazem uma pose desprevenidamente prevenida. Só dá para escrever um código, ainda por cima é tudo em números, não dá para pôr um “lol” ou um “xD”. Tem de se reformular isso. No outro extremo, estão os mais idosos, que só têm telemóvel para ligar para os passatempos da SIC e que, se têm smartphone, precisam da ajuda dos netos para instalar e mexer na app – e já vimos que os netos não têm interesse nesta app.

Obviamente, ninguém deve ser obrigado a instalar o que quer que seja no seu telemóvel, ainda mais quando se acede à localização da pessoa. Eu não tenho problemas, porque a minha vida não é assim tão interessante para não saberem onde eu estou. E mais: pensem na tristeza do bluetooth. Ainda há poucos anos, junto com os infravermelhos (que eu não aprecio, para mim o vermelho é supra, não é infra), o bluetooth era a única forma de transmitirmos ficheiros de um telemóvel para outro. Para o bluetooth, este ressurgimento é como as calças à boca de sino voltarem a ser moda ou como aquele fingimento geral de que gostávamos muito da música de certo cantor, quando ele morre.

E pensemos também nas oportunidades de negócio que isto pode gerar, a quantidade de Stay Aways que podem ser criados. Desde logo, o Stay Away Pessoa Chata: uma app que nos avisa se estamos perto de contactar com pessoas com quem não queremos contactar, dando-nos indicação do passeio mais perto, onde podemos atravessar; o Stay Away Tentação: uma aplicação que nos avisa se está a ser cozinhada uma francesinha ou uma pizza perto de nós, para nos afastarmos do sítio, se estivermos a fazer dieta; no outro extremo, o Stay Away Vegetarian, a app para quem não quer passar perto de pessoas que se estão a alimentar de coisas sem sabor.

Mas o que eu queria mesmo, ó faxabôr, era uma app que me ensinasse a usar máscara e óculos, durante mais de dez minutos, sem os embaciar, para eu não parecer um depravado cegueta, com os óculos na ponta do nariz.

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