Revista Rua

2020-12-21T15:30:15+00:00 Sabores, Vinhos

Blandy’s Madeira Wine – Uma tentação doce de Natal

No coração do Funchal, num edifício que nos transporta novamente para uma época de Expansão Portuguesa, reside a Blandy´s Wine Lodge. Um pequeno paraíso para os amantes do Vinho da Madeira.
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva21 Dezembro, 2020
Blandy’s Madeira Wine – Uma tentação doce de Natal
No coração do Funchal, num edifício que nos transporta novamente para uma época de Expansão Portuguesa, reside a Blandy´s Wine Lodge. Um pequeno paraíso para os amantes do Vinho da Madeira.

Num ano que é ainda tudo menos normal, muito se tem falado sobre apostar no que é nacional. Produtos pensados em território português, sempre que possível usando elementos regionais, tradicionais e com origem no país é uma das principais apostas para as prendas deste Natal atípico. São muitas as marcas nacionais que poderemos escolher, e por aqui também se incluem produtos que chegam às nossas mesas em datas especiais. O Vinho da Madeira, tal como o Vinho do Porto, faz parte da memória coletiva de Portugal, e como tal, também faz parte do nosso paladar. Produzido a partir de variedades específicas de uvas, é envelhecido por um sistema de aquecimento único e, sendo um produto com Denominação de Origem, só pode ser engarrafado na Ilha da Madeira.

A origem da Blandy’s na Madeira remonta a 1808, quando John Blandy chega pela primeira vez à ilha atlântica. Em 1811 cria o seu negócio de exportação de vinho e, em 1840, foi o seu filho, Charles Blandy a adquirir as Adegas de São Francisco, onde hoje se localiza o Wine Lodge, situadas na Avenida Arriaga. Recuperando a antiga estrutura do mosteiro franciscano datado do século XVII, um local incrível que nos leva a recordar tempos antigos, medievais, e uma preciosa recordação no centro da cidade, o sótão é aproveitado para o envelhecimento das largas pipas de madeira do Brasil, aproveitando-se também o microclima do Funchal, de acordo com o “sistema de canteiro” usado nas vinhas madeirenses. É também aqui onde podemos encontrar o espaço museológico, a loja e onde acontecem as provas de vinhos – um ritual imperdível a quem visita a cidade. No Caniçal localiza-se a moderna unidade de produção.

As vinhas Blandy´s estão por sua vez situadas na zona norte e na zona sul da ilha, cujas características permitem plantar as diferentes castas, Sercial, Verdelho, Malvasia, Terrantez, Bual ou Boal e Tinta Negra. Com exceção da casta Malvasia, trazida de Creta, as restantes resultam de plantações tão antigas quanto os primeiros colonos da Madeira, por eles primeiramente plantadas. A evolução dos tempos e de forma a melhor aproveitar o terreno montanhoso e quantas vezes íngreme da região autónoma, passou-se da plantação em “latada”, rés ao chão, tipicamente conhecida, para espaldeira – acima do solo. Assim consegue-se também aumentar a exposição solar das uvas, melhorando consideravelmente a sua maturação.

Num detalhe curioso, o Vinho da Madeira, poderá ser consumido independentemente do tempo que se encontra em garrafa. Ao contrário do Vinho do Porto (que envelhece ao longo de décadas ou séculos), o Vinho da Madeira poderá ter um período de envelhecimento entre 5 a 18 anos antes de ser lançado no mercado. Um vinho envelhecido por 20 ou mais anos integrará a categoria vintage. A partir do momento em que é comercializado, qualquer apreciador poderá abrir a garrafa e saborear o seu conteúdo, não havendo qualquer necessidade ou ideal, de que “quanto mais velho, melhor”. Simplesmente não irá envelhecer mais, tornando-se sim num elemento histórico. O envelhecimento acontece assim e apenas enquanto o vinho se mantiver guardado nas adegas e não após o engarrafamento.

Novo lançamento do Blandy’s Bual em 2020

Recentemente foi lançada a garrafa Bual 2020, uma memória bem viva do vinho Bual 1920. Ironicamente, a história dos dois vinhos toca-se e não apenas pela casta e pelo ano. Tal como hoje, num agora cheio de adversidades, também o Bual de 1920 nasceu numa época complexa, entre o cenário de duas guerras mundiais, num mundo em convulsão política e social, exatamente numa ilha atlântica a meio de um mundo velho em revolução e dum mundo novo onde as bebidas alcoólicas eram vistas como a origem dos problemas de violência e empobrecimento nos Estados Unidos da América. Considerando que até 1933 a Lei Seca imperou no continente norte-americano, pese o comércio e venda ilegais, vários foram os lançamentos dos engarrafamentos datados de 1920 ao longo dos anos, numa homenagem sentida a todos os trabalhadores das quintas, vinhas, dos agricultores que nunca baixaram os braços. Cada garrafa é única, mediante o seu envelhecimento ao longo destes 100 anos em diferentes zonas da Adega no Funchal, desta feita em pipas de carvalho americano até 2017 e posteriormente até aos dias de hoje, em garrafões de vidro. Falamos aqui de algo único e realmente especial para um Natal certamente diferente. Uma colheita feita há 100 anos, numa casta plantada principalmente na região sul da Madeira, a altitudes entre 100 a 300 metros, com uma maturação relativamente rápida e resultando num vinho meio-doce (para os parâmetros regionais), evocando ao longo das décadas a resiliência de um povo que mesmo passando por dificuldades, por vezes esquecido pela insularidade, soube e continua a saber sobreviver.

Após 200 anos, a Família Blandy é ainda uma das principais produtoras nacionais de vinho, completamente seduzida aos encantos mágicos da ilha madeirense, tão diferente da sua Inglaterra de origem, tendo-se tornando também sócia maioritária da Madeira Wine Company. Já o Vinho da Madeira continuará assim sempre a brilhar em qualquer ocasião, sempre fazendo frente a qualquer tempestade.

Agradecimentos:Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira e Blandy’s Wine Lodge.

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