
“Boba da Corte”, o livro de Tati Bernardi
Tati, personagem e narradora, é uma aclamada escritora e criadora de conteúdos para programas de televisão.
Numa noite, enquanto festeja o seu aniversário, um ataque de ansiedade (mais um), coloca em cheque tudo aquilo em que finge acreditar. Os seus amigos, o seu namorado, a sua filha, os seus pais, as suas raízes. E, principalmente, o facto de ter chegado onde chegou, e não se sentir realmente incluída no grupo.
Esta sensação de querer entrar num mundo diferente, o qual todos aspiramos. As elites inteletuais, políticas, de fait-divers. Os músicos, atores e vários outros artistas – o privilégio de conhecer, de estar, de ter algum pequeno poder e de, finalmente, ser-se reconhecida. Mas será que realmente é assim?
Tati cresceu com um objetivo: ser diferente dos demais vizinhos e vizinhas. E, saindo da classe média (ou média-baixa), sair do bairro, chegar à cidade, subir as ruas e morar no lado certo da avenida. E embora não lhe falte classe e bom gosto, a verdade é que o que a torna humana e tão bem recebida é a sua forma instantânea de estar e ser – honesta, engraçada, mas também desbocada e “boba”. Aquela personagem tão conhecida que, sabendo bem quais as partes menos boas dos seus interlocutores, pode brincar sem ser (totalmente) sancionada (a eterna relação entre a ironia e ódio, que proporciona textos dilacerantes, que nos cortam à facada de lágrimas risíveis).
Ainda assim, consegue também resvalar para o precipício, aquela berma que a separa dos demais mortais – a que a afasta do grupo, a que a faz ser, afinal, olhada de lado. Vergonha alheia de quem, talvez, ninguém queira, realmente, conhecer. Mas quem é essa gente que a vê com outros olhos, que não a compreende como “sua”? Designam-se por “herdeiros” – aqueles que herdaram, que têm o pedigree genético, com acesso a tanto, e, no final do dia, conseguiram tão pouco. Enquanto a nossa heroína, não se identificando mais com o seu passado-base, com pouco ascendeu a tanto. Bem formada, bem falante. E com um olhar crítico, clínico e feroz a tudo o que a rodeia.
Tati Bernardi apresenta em “Boba da Corte” uma crítica social, numa escrita rápida em tom de crónica e não tanto de romance, mesclando o passado e presente da narradora e as suas dúvidas sobre a sua inserção social.
