Revista Rua

2020-08-10T10:11:54+00:00 Opinião

Bomba atómica: o caminho do inferno

História
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
10 Agosto, 2020
Bomba atómica: o caminho do inferno

No início do Verão de 1945, o Império do Japão estava perto do fim. Devido à escassez de meios, a maior parte dos danos infligidos aos americanos eram provocados por ataques “kamikazes”. Contudo, após cada vaga de ataques suicidas, a capacidade japonesa para repetir esse tipo de ofensiva ia naturalmente diminuindo.

Não obstante, no dia 8 de Junho de 1945 – quando decorria a Batalha de Okinawa – numa reunião de Governo realizada na presença do Imperador Hirohito, o governo japonês decidiu “continuar a guerra até ao fim”.

Volvido pouco mais de um mês, a 17 de Julho, no início da Conferência de Potsdam, Winston Churchill era confrontado com uma mensagem enigmática no seu Gabinete: “Bebés nascidos em condições satisfatórias”. Significava isto, segundo a explicação dada, que “a experiência realizada no deserto mexicano resultou. A bomba atómica é uma realidade”. Neste mesmo dia, Churchill e Estaline tiveram uma conversa durante a qual o ditador soviético informou o Primeiro-Ministro britânico sobre uma mensagem do embaixador japonês: “O Imperador afirma que não pode aceitar uma rendição incondicional, mas pode considerar a negociação de outros termos”.

No dia 22 de Julho, Churchill recebeu um relatório pormenorizado sobre os efeitos da bomba atómica. Depois de se inteirar de todas as informações, entrou imediatamente em contacto com o Presidente Truman: “definimos as nossas ideias tendo em vista um assalto contra o território japonês por meio de bombardeamentos aéreos e invasão de grandes exércitos”. E continuou: “observámos a desesperada resistência dos japoneses, batendo-se até à morte com uma devoção de samurais… Estou a pensar na ilha de Okinawa…”

As batalhas em que enfrentaram os japoneses, em geral, e a Batalha de Okinawa, especialmente, demonstraram uma enorme tenacidade por parte da resistência nipónica. Um dos maiores historiadores da Segunda Guerra Mundial, Antony Beevor, refere que os japoneses “podiam não ser os melhores estrategas militares, mas quando tinham de defender uma posição eram um verdadeiro pesadelo para o inimigo”. Entenderam então os líderes Aliados que, vencer a resistência japonesa, homem a homem e palmo a palmo, poderia custar a vida de um milhão de vidas americanas e meio milhão de vidas britânicas.

Os EUA estavam na posse da arma mais potente da História, e juntamente com os britânicos pretendiam lançar um trunfo diplomático antes de entrar em acção. Concordaram em enviar ao Japão uma proposta que passava por “uma oportunidade para acabar com a guerra”. Para isso, apontaram para o que restava de Berlim e da Alemanha, referido na mensagem como “um exemplo assustadoramente claro para o povo japonês”.

Americanos, britânicos e soviéticos apresentaram então os termos da rendição: desarmamento das forças armadas; soberania japonesa limitada às quatro maiores ilhas; seria instaurada a liberdade de expressão, religiosa e de consciência e respeito pelos direitos humanos (não deixa de ser irónico este apontamento contar com o apoio da União Soviética). Em contrapartida, o Japão seria autorizado a conservar as indústrias que sustentavam a sua economia. A mensagem dos Aliados era concludente: “Exortamos o governo do Japão a declarar a rendição incondicional. A alternativa é a completa destruição do país”.

Logo após a imposição da declaração de rendição incondicional ao Japão, Truman informou Estaline sobre a existência da bomba atómica, o que naturalmente deixou o líder da U.R.S.S. alarmado. Mas tal como Truman referiu, “é certamente um ganho para a humanidade que não tenham sido os apoiantes de Hitler ou Estaline a descobrir a bomba atómica”.

“No dia 15 de Agosto, uma mensagem foi comunicada via rádio ao povo japonês. Ouviu-se a voz do Imperador Hirohito, afirmando: “o inimigo começou a utilizar uma nova bomba extremamente cruel, cujo poder destruidor é incalculável, ceifando grande número de vidas inocentes… por essa razão, ordenámos ao nosso governo que comunicasse aos governos dos EUA, Grã-Bretanha, China e União Soviética, que o Império aceita as medidas da sua Declaração Conjunta”. Terminava a Segunda Guerra Mundial.”

No dia 30 de Julho, Truman foi informado, de acordo com os relatórios apresentados, que Hiroshima era das poucas cidades que não tinha campos de concentração de prisioneiros de guerra aliados. Nos mesmos relatórios, o comando aliado era informado de que era tarde demais para se fixarem novos alvos. E através do deciframento de mensagens “Magia” japonesas, percebeu-se que os japoneses “recusavam os termos da rendição incondicional e estavam determinados a explorar até ao fim as vantagens decorrentes de uma paz separada com a União Soviética”.

Estava então decidido. Às três menos um quarto da madrugada do dia 6 de Agosto de 1945, o bombardeiro B-29 “Enola Gay”, especialmente preparado para transportar e lançar a bomba atómica “Little Boy”, levantou das Ilhas Marianas. Cerca de cinco horas e meia depois, dava-se o maior ataque da História da humanidade. Dos 90 mil edifícios de Hiroshima, mais de 60 mil ficaram totalmente destruídos. Contaram-se mais de 90 mil vítimas, número que continuaria a crescer ao longo dos anos.

Estava planeado o lançamento de uma segunda bomba atómica para o dia 11 de Agosto. Isto, no caso de o inimigo não apresentar a rendição incondicional após o ataque sobre Hiroshima. Mas as previsões de mau tempo anteciparam a data em dois dias. O bombardeiro B-29 “Bockscar” transportou a bomba atómica “Fat Man”, sendo Kokura a cidade-alvo. Contudo, estava já planeado que, caso as condições meteorológicas não permitissem, Nagasaki seria o alvo. Pelas onze horas, foi largada a bomba atómica sobre a cidade, matando instantaneamente 40 mil pessoas. Tal como em Hiroshima, milhares de mortos seriam contados nos anos seguintes, em consequência do ataque. As portas do inferno abriram-se para a História.

No dia 15 de Agosto, uma mensagem foi comunicada via rádio ao povo japonês. Ouviu-se a voz do Imperador Hirohito, afirmando: “o inimigo começou a utilizar uma nova bomba extremamente cruel, cujo poder destruidor é incalculável, ceifando grande número de vidas inocentes… por essa razão, ordenámos ao nosso governo que comunicasse aos governos dos EUA, Grã- Bretanha, China e União Soviética, que o Império aceita as medidas da sua Declaração Conjunta”. Terminava a Segunda Guerra Mundial.

Não sou um académico formado no tema. Mas corroboro da opinião de grande parte dos historiadores, que salientam as razões que estão na base da decisão do lançamento das bombas atómicas: o desgaste da guerra, cuja emoção tem sempre um lugar de relevo; a intransigência japonesa em apresentar a rendição; a possibilidade (pouco provável, mas assustadora para americanos e britânicos) de a U.R.S.S. poder chegar a um acordo com os japoneses, aproveitando parte do seu território ou exercendo influência directa sobre o país; a oportunidade de demonstrar ao mundo os termos do verdadeiro poder.

Os primeiros ataques nucleares da História fizeram com que a diplomacia e as relações entre os Estados se transfigurassem. Mas o maior legado foi a escala da destruição da humanidade, que alterou completamente o modo de vermos uma guerra.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories.

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