Revista Rua

2019-08-05T16:54:54+00:00 Património

Bordado da Madeira, contando histórias e tradições, ponto a ponto

Numa nova campanha publicitária, coincidindo com as comemorações dos 600 anos do Descobrimento da Madeira e de Porto Santo, o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira apostou no trabalho fotográfico de Isabel Saldanha para recriar a imagem da tradição do Bordado da Madeira.
©Isabel Saldanha
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva5 Agosto, 2019
Bordado da Madeira, contando histórias e tradições, ponto a ponto
Numa nova campanha publicitária, coincidindo com as comemorações dos 600 anos do Descobrimento da Madeira e de Porto Santo, o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira apostou no trabalho fotográfico de Isabel Saldanha para recriar a imagem da tradição do Bordado da Madeira.

Tal como as brumas que se elevam nas levadas escondem segredos, a origem do Bordado da Madeira continua a ser um mistério. Há quem diga que foram as mãos das fidalgas e aristocratas das primeiras famílias que povoaram a Madeira, a levar consigo o bordar, enfeitando assim as suas casas e roupas. No entanto, a História, sempre cheia de provas que parecem irrefutáveis, conta que só no século XIX começam a surgir as primeiras criações e, por consequência, a sua comercialização, muito devido à influência inglesa.

O certo é que após a Exposição da Indústria Madeirense, em 1850, organizada no palácio de São Lourenço, e antecedendo a Exposição Universal de Londres, realizada em 1851, o Bordado da Madeira ganhou um fôlego novo, passando de uma arte secular, caseira e possivelmente com resquícios ainda conventuais e matriarcais, para uma indústria crescente, em que milhares de bordadeiras espalhadas pela ilha verdejante se tornam a principal força motriz.

Aqui, entre o final do século XIX e alvorada do século XX, uma vez mais, são as grandes famílias inglesas e alemãs radicadas na Madeira as impulsionadoras para esta evolução e comercialização internacional das peças, caracterizadas pela exclusividade e desenhos únicos, requintados e inspirados pela beleza natural da ilha. É Miss Elizabeth Phelps, filha de um importante comerciante britânico, quem primeiramente abre as portas de sua casa para criar uma escola de bordado. Mulheres jovens e mais velhas, começam assim a aprender a técnica e a arte de bordar e urdir, todos os pontos, ponto a ponto, partilhando em conversas histórias de vida duras e de sombra, às quais o Bordado traz uma nova luz.

©Isabel Saldanha

Ponto matiz, ponto corda, ponto granito, ponto sombra e ponto bastido, primeiro com linhas azuis, brancas e cinzas, e mais tardiamente, usando os beges, fazem parte apenas da fase quase final do processo de produção, culminando em autênticas obras de arte. Mais ricas e trabalhadas, ou mais práticas e funcionais, estas peças continuam a fazer parte das casas madeirenses, do seu quotidiano e dia a dia. Neste processo, primeiro, será o desenhador a transpor a sua ideia para papel vegetal, passando para o picotador que irá picotar esses desenhos. Após a picotagem, segue-se a estampagem: esponja embebida em tinta azul, passando por cima dos pequenos furos, marcando-se assim as partes dos tecidos que devem ser bordadas.

Seca a tinta, enviam-se as estampas às bordadeiras, que irão assim iniciar uma tarefa de perícia, minuciosa, muitas vezes única – cada bordadeira terá o seu ritmo e pontos específicos e pessoais, personalizados, sendo que cada trabalho é diferente do anterior. Os bordados são feitos na casa de cada uma destas mulheres, sentadas nos degraus em frente às suas portas, ou entre os basaltos e vegetação nos terrenos mais acidentados, onde possam abrir os largos panos, embora a modernização e investimento tecnológico, tão necessários à dinamização do bordado, tenha levado consigo muito do pitoresco desta arte secular.

Finalmente regressados às fábricas, os tecidos e bordados serão revistos, examinados, recortados, lavados e passados a ferro e, finalmente, na última etapa deste longo processo, selados com a garantia do Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, entidade que é a responsável máxima pela garantia de qualidade e autenticidade dos produtos feitos na Região Autónoma.

Hoje em dia, contudo, também é essencial saber que a internacionalização do Bordado da Madeira se deve à promoção de parcerias entre designers, universidades, alunos de estilismo, bem como a toda uma nova panóplia de cores que podem ser usadas no bordado, que o vão tornando assim mais moderno, embora tentando nunca perder a sua essência. A sua divulgação em mostras, feiras nacionais e internacionais, convenções e eventos turísticos continuam a ser a aposta principal para o reconhecimento desta arte secular, tentando sempre uma adaptação aos novos mercados que vão surgindo.

Em 2019, numa nova campanha publicitária, coincidindo com as comemorações dos 600 anos do Descobrimento da Madeira e de Porto Santo, o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira apostou no trabalho fotográfico de Isabel Saldanha para recriar a imagem da tradição.

Numa pequena conversa com a fotógrafa, ficamos a saber como nasceu este convite e como é que se vê o tradicional para lá da lente.

Como chegou até si o convite para a campanha do Bordado da Madeira? Qual o grau de responsabilidade que sentiu em perpetuar mais um bocadinho de cultura nacional para o mundo?

Foi o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira (IVBAM) que me contactou, na sequência de uma série de reportagens que estava a fazer como embaixadora da National Geographic sobre Aveiro. Se pudesse só trabalhava com mensagens importantes e produtos de forte herança cultural e patrimonial. Foi dos trabalhos que mais gozo me deu fazer este ano e, seguramente, um que não esquecerei.

Já conhecia a história do Bordado? Sentiu necessidade de fazer alguma pesquisa?

Estudei muito bem a lição. O que não sabia sobre o bordado aprendi. Li, pesquisei, visitei, ouvi e conversei. Fiquei absolutamente rendida ao trabalho das bordadeiras e ao esforço que os industriais e o IVBAM têm feito para promover aquilo que é uma das nossas maiores relíquias. Vesti a alma de bordado, assumi a responsabilidade como se se tratasse de uma herança familiar e trouxe para o projeto os melhores recursos humanos que consegui.

“O Bordado lembra-me a resiliência dos mais velhos, a arte da paciência, a educação para um objetivo maior”

O que é para si o Bordado? Como vê esta arte?

O Bordado lembra-me a resiliência dos mais velhos, a arte da paciência, a educação para um objetivo maior. Desde a conceção do desenho até à venda da peça há uma cadeia gigante de players e valor. Percebi que o número de bordadeiras tem decrescido substancialmente, que o bordado como arte em si já não tem a aura dos velhos tempos, mas é um saber ancestral de uma beleza tão singular, que a sua perpetuação deveria ser assumida como uma responsabilidade coletiva nacional. Não tenho qualquer dúvida do orgulho que existe nesta arte. Acho que está a ser feito um esforço para o promover de forma mais contemporânea. Tenho para mim que vai ser uma história bordada com um final feliz. Como escreveu o poeta Horácio Bento de Gouveia: “lágrimas que correm mundo, transformadas em regalo dos olhos por mãos pacientes de ignoradas artistas”.

Maria Luísa, cara da campanha, modelo acidental, que voou consigo (e restante equipa) de Lisboa até ao Funchal – como é que ela entrou nesta história? Como é que o grupo A Avó Veio Trabalhar se encaixou nesta campanha?

A Maria Luísa foi a prova que os melhores acasos resultam nos melhores casos. Fiz um casting público, não queria recorrer a uma modelo profissional, queria alguém que mantivesse uma certa genuinidade, precisava dessa delicadeza e dessa fragilidade. Queria uma senhora que recriasse as antigas bordadeiras, que fosse tão nobre como Miss Elizabeth Phelps e tão autêntica como uma senhora madeirense. Não foi fácil. Passaram-me o contacto da associação A Avó Veio Trabalhar, mandei-lhes o briefing e recebi uma fotografia da Maria Luísa. Fiquei logo rendida. Estava ali a senhora que tinha sonhado para aquela campanha. No dia a seguir fui conhece-la e fiquei sem qualquer dúvida. Soube logo que iríamos à Madeira e que ela seria o rosto de um dos trabalhos mais emocionais que já realizei. A associação agilizou o contacto com a família, ajudou a Maria Luísa a preparar-se para algo que nunca tinha feito e acompanhou-nos sempre. O resto é ver a campanha e o sorriso transbordante da Maria Luísa e juro-vos que ninguém vai acreditar que o Bordado alguma vez irá morrer.

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