Revista Rua

Bordalo II, o artivista que dá nova vida ao desperdício

De 26 de janeiro a 2 de março de 2019, Bordalo II expõe Accord de Paris, na cidade francesa. Será uma exposição-manifesto que denuncia a sociedade de consumo e sensibiliza a geração mais jovem para a necessidade de salvar o planeta.
Estúdio de Bordalo II em Lisboa
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira21 Dezembro, 2018
Bordalo II, o artivista que dá nova vida ao desperdício
De 26 de janeiro a 2 de março de 2019, Bordalo II expõe Accord de Paris, na cidade francesa. Será uma exposição-manifesto que denuncia a sociedade de consumo e sensibiliza a geração mais jovem para a necessidade de salvar o planeta.

Intitula-se “artivista” e espanta os olhares nacionais e internacionais com a sua arte feita de lixo, um lixo que a sociedade tende a ignorar. Para ele, usando o lixo como uma mensagem direta de que é preciso mudar o mundo, a natureza e os animais são veículo para uma arte difícil de explicar, mas incrível de ver. Artur Bordalo é Bordalo II e estes são os seus Big Trash Animals.

 

Bordalo II ©Raymesh Cintron

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer as raízes do Artur, mais conhecido como Bordalo II. De onde surge este interesse e paixão pelas artes? Tem formação académica no ramo das artes?

Passei grande parte da minha infância a descobrir a arte através do meu avô, o pintor Real Bordalo. Além do trabalho de aguarelas mais conhecido dele, também tinha séries de trabalhos menos conhecidos, onde temáticas surrealistas e dramáticas foram exploradas, tocando em pontos preocupantes, tal como faço no meu trabalho.

Em 2007 entrei na faculdade de Belas Artes em Lisboa, mas fui expulso e nunca concluí o curso. Os três anos em que frequentei as Belas Artes permitiram-me descobrir a escultura e a experimentação com diversos materiais, o que acabou por me distanciar do meu objetivo inicial que era a pintura.

É possível ler na descrição presente no seu site que afirma pertencer “a uma geração consumista, materialista e até gananciosa”. De que forma é que este tipo de sociedade o levou pelo caminho da arte urbana?

O grafitti faz parte do meu background, mas prefiro que esteja separado da minha arte. Acho que as motivações que levam um miúdo a começar a pintar na rua são algo que lhe é alheio até que um dia mais tarde reflita sobre isso. Claro que tudo isto é inconsciente quando se é miúdo, há uma vontade muito forte de expressar, mas não se sabe bem o quê nem porquê. O que me trouxe de bagagem foi o conforto em lidar com murais, com a rua e todo o ambiente exterior. Desde sempre que sou consciente dos problemas com o nosso meio ambiente. Quando criava uma obra, ela era o meu reflexo e essas questões já estavam moldadas em mim. Mais tarde, comecei a fazer experiências com lixo, explorando diferentes temáticas e composições, mas tratou-se de um percurso natural. Materializou-se com uma peça que fiz em 2013 para o Walk&Talk nos Açores.

Exposição ATTERO, em Lisboa ©Bordalo II

“Para mim, é fulcral ter uma palavra a dizer, tocar em pontos sensíveis e relevantes, fazer parte da consciencialização e, desta forma, fazer parte da mudança do mundo para algo melhor”

Os seus Big Trash Animals invadem muros, prédios, túneis, carros… Qual é a grande mensagem que quer partilhar através deste seu trabalho?

Com o meu trabalho, a ideia passa por representar uma imagem da natureza, neste caso os animais, construída com aquilo que os(a) destrói — o lixo, a poluição, o desperdício e a contaminação. Os animais são a forma direta de retratar a Natureza, pois têm expressões, movimento, sentimentos e agem de uma forma que nos pode sensibilizar. Assim, são o melhor meio para pintar e modelar, quando se pretendem abordar questões ambientais.

Para mim, é fulcral ter uma palavra a dizer, tocar em pontos sensíveis e relevantes, fazer parte da consciencialização e, desta forma, fazer parte da mudança do mundo para algo melhor. É um desperdício trabalhar num espaço com visibilidade e não ter nada relevante para dizer.

Há um alerta de “atenção ao desperdício” em todos os seus trabalhos. No lixo que a nossa sociedade tende a ignorar, o Bordalo II vê uma obra de arte à espera de nascer? Qual é o seu ponto de partida para uma obra?

É um processo muito livre, freestyle. Obtenho os materiais, corto-os em pedaço e, utilizando uma imagem ou esboço de referência, componho a peça até a transformar no que pretendo. Geralmente represento espécies autóctones em perigo ou em extinção, mas muitas vezes apelam a um problema global.

Entende o seu trabalho como uma crítica social? Uma crítica ao crescimento das cidades sem olhar à sustentabilidade?

Com certeza. Tenho de abordar pontos sensíveis, relevantes, que fazem parte da consciencialização. Arte e cultura são a base que pode mudar uma geração inteira, com todas as mensagens direcionadas para que as pessoas possam pensar sobre o que realmente interessa e eventualmente mudar algo neste Mundo.

Falando propriamente da arte em si, o Bordalo II reutiliza lixo para dar forma aos animais, pintando-os e expondo-os já em várias cidades do mundo. Consegue indicar-nos alguns dos trabalhos que lhe tenham dado um especial gosto em realizar?

A minha peça preferida é a Gift for Mother Nature, peça feita há uns anos. Não é um animal, mas foi feita com um contentor do lixo e todo o lixo que estava à volta, pela altura do Natal.

Uma que foi particularmente desafiante foi a Pelican, que foi montada num barco abandonado ao largo de Aruba. Houve momentos que parecia impossível conseguir terminar.

Bordalo II

São várias as cidades do mundo com trabalhos seus. Temos, por exemplo, recentemente, o trabalho no motel em Las Vegas, o Wild Wild Waste. É um autêntico zoológico, com um olhar até humorístico trazido pelos animais. De que forma é que pensou esta instalação?

Neste trabalho, quis imprimir uma crítica forte à situação dos animais em cativeiro e promover a consciencialização dos danos no ambiente e animais. Por este motivo, escolhi os animais e a ideia é a do confronto, mudar consciências passo a passo e usar a arte como plataforma de comunicação.

Os seus trabalhos trazem ao de cima a sua veia de pintor, escultor, graffiter… O Bordalo II é tudo isto ou já encontrou uma melhor palavra para se definir?

Artivista!

Podemos saber se, nos próximos tempos, vamos poder ver mais trabalhos em Portugal? Que planos futuros tem no nosso país? Quiçá um novo Attero?

Em breve terei mais notícias, mas por agora não quero estragar a surpresa.

A nossa última pergunta tem a ver com uma questão que, em Portugal, parece ser considerada normal. O nome Bordalo II saltou para a ribalta em Portugal muito depois de, internacionalmente, as suas obras serem aplaudidas. Considera isto falta de valorização? Ou falta de conhecimento pelo seu trabalho?

Sim, é verdade, não quero desvalorizar o público português por isso, mas talvez alguns media internacionais tenham estado mais atentos e assim a divulgação internacional foi mais imediata.

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