Revista Rua

Branko: “Sou um produtor de música com uma missão: criar destaque sobre coisas que eu acho bonitas”

O produtor Branko lançou um set especial gravado na Serra da Penha, em Guimarães, e atua no Centro Cultural Vila Flor esta sexta-feira, dia 21 de maio.
©aidanklessic
Andreia Filipa Ferreira20 Maio, 2021
Branko: “Sou um produtor de música com uma missão: criar destaque sobre coisas que eu acho bonitas”
O produtor Branko lançou um set especial gravado na Serra da Penha, em Guimarães, e atua no Centro Cultural Vila Flor esta sexta-feira, dia 21 de maio.

Chama-se João Barbosa, mas o público reconhece-o pela alcunha de Branko. É produtor, DJ e música no seu estado puro.. ou pelo menos esta é uma das formas que o podemos descrever, já que não há rótulos para identificar a criatividade de Branko. “Acho que sou um produtor de música bastante focado na minha missão, que é tentar chegar a sítios novos, a encontros musicais ou culturais novos e conseguir, de alguma forma, criar algum destaque sobre coisas que eu acho bonitas, música que eu acho que devia ser ouvida ou até mesmo artistas, paisagens, etc. Se calhar eu próprio me perco a tentar explicar o que eu sou”, conta-nos João, numa entrevista que antecipa o concerto especial no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a dia 21 de maio. Mas, antes de iniciar a leitura desta entrevista, a RUA sugere: pesquise no Youtube “Branko Guimarães DJ Set”. Clique no play. Aumente o som. Agora siga a leitura!

Em primeiro lugar, vamos a apresentações: João Barbosa, também conhecido como Branko, tornou-se conhecido como a força criativa dos Buraka Som Sistema, o fenómeno mundial cujos lançamentos ajudaram a criar uma nova atitude em relação à world music. Considerado um dos mais inovadores produtores e DJs da atualidade portuguesa, Branko é originalidade em cada beat. É uma descrição que te deixa satisfeito? De que forma te apresentarias nesta fase da tua vida?

Eu acho que acima de tudo sou um produtor de música (risos) Foi assim que comecei e essa é a base de todo o meu trabalho. Aquilo que eu sinto é que, enquanto produtor de música, fui acrescentando uma série de perspetivas diferentes sobre a produção de música, sobre a performance dessa mesma música e acabei por, obviamente, encaixar-me noutras categorias como DJ e por aí. Mas no meio disso, eu acho que a ideia de me sentar em frente a um computador e produzir música com recursos a meios eletrónicos já me levou a fazer um bocadinho de tudo, desde tocar em festivais gigantes até gravar um programa de televisão para a RTP2 a viajar pelo mundo, mostrando a fusão musical que existe numa série de cidades e criar uma série de paralelismos também com a nossa cultura em português.

Eu, na verdade, não sei muito bem como hei de me definir (risos) Acima de tudo, acho que sou um produtor de música bastante focado na minha missão, que é tentar chegar a sítios novos, a encontros musicais ou culturais novos e conseguir, de alguma forma, criar algum destaque sobre coisas que eu acho bonitas, música que eu acho que devia ser ouvida ou até mesmo artistas, paisagens, etc. Se calhar eu próprio me perco a tentar explicar o que eu sou (risos).

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É impossível não falarmos da fase pandémica que vivemos, que nos mostrou uma realidade problemática da cultura portuguesa. Como é que viveste esta fase? Foi uma fase criativa para ti? Ou foi complicado?

Eu não diria que foi complicado, diria que foi desafiante. Acho que, nesse sentido, foi um desafio que eu tentei sempre encarar a tentar ver o copo meio cheio. Eu sinto que a música é muito forte e arranja sempre forma de chegar às pessoas… e as pessoas arranjam sempre forma de chegar à música. Os formatos vão mudando, são cíclicos. Quando passamos do vinil para o CD, as pessoas disseram que a música ia acabar. Quando passamos do CD para os downloads ilegais era o fim da indústria da música como nós a conhecemos. Depois, de repente, entra o streaming… As coisas estão sempre a reinventar-se! Eu quase que vejo esta fase de pandemia como um desses ciclos, sendo que aqui o que se renovou não foi tanto o formato – porque o que se manteve sempre constante conforme os formatos de ouvir música iam variando foram os concertos e as apresentações ao vivo. Neste caso, aquilo que eu sinto que foi completamente renovado ou revisto foi exatamente esse lado da atuação, da performance musical. Acima de tudo, eu sinto que o que veio ao de cima foi a necessidade de criar algum tipo de interesse, de sumo, de tentar fazer algum tipo de afirmação com atuações. As atuações que se mantiveram e os artistas que continuaram de alguma forma a tocar, seja em casa, seja em palcos com plateias de pessoas sentadas, foram os artistas que tinham algo a dizer, cuja mensagem passa independentemente daquilo que esteja a acontecer no mundo.

Eu acho que isso acabou por ser um bocadinho a forma como eu me tentei inserir. Eu pensei: vou tentar fazer com que seja ainda mais óbvio tudo aquilo que eu tenho falado nos últimos tempos, toda a música que eu tenho tentado apresentar, seja com a editora Enchufada, seja com as minhas próprias colaborações. Tentei com que isso falasse ainda mais alto através de sets em casa ou em paisagens incríveis por Portugal. Tentar mostrar uma série de coisas que criem um espaço completamente novo. Não estava a reinventar os concertos nem o livestream. Estava a tentar criar um espaço novo, que existisse dentro das redes sociais e dentro dos meios tecnológicos para conseguir continuar a dar algo à minha audiência, a quem me segue, a quem quer ouvir a minha música… e, quem sabe, talvez chegar a outras pessoas que não estavam nos meus seguidores antes da pandemia.

Sentes que a pandemia exigiu que fosses proativo e mostrasses a essa audiência que te mantinhas inspirado?

Sim, para mim foi super importante ter este tempo para parar. Um dos maiores impulsos criativos da minha vida eram as viagens e as colaborações com parcerias um pouco por todo o mundo. Ao pensar em substituir isso por alguma coisa, a escolha recaiu sobre Portugal, com paisagens, com sítios incríveis onde eu já fui e de alguma forma ainda não tinha tido a oportunidade de revisitar ou ver de uma forma diferente. Tentei contextualizar essas paisagens com a música e com uma forma de viver, de estar e de ouvir música com a qual eu me identifique. Tentar, no fundo, criar uma paisagem completa.

“Estava a tentar criar um espaço novo, que existisse dentro das redes sociais e dentro dos meios tecnológicos para conseguir continuar a dar algo à minha audiência, a quem me segue, a quem quer ouvir a minha música…”

Como é que surge esta ideia dos sets em locais reconhecidos pela sua paisagem? Foi como juntar o poder da natureza com o poder da música? Foi esse o teu ponto de partida?

Eu diria que foi tudo bastante orgânico. Foram impulsos que foram acontecendo e eu fui respondendo dessa forma sem pensar muito no assunto. Eu nunca intelectualizei muito o facto como “isto vai dar plays” ou “isto vai agarrar a atenção das pessoas”. O primeiro set que eu fiz foi num rooftop em Lisboa, em maio de 2020. Eu fi-lo porque estava a precisar de sair de casa. Estava mesmo a precisar de ver uma paisagem, de olhar para o céu, de ver a cidade daquela forma. Foi só uma questão de o fazer a tocar música. Não foi nada muito pensado.

Depois, durante o resto do verão, com a ideia de tentar levar algumas paisagens de Portugal para os pequenos sets que eu ia fazendo no Instagram, tudo também acabou por ser super orgânico no sentido de que o meu material é realmente pequeno e portátil. E eu ainda consigo torná-lo mais pequeno! Aproveitei que não tinha concertos e fui passear pelo país com a família, levando o controlador pequeno, uns phones e o laptop na mochila (como eu levo praticamente sempre) e nesse processo pensei em gravar uns sets com o telemóvel por aí. E tudo foi acontecendo. Só fui intelectualizando a questão à medida que as coisas iam acontecendo. Quando eu fui gravar o set na Serra da Estrela, já com uma equipa maior, senti que já estava exatamente a pensar no sítio onde estava a gravar o set, de que forma é que a música se ia relacionar com o espaço, com a paisagem, uma certa revisão de alguns conceitos de música tradicional portuguesa que eu tentei apresentar no set. Então, eu sinto que isto foi como uma bola de neve que foi girando e foi crescendo à medida que ia descendo a colina (risos).

É engraçado como esse set na Serra da Estrela acabou por dar origem a uma campanha turística também. É interessante para ti veres-te envolvido nesta lógica de promoção turística?

Certo! Eu acho que nós portugueses – e a cultura portuguesa – peca em geral no sentido em que não sabe chamar à atenção para aquilo que está cá dentro, seja culturalmente, musicalmente ou paisagisticamente em vários níveis. Acho que, às vezes, temos muita dificuldade em olhar para coisas e considerá-las tão incríveis como elas são. Eu tento ter essa objetividade. Tento ter um zoom out e ver essas coisas de fora. Pensar que, se eu tenho alguma audiência e se alguém está a ouvir e a ver estes sets, tenho de tentar apresentar-lhe essas coisas incríveis. O facto de eu ter passado uns dias no verão na Serra da Estrela e me ter apercebido do impacto daquela paisagem sem neve – que eu nunca tinha visto sem neve -, fez-me achar que milhares de outras pessoas iam sentir a mesma coisa, esse impacto. Foi exatamente isso que me motivou a gravar na Serra da Estrela. Sinto que tenho de apontar para as coisas e dizer “isto é fixe”, a vários níveis, sejam artistas novos e emergentes, sejam paisagens, sejam marcas de roupa em crescimento de pessoas que têm uma boa ideia e estão a tentar pô-la em prática. Sinto que isso faz mesmo parte do conteúdo que um artista tem para oferecer. Porque eu não faço músicas numa garagem sobre questões do mundo. Eu sou um produtor de música. Eu relaciono-me com o meu ambiente, com o que está a acontecer à minha volta, com quem está à minha volta. Isso tudo acaba por se refletir nos beats que eu faço e na forma como eu acabo por contextualizá-los em sets, em atuações ou em discos.

“O set de Guimarães – e ir exatamente ao berço de Portugal – passou muito pela ideia de, de alguma forma, Guimarães representar um recomeço. Eu sinto que, depois de um ano de pandemia, eu também estava num recomeço.”

Recentemente lançaste o set gravado na Serra da Penha, em Guimarães. Podes falar-nos desta experiência em concreto?

A ideia partiu de mim no sentido de dar continuidade a esta sequência de sets mais trabalhados que estou a colocar no Youtube (Lisboa, Serra de Estrela e agora Guimarães). Foram sets para os quais eu tentei quase sempre criar música praticamente nova ou pedir a artistas que estejam à minha volta para me enviarem música nova para eu inserir no set para criar um momento, apesar de digital, o mais único possível. Não se vai conseguir ouvir aquela música e ver aquela paisagem a não ser que se esteja a ver aquele vídeo. Para mim, isso foi muito importante nesses três sets.

O set de Guimarães – e ir exatamente ao berço de Portugal – passou muito pela ideia de, de alguma forma, Guimarães representar um recomeço. Eu sinto que, depois de um ano de pandemia, eu também estava num recomeço. Se calhar estava a fazer música como nunca tinha feito, mais focada num lado mais instrumental, com menos participações vocais, com uma abordagem um bocadinho diferente do que tinha estado a fazer até ao momento. Porque, como é óbvio, estou a criar música de forma menos social e mais fechada em mim próprio, imaginando estas paisagens e estes sets como o ponto em que essa música que estou a criar vai comunicar com as pessoas. E, como tal, senti que Guimarães e a Montanha da Penha representava isso de uma forma super interessante: essa ideia de começo ou recomeço ou nova abordagem à música. Obviamente que, depois, tudo ganhou mais sentido quando conseguimos marcar o concerto no Centro Cultural Vila Flor. No espaço de um mês consegui criar estes dois momentos: primeiro, um momento digital e, no dia 21 de maio, um momento físico. Acho que é exatamente assim que são para ser vividos estes momentos. No fundo, não só criar um tópico de conversa e de interesse para as pessoas locais e que estão em Guimarães, como também para uma série de pessoas que, de repente, durante um mês, começaram a ouvir falar de uma cidade que se calhar pode não se atravessar tanto no seu dia a dia a nível cultural.

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No dia 21 de maio, às 19h30, sobes ao palco do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, para um concerto que é o culminar desta experiência na Serra da Penha. O que tens preparado?

Os concertos que eu tenho estado a desenvolver já os estava a fazer antes da pandemia e acho que consegui desenvolver ainda mais o conceito: são atuações audiovisuais em que eu tento vou levar as pessoas numa viagem musical, que se está a refletir naquilo que elas estão a ver no ecrã atrás de mim. Esse ecrã passa um pouco por tudo: por sessões de estúdio, conteúdo filmado por mim ou com base em projetos que eu desenvolvi. O que as pessoas estão a ouvir na música reflete de alguma forma aquilo que estão a ver no ecrã. Cidades, sessões de estúdio, paisagens, etc. É um formato quase documentário. Eu sinto que é algo especial é porque o concerto será quase como ver um filme nesse sentido. É tentar aproveitar o facto de as pessoas estarem sentadas, de estarmos numa sala que se calhar não é a mais óbvia para um DJ tocar, tentar subverter isso numa atuação para tentar seduzir não só o sentido da audição, mas também o sentido da visão e tentar transportar as pessoas numa viagem. O que será especial será exatamente essa viagem porque vai ser pensada unicamente para as pessoas que estarão ali na sala. Eu não faço um concerto igual ao outro, apesar de obviamente os conteúdos serem um bocado os mesmos, rearranjados de uma forma ou de outra. Tenho sempre algo novo e especial para a apresentação em concerto. Trazer coisas novas é como sempre me relacionei com as atuações.

Que mais ideias tens na manga para os próximos tempos? Vais continuar a dar vida a sets especiais pelo nosso país? Já há planos para o verão?

Eu acho que, para os próximos meses, começamos a ver uma luz ao fundo do túnel a nível do restauro normal da indústria como ela era, o regresso à normalidade, aos concertos. Mas acho que, acima de tudo, essa normalidade total vai acontecer depois do verão. Por isso, eu sinto que o verão vai ser o fechar desta fase.

Estou a pensar em mais sets e em gravar mais ideias, dando continuidade. No fundo, tenho sets em Lisboa, tenho a região centro interior e tenho a região norte. Falta-me ir um bocadinho para o sul de Portugal e ilhas. Portanto, ainda tenho algum caminho por fazer e vou tentar fazê-lo da melhor forma possível. Eu imagino que também, de uma forma ou de outra, vão haver alguns concertos, algumas coisas que se estão a marcar, mas eu acho que vão ser coisas anunciadas em cima da hora, com menos produção e programação do que aquilo que seria num verão normal. Depois disso, felizmente, estão a marcar-se bastantes datas para o pós-verão. Anunciei ainda esta semana uma data em Londres para novembro. A partir daí, vai haver com certeza uma série de datas pela Europa, voltando ao circuito normal que eu fazia antes da pandemia.

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