Revista Rua

Bruno Gascon: “Sou muito exigente com o que faço e, na verdade, nunca fico inteiramente feliz”

Bruno Gascon é o realizador de Sombra, o filme português pré-selecionado para os Óscares 2022.
Sombra, de Bruno Gascon, tem a atriz Ana Moreira como protagonista de uma história angustiante ©Luis Sustelo
Andreia Filipa Ferreira26 Outubro, 2021
Bruno Gascon: “Sou muito exigente com o que faço e, na verdade, nunca fico inteiramente feliz”
Bruno Gascon é o realizador de Sombra, o filme português pré-selecionado para os Óscares 2022.

Realizador e argumentista português, Bruno Gascon é a mente criativa por detrás de Sombra, o filme que estreou nas salas de cinema nacionais a 14 de outubro e que trouxe a angústia de uma história que rapidamente nos relembra o mediático caso do desaparecimento de Rui Pedro. Com Ana Moreira numa exímia prestação como mãe em desespero por encontrar respostas, Sombra é a segunda longa-metragem do realizador português que deu cartas com Carga, em 2018. Dias antes da exibição do filme em Londres no Raindance Film Festival, onde Bruno Gascon está nomeado para o Prémio de Melhor Realizador e Ana Moreira para Melhor Performance, o realizador está em entrevista à RUA, numa conversa sobre inspiração, anseios e preocupações face ao cinema português.

Bruno Gascon

Depois de uma pandemia que obrigou ao adiamento da estreia do filme, Sombra chegou finalmente aos cinemas trazendo uma história angustiante e, ao mesmo tempo, necessária de ser contada. A nossa primeira pergunta para o Bruno tem a ver com o argumento deste filme. Porquê contar esta história?  

Durante a investigação para o meu primeiro filme, Carga, cruzei-me com inúmeros dados ligados ao tema do desaparecimento de crianças e senti logo que era algo que queria trabalhar. Carga era um filme feito na perspetiva dos que iam, dos que eram levados, dado que se focava no tráfico de seres humanos. Queria que Sombra fosse um filme sobre os que ficavam para trás e que ficavam à espera do seu regresso. Ao falar com a Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas e ao ter contacto com famílias que vivem nessa angústia de não saberem o que aconteceu aos seus filhos, alguns deles desaparecidos há mais de vinte anos, tive ainda mais certezas de que esta era a história que queria contar. Queria mostrar a força e a coragem que as famílias têm e o que muitas vezes acontece quando a imprensa se afasta e eles ficam sozinhos com a sua espera.

É um filme que traz a angústia e o sofrimento das famílias (neste caso, uma mãe) que viram o seu mundo virado do avesso após o desaparecimento de uma criança. Trazer essa angústia para o grande ecrã foi um processo exigente? Como descreve esse processo?

Torna-se mais exigente quando conheces as pessoas em quem te inspiras e gostas delas. Encontrei pessoas incríveis e de uma força imensa durante a investigação, como é o caso da Filomena Teixeira e da sua família. O meu objetivo era dar uma visão o mais realista possível daquilo que vivem e, sobretudo, fazer uma homenagem à sua força e coragem. O processo de escrita foi muito longo, o trabalho com os atores também, felizmente tive um elenco extremamente dedicado e composto por pessoas de quem gosto muito, muito talentosas e com quem se torna muito fácil trabalhar. Acho que foi um privilégio para todos nós podermos fazer este filme da forma como fizemos e sabermos no final de tudo que as famílias ao verem o filme se sentiram representadas com verdade e justiça.

A escolha de Ana Moreira para o papel de protagonista em Sombra revelou-se certeira. Têm sido muitos os elogios à prestação da atriz. Como foi o processo de construção dessa personagem com Ana Moreira?

Desde o início quisemos mostrar uma mulher forte, que vai à luta e que apesar de ser vítima das circunstâncias e do que lhe acontece não é de todo uma vítima. Num universo de sombras esta personagem é a luz do filme, a esperança. É uma personagem que tem muitas camadas e atravessa um período de aproximadamente 15 anos, o que se torna um grande desafio a vários níveis: interpretação, caracterização, guarda-roupa. Acho que a equipa fez um trabalho incrível que me deixou a mim e à Ana muito confortáveis para podermos filmar à vontade sem termos qualquer receio de que exteriormente a personagem não estivesse realista ao longo dos vários anos em que aparece. Depois, a parte mais importante era, claro, a interpretação para que pudesse existir verdade e realismo e a Ana fez um trabalho incrível. É impossível imaginar-se este filme com outra pessoa.

O Bruno orquestrou um elenco de luxo. Vítor Norte, Miguel Borges, Ana Bustorff, Joana Ribeiro… Foi um processo de rodagem aliciante?

Acho que o processo de escolha de atores é sempre algo muito pessoal para qualquer realizador e que quando corre bem torna a rodagem mais aliciante, fluída e gratificante. Foi um prazer poder ter tido na Sombra atores que admiro tanto, com quem gosto de trabalhar e com quem certamente irei filmar novamente.

“Queria mostrar a força e a coragem que as famílias têm e o que muitas vezes acontece quando a imprensa se afasta e eles ficam sozinhos com a sua espera”

Sombra foi premiado no Festival de Cinema de Barcelona e foi pré-selecionado para representar Portugal nos Óscares. Isso é, por si só, motivo de orgulho?

Mentiria se dissesse que não. Sombra é apenas o meu segundo filme, logo todas as vitórias são sempre muito bem-vindas. A nível internacional, o filme tem tido uma grande aceitação. A estreia mundial de Sombra dá-se precisamente internacionalmente no Festival de Cinema de Barcelona – Sant Jordi, onde foi distinguido com o prémio de melhor obra e o galardão Filme- História. Integrou ainda a secção Spectrum: Alternatives, da 24ª. edição do Festival Internacional de Cinema de Xangai; apresentou-se no Festival de Cinema Ischia em Itália, tendo sido selecionado também para a secção Panorama do Mastercard Off Camera na Polónia e para o festival de cinema francês Les Reflets du Cinéma Ibérique et Latino-Américain. Depois estreámos cá em Portugal no dia 14 de outubro em 46 cinemas por todo o país e agora no dia 30 de outubro somos apresentados em Londres no Raindance Film Festival, onde estou nomeado ao Prémio de Melhor Realizador e a Ana Moreira nomeada para Melhor Performance. É sempre um orgulho receber esse reconhecimento internacional e sentir que, independentemente do país onde estamos, o filme é sempre recebido com muito carinho deixando as pessoas muito comovidas. No meu caso, confesso que é sempre diferente quando o reconhecimento é nacional, até porque na minha opinião acaba por ser mais difícil de conseguir especialmente para quem está a começar. A pré-seleção para ser candidato a representar Portugal nos Óscares 2022 foi uma agradável surpresa. Seja qual for a decisão dos membros da Academia Portuguesa de Cinema, o simples facto de o filme ter sido considerado já nos deixa muito felizes.

O Bruno já tinha mostrado o seu trabalho de realização com Carga, em 2018. De que forma Sombra coloca também em evidência a sua maturação enquanto realizador?

Sinto que Sombra é um filme muito mais maduro do que Carga e que acaba por ser mais forte do ponto de vista de argumento e realização. Já disse isto várias vezes: é um filme muito pessoal para mim embora ambos sejam muito especiais, cada um à sua maneira. Só se evolui fazendo. Sou muito exigente com o que faço e, na verdade, nunca fico inteiramente feliz porque acho sempre que se poderia fazer mais, por isso é que acho que é essencial para qualquer realizador poder ter a oportunidade de experimentar, falhar, acertar, aprender com os erros, testar novas técnicas e no fundo poder evoluir de filme para filme.

É notório que os temas sociais orientam a linha de inspiração do Bruno. Considera que é necessário dar voz a certas histórias de modo a conseguir chamar à atenção para a realidade da sua existência? O trabalho do Bruno pode descrever-se como uma chamada de atenção para o mundo cinzento que nos rodeia?

Se os meus filmes conseguirem fazer isso é algo que me deixa muito feliz. Acho que o cinema e a arte no geral têm esse poder: o de fazer chegar mensagens às pessoas sobre coisas em que por norma elas não pensariam. Acho essencial dar voz a este tipo de histórias.

“Acho que o cinema e a arte no geral têm esse poder: o de fazer chegar mensagens às pessoas sobre coisas em que por norma elas não pensariam. Acho essencial dar voz a este tipo de histórias”

Evadidos é também um filme do Bruno que entretanto chegará ao público. Pode já adiantar-nos o argumento que orienta esse filme rodado em Barcelos?

Ainda não posso revelar muito, mas posso dizer que é um filme diferente dos que fiz anteriormente onde, a partir de uma distopia realista, falo sobre temas como a ditadura, liberdade de expressão e direitos humanos. A estreia do filme está prevista para 2022.

É impossível não perguntarmos: o Bruno considera que estamos a viver uma boa fase para o cinema português? É notório que temos talento a nível de realização, de produção, de representação… Mas continua a faltar apoio e divulgação? São essas as exigências?

Acho que vivemos uma fase de mudança e de crescimento. Existem muitas pessoas diferentes a filmar e a diversidade de géneros está a aumentar. Isso é muito enriquecedor para o país. Quanto ao que questiona, sinto que existem duas limitações muito grandes: diversidade de fontes de financiamento e – aquela que para mim é uma das maiores – a eficácia das estratégias de marketing e de distribuição que considero que precisam ser repensadas de forma a poder haver uma maior aproximação dos portugueses ao cinema nacional.

Por último, gostaríamos de perguntar ao Bruno que planos tem para o futuro próximo: que anseios existem em termos de carreira? Vai continuar a apostar nas longas-metragens que nos fazem pensar sobre os problemas sociais? Que outras ideias tem em mente?

O meu objetivo é continuar a filmar, quem sabe experimentar novos géneros. Sobretudo quero poder continuar a poder pensar bem cada projeto, desenvolvê-lo com a devida calma que a investigação e a escrita deste tipo de filmes pede e, sem dúvida, continuar a apostar nas longas metragens sobre temas fortes. Neste momento estou focado no Evadidos e na investigação para um novo projeto que ainda não posso revelar.

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